O MEU PAÍSDentro da minha cabeçaTenho uma caixa de lápis de corCom que pinto os sonhos.NestePego no lápis castanho escuroE pinto duas muanhas altivasQue passavam perto de mim.Dou-lhes mais um pequeno toquePara que se veja o andarQue só as gentes do sul têmE que nós tão bem conhecemosE para podermos ouvir Os chocalhos amarrados na canela.Peguei nos verdes, ah os verdesE tive que usar todos ...
O MEU PAÍSDentro da minha cabeça
Tenho uma caixa de lápis de cor
Com que pinto os sonhos.
Neste
Pego no lápis castanho escuro
E pinto duas muanhas altivas
Que passavam perto de mim.
Dou-lhes mais um pequeno toque
Para que se veja o andar
Que só as gentes do sul têm
E que nós tão bem conhecemos
E para podermos ouvir
Os chocalhos amarrados na canela.
Peguei nos verdes, ah os verdes
E tive que usar todos os tons
Para pintar as matas densas
Passei levemente por cima
O lápis cinzento
Como esquecer-me dos cacimbos
Que tantas vezes me arrepiaram a pele?
Lá ao longe dois morros de basalto
Cortam o horizonte da savana
Pinto-os com o lápis preto.
Com o lápis amarelo dourado
Pinto a imensa anhara
Onde tantas vezes me perdi
E me encontrei.
No meu sonho tinha chovido
Uma chuva bravia, poderosa
Desenhando alinhavos no pano da tarde
E cheirava intensamente
Aquele cheiro da terra depois da chuva
Não o pintei, não consegui
Afinal
De que cor se pinta o cio da terra?
Com o lápis vermelho
Pintei o sol enorme de fim de tarde
E vi no mar
Aquele imenso rasto de sangue
Por fim, com o lápis azul
Sempre o lápis azul
Coloquei no canto direito
A minha assinatura
Esperando, ansiando
Que gostem deste sonho.
Não o vendo, apenas o ofereço
Afinal,
Que preço pode ter um país?
DE ONDE EU VENHODe onde eu venho
Não há dunas de areia
Águas soltas no céu
Pingando gengibre e doce mel
Rios, sim.
De onde eu venho
Estremecem paludismos
Fogueiras devoram as noites
Desejos por saciar
Estalam ruidosamente os ossos do tempo
De onde eu venho
Há cabaças de kissangua e hidromel
Virgens parindo ternuras
Sede da terra
Rios velhos, sim.
De onde eu venho
Planam girassóis ao vento
Gestos de vidro e luz de mil cores
Amores alucinados
Carne viva.
De onde eu venho
Há imbondeiros preguiçando ao sol
Sombras voam na floresta
Faúlhas dançam no escuro
Rios novos, sim.
De onde eu venho
Há mulheres dilacerando os milhos
Borboletas azuis
Ritmos da memória antiga
Rios pedregosos, sim.
De onde eu venho
Jovens ensaiam juras de amor
Luares derramados nas copas
Serpentes prateadas, nevoeiro
Rios serenos, sim
De onde eu venho
Há meninos rindo, na casa do meio
Nuvens brancas, girassóis
Corpos sedentos, febris
Rios mágicos, sim
De onde eu venho
Kissanges e batuques perfumam a noite
Fogueiras e pirilampos
Palavras apenas sussurradas
Rios sem margens, sim
De onde eu venho
Acendem-se candeias ao jantar
Despem-se silêncios desiguais
Águas gordas, grávidas
Rios primevos, sim.
RIOSCorrem-me rios nas veias
Muitos lhes conheci já na foz
Rios gordos desabando no grande mar
Outros encontrei nos caminhos
Rios de sim e não
Rios suficientes
Vadiando águas em festa
Nunca conheci pequeninos
Não perguntei
Vi rios amigando com outros rios
Rebolando nas pedras
Engravidando margens
Conheci rios de ser feliz
Deixei-me levar
Rios com cais
Atracando barcos e vidas
Rios doces, cheirosos
Tresandando a rosmaninho
Rios de memórias
Correndo ao contrário
Rios de permanecer
Acabei por ficar
biografia:
Henrique FariaAngolano por coração.
Português por nascimento.
Médico por vocação.
hfaria1@gmail.com