Chorei-te os traços medievais engoliveneno isolei-me numa arquelogia de giz e não desenhei mais um grego perfilpara beijarnão passas do papelpara a ogiva dos meus braços e morroantes que me encerrem as palavrasnuma fábrica de significadose uma língua de águame passe no rostoalucinadoTe lloro los trazos medievales tragoveneno me aíslo en una arqueologiade tiza y no dibujo másquew un grego ...
Chorei-te os traços medievais engoli veneno isolei-me numa arquelogia de giz e não desenhei mais um grego perfil para beijar
não passas do papel para a ogiva dos meus braços e morro antes que me encerrem as palavras numa fábrica de significados e uma língua de água me passe no rosto alucinado
Te lloro los trazos medievales trago veneno me aíslo en una arqueologia de tiza y no dibujo más quew un grego perfil para bejar
no pasas del papel a la ojiva de mis brazos y muero antes de que me encierren las palabras en una fábrica de signos y una lengua de agua me pase perdida por el rostro alucinado
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Nao me suicido ainda porque te quero ver vestido para o verão quero medir o músculo escuro que te sobra à camisa e passar a língua na linha cortante dos teus dentes brancos. Eu quero
os teus dentes brancos para mim. Por isso deixa-me esperar este calor onde aparecerás vestido ou despido de linho brando
No me suicido todavía porque te quiero ver vestido para el verano quiero medir el músculo oscuro que te sobra en la camisa y pasar la lengua por la línea cortante de tus dientes blancos. Yo quiero
tus dientes blancos para mí. Por eso dèjame esperar este calor donde aparecerás vestido o desnudo de lino blando
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Não agites mais calor ele respinga sangue perfumado e os abetos murcham
não agites mais as rosas estão queimadas junto ao soluço dos gatos e o sangue espalha um alvoroço de galos
No agites más calor èl respinga sangre perfumada y los abetos se marchitan
no agites más las rosas están quemadas junto al sollozo de los gatos y la sangre esparce un alboroto de gallos
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Nasci no segundo andar duma casa numa rua da cidade de Angra, onde não havia o perfume das laranjeiras, nem o cheiro a relva acabada de lascar. Uma casa com janelas viradas para outras janelas de outras casas iguais; casa de muitas tias, com Pai e Mãe e onde a única sombra me era dada pela magia dum irmão mais velho – irmão que me enchia os olhos de livros e medos. E foi neste meu pulsar de criança que se espalhou a luz e que, num segredo nocturno, fui procurando as curvas das palavras que melhor desenhariam um fecundo percurso de lágrimas. Aprendi o monólogo. E, sem nunca deixar a cidade onde nasci, limitei-me a passar por estes enigmáticos canais – veias da vida – exibindo sempre o desejo de transformar beliscões em carícias e de, ao fazê-lo, ir dando ao papel o verdadeiro encontro com a existência. Não fiz mais do que me agarrar à lua, para espalhar o sangue e receber as pedras e brincar ao fogo e acumular as raízes e alcançar a infância dos filhos. Sou aquilo que o tempo exige que eu registe: quando encontro a claridade procuro a sombra para descobrir o desassossego e quando encontro o desassossego, procuro a claridade para perseguir a sombra. E neste vento, às vezes tempestade, passei quatro décadas sustentando a ilha num eterno passeio entre a terra que me gerou e a terra que me receberá, num dia de sépia com mar ao longe.