ÂNCORAHá muito tempoQue penteio esta sedaHá muito tempo que faço esta camaEstes lençóis dão-me vertigensSe cair da camaCaio no tectoAbre esta varandaPerfura este relógioPrende a âncora deste navioMEUS OLHOSDesejo fechar os olhos e viajar por novos mundosDesejo fechar os olhos e perder-me em mim mesmoDesejo fechar os olhos e abri-los a es ...
ÂNCORA
Há muito tempo
Que penteio esta seda
Há muito tempo que faço esta cama
Estes lençóis dão-me vertigens
Se cair da cama
Caio no tecto
Abre esta varanda
Perfura este relógio
Prende a âncora deste navio
MEUS OLHOS
Desejo fechar os olhos e viajar por novos mundos
Desejo fechar os olhos e perder-me em mim mesmo
Desejo fechar os olhos e abri-los a esta música
Pois sempre que fecho os olhos vou acariciando a vida lentamente
Pestanejando de memória em memória, de porto em porto,
Beijo esta bailarina que dança hipnotizada diante de mim
Desejo ser eu a dançar e não ela
Desejo dançar novamente como dançava
De olhos fechados dentro da barriga que me deu vida
Desejo fechar os olhos e acordar ao som desta caixinha de música
Pois um dia fecho os olhos e nunca mais os abro
Um dia fecho os olhos e nunca mais vêem meus olhos
Um dia fecho os olhos e nunca mais meus olhos são vistos
FERIDAS
Amo-vos, cicatrizes
Pois sois reais
Amo-vos, cicatrizes
Porque não fugis
Amo-vos, cicatrizes
Porque nunca mudais
Amo-vos, cicatrizes
Sois puras, imutáveis,
Fiéis e incontornáveis
Amo-vos, cicatrizes
Porque fazeis parte de mim
Amo-vos, cicatrizes
Pois somos um só.
[Ferida aberta: não tocar!]
biografia:
Se interessa para o registo a impossível tarefa de resumir uma vida em algumas linhas, pode-se dizer que João Moura, alma viajante, coração revoltado, espectador do mundo e das danças da vida, nasceu em V.N. Famalicão, a Dezembro de 1982.
É licenciado em Relações Internacionais e em Comunicação Social pela Universidade do Minho.
Exerceu várias funções, entre elas escreveu no jornal Público, foi operador de imagem para a Google e é ainda realizador dum programa semanal de música alternativa na Rádio Universitária do Minho.
Dedica-se agora à escrita, após anos de guerrilha com a mesma no seu blog:
http://depoisdodiluvio.blogspot.com.
Pode encontrá-lo normalmente na rua ou passar despercebidamente por ele, como pessoa simples e desconhecida que é. A escolha é sua.