Tempo despernadoA faca não tem gumeA chuva é fio eléctricoUm pássaro curto-circuitoO voo é subsoloCadeiras não têm pernasHá árvores sem raizFolhas sem nervuraCinzelos sem pontasBatendo no pão secoNo pão seco das pedrasTempo de mineirosPor entre galeriasNa lamina do escuroPrendem-nos sem cordasUm cão mija nos f&oacut ...
Tempo despernado
A faca não tem gume A chuva é fio eléctrico Um pássaro curto-circuito O voo é subsolo Cadeiras não têm pernas Há árvores sem raiz Folhas sem nervura Cinzelos sem pontas Batendo no pão seco No pão seco das pedras Tempo de mineiros Por entre galerias Na lamina do escuro Prendem-nos sem cordas Um cão mija nos fósforos O Inverno queima A sede é delinquência De que somos acusados À luz da fome Vislumbramos capoeiras de galinhas E ao nosso choro Dizem que comamos a polpa da pedra Laranjas sem gomos E o sol sem raios Que sejamos flores sem cúpulas Durmamos sem travesseiro!
manuel feliciano
Torre de Babel
Subiram pelas escadas Invadiram as salas Desabotoaram gavetas Partiram as jarras No centro das bocas Sentaram-se sem licença Escoaram-nos a alegria No calor das chávenas E nas águas furtadas Dos braços sem voz Furtaram-nos quadros De beijos afogados No azul dos olhos Pisaram-nos o céu Deitaram água ao amor Mas Deus não morreu Amarrou-lhes a língua!
manuel feliciano
Fora de nós mesmos
Sentemo-nos nos calhaus da tristeza Sem folhas secas nos olhos E espigas cortadas nos dedos Beijemos a ferida como se fosse a rosa Que os nossos sentimentos pastem Como cordeiros fora de nós mesmos Quando nas ruas de Jerusalém o sol desmaie Olhemos para trás sem o depois Descabelando nossas mãos ao sol Sem pontos de interrogação desfigurando Faces de homens visivelmente alegres Que um rio de pedra ainda verta água Nas vértebras do silêncio que nos deram Que a pedra seja carne correndo na fonte Que o ópio alimente barcos vergados de carga E se primaveras morrerem em nossas pálpebras Pensemos sem dor que somos de algum berço.
manuel feliciano
biografia: Manuel Luís Feliciano Nasceu em Vilar de Barrô - concelho de Resende, a 20 de Dezembro de 1975. Licenciou-se na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa na qual concluiu o curso de Línguas e Literaturas Modernas - Variante Estudos Portugueses e Franceses a 3 de Novembro de 2005. Começou a publicar os primeiros poemas no Jornal Voz De Lamego na coluna de poesia, mais tarde publicou em revistas peruanas como El Parnaso de Apolo e Olandina. Consta de sua autoria \'Pedaços de Gente em Mim\', \'Palavras em Guerra\', \'Uma Flor ao luar\'.