MARGENSDedicado à minha mãe e aos meus filhos enquanto navegoentre as margens opostas em que habitam.A distância se mede em água e sal,em horas que navegam entre margens,vice versas de adeus, como dentadas,e outras inclemências.Entre Ítaca e Ítaca transportode contrabando na mochila apátridaos fios com que alinhavo paradoxosao sul dos frutosao norte das raízes.Tantas gotas de ausência de ...
MARGENSDedicado à minha mãe e aos meus filhos enquanto navego
entre as margens opostas em que habitam.
A distância se mede em água e sal,
em horas que navegam entre margens,
vice versas de adeus, como dentadas,
e outras inclemências.
Entre Ítaca e Ítaca transporto
de contrabando na mochila apátrida
os fios com que alinhavo paradoxos
ao sul dos frutos
ao norte das raízes.
Tantas gotas de ausência desafiam meus braços
que os meus remos, qual bússolas dementes,
despedaçaram a rosa dos ventos.
E eu já não sei que terra é essa terra
que eu chamo lar.
Pátria é o chão aonde alguma vez
se imprimiram as solas dos meus mortos
e por isso eu me irei sem saber nunca
de que lado do mar era o exílio.
REPARTE-AS O VENTOAonde irei buscar
a voz de um epitáfio, o fonema do luto,
que informe a desventura y abrigue o diminuto
consolo que tua ausência há de negar.
Acomodo o azar
nas minhas mãos vazias, sem a flor, sem o fruto.
A solene amargura e o pesar absoluto
deposito na lápida do mar.
Diante da imensidão azul fulgente
de um oceano ao norte da paz da tua mão.
despeço um pensamento.
Sobre o rosto da água indiferente
as cinzas resgatadas a um afeto vilão
reparte-as o vento.
LEGADOQuando eu morrer,
num recanto do sótão
acharão um baú velho de mogno
com o modesto saldo dos meus bens,
meu legado de trastes
isento de tributos.
Nunca guardei por mais de uma semana
cartas de amor,
postais marcando ausências,
números telefónicos,
fotografias;
não acharão nenhum amor-perfeito
entre as vetustas páginas de um livro
nem guardanapos sujos de poemas.
No meio dos objetos já sem uso
está um par de sapatos de verniz
que levava os meus pés para encontrar-te
[ninguém há de notar que eram asas];
algumas jóias falsas, reluzentes,
como os meus olhos sempre que eu te via;
roupas fora de moda
onde ninguém verá
-porque não são visíveis as lembranças-
no meu vestido a mancha dos teus braços.
biografia:
Tania Corrêa Alegria nasceu em Porto Alegre - RS, Brasil e reside em Lisboa, Portugal, tendo dupla nacionalidade, brasileira e portuguesa. É licenciada em Direito e em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Brasil. Cursou pós graduação no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Clássica de Lisboa, Portugal. Durante 25 anos exerceu a carreira profissional no sector do comércio internacional e transportes marítimos. Desde 2002 se dedica ao estudo das técnicas de narrativa e versificação no panorama literário ibero-americano.
Se expressa literariamente em ambos idiomas, português e espanhol. Seu livro de poemas InVerso, em edição bilingue Português-Espanhol, foi publicado por por RiE, Redactors i Editors, Valencia, Espanha, em 2008. Algumas das suas obras em prosa e poética se encontram publicadas em revistas digitais e antologias de língua espanhola, como Tarta de Manzana, Bohodón Ediciones, Madrid, 2009, e Atmósferas, Editora Sonata Digital, Madrid, 2009.
É fundadora do fórum poético literário de língua espanhola Sala de Escritores, que administrou desde 2002 até 2009. É membro de World Poets Society. É responsável pela área de Literatura na Internet de Remes - Red Mundial de Escritores en Español. É membro da Equipa Editora da revista literária de língua espanhola Palabras Diversas. Seu perfil faz parte do elenco de autores de Biblioteca Digital Siglo XXI.
taniaalegria.net@gmail.com