PoenteCom raro esplendorQual taça de vinho quenteErgue-se a frésia vermelhaAo doirado sol do poenteA Rapariga do Bikini VermelhoElaQue em coração algumAchava repousoSulca com o corpo esbeltoOs lábios nupciais das águas.No seio das líricas ondas, soerguidasPelo movimento dos braços tensosBrotam-lhe dos olhos, soltas e juvenis Lágrimas de dor Pela rebeldia e inconstância De tudo o que vive ...
PoenteCom raro esplendor
Qual taça de vinho quente
Ergue-se a frésia vermelha
Ao doirado sol do poente
A Rapariga do Bikini VermelhoEla
Que em coração algum
Achava repouso
Sulca com o corpo esbelto
Os lábios nupciais das águas.
No seio das líricas ondas, soerguidas
Pelo movimento dos braços tensos
Brotam-lhe dos olhos, soltas e juvenis
Lágrimas de dor
Pela rebeldia e inconstância
De tudo o que vive de afecto.
Quando cansada sai da piscina
O lírio transparente que a cobre
Desliza-lhe em gotas pelo corpo
E a luz de néon que lhe tece de estrelas o ombro
Em fios diamantinos desce ondulante
Para o as quietas águas azuis .
Na tranquilidade das luzes crepusculares
As fanadas rosas da sua infância
Jaziam com as bonecas e animais fabulosos
No fundo de um espelho de sombras ululantes.
Havia no espelho da outrora criança
A floresta de gestos mudos :
Vozes que afogadas no sombrio rumor do coração
Não subiam os degraus das palavras;
E um secreto lugar de assombro
Um lugar iluminado e justo
Onde não chegava o olhar do caçador.
Lugar pleno de ternos sorrisos
Que da infância lhe sobraram.
Ternos sorrisos guardados a medo
Em sonhos de mergulhar
No susto sem perigos do verdadeiro amor
Para se não esmagarem
Sem doçura ou suave mão
Entre a indiferença e o jugo do desejo.
SoldadoVestiram-te um uniforme
E fizeram-te sofrer
Para que matando
Aprendesses a sobreviver
Quando chegaste ao momento
Do combate
Ainda de balas não varado
Eras um homem aniquilado
Dei tudo o que possuía
Por uma mentira
Pela verdade a vida teria dado
Disse-o o sábio de Rûm*
Tarde soubeste então, soldado
Que deste a tua vida por uma mentira
Quando a verdade
Ter-te-ia salvo da vida.
Biografia:
Joana Ruas nasceu em 1945 na Quinta do Pinheiro em Freches, no distrito da Guarda. Por volta dos anos 50 do século XX , a sua família estabeleceu-se em Angola onde Joana Ruas viveu e estudou até aos quinze anos, idade em que, segundo o costume da burguesia colonial , regressou a Portugal para completar os seus estudos em Coimbra. A guerra colonial levou o seu ex-marido para Timor-Leste para onde Joana Ruas o acompanhou . Trabalhou como jornalista cultural e tradutora na Radiodifusão Portuguesa e no jornal Nô Pintcha da República da Guiné -Bissau. A convite de Natália Correia, traduziu prosa e poesia para diversas editoras. Participou na causa da Libertação do Povo de Timor-Leste, tendo feito várias conferências sobre a Língua Portuguesa em Timor -Leste, sua história e cultura. .Em 1975, Herberto Helder editou um poema seu e, desde então, consagrou-se à sua obra literária, tendo publicado romances, ensaios e poemas. Trabalha há anos na escrita de uma obra em três volumes [um romance, um livro de contos e uma novela], sobre cem anos de Resistência Timorense -de finais do século XIX até à Independência.
OBRAS DE JOANA RUASNa Guiné com o PAIGC, reportagem escrita nas zonas libertadas da Guiné em 1974, edição da autora, Lisboa, 1975;no jornal da Guiné-Bissau , Nô Pintcha, redige, em 1975, a página de literatura africana de língua portuguesa. Traduz textos inéditos de Amílcar Cabral escritos em língua francesa e recolhe na aldeia de Eticoga [ilha de Orangozinho, arquipélago dos Bijagós], a lenda da origem das saias de palha; Corpo Colonial, Centelha, Coimbra, 1981 [romance distinguido com uma menção honrosa pelo júri da APE; traduzido em búlgaro]; Zona [ficção], edição da autora, Lisboa, 1984 [esgotado]; Colaborou no Suplemento Literário do Diário Popular e, na página literária do Diário de Lisboa, foi publicado um seu trabalho de análise crítica intitulado O Lado Esquerdo da Noite sobre o romance de Baptista Bastos, Viagem de um Pai e de um Filho pelas Ruas da Amargura; na Revista cultural Algar numa edição da Casa Museu Fernando Namora em Condeixa, apresentou um estudo sobre o romance Fogo na Noite Escura de Fernando Namora; colaborou com textos na página de Letras e Artes, Alma Nova, do jornal O Mirante, no Notícias de Elvas, no União, Quarto Crescente, Jornal do Sporting com poemas inéditos e com um trabalho de análise crítica sobre a narrativa dramática de Norberto Ávila, As Viagens de Henrique Lusitano; O Claro Vento do Mar[romance] Bertrand Editora, Lisboa, 1996; Amar a Uma só Voz [ Mariana Alcoforado nas Elegias de Duíno], Colóquio Rilke, organizado pelo Departamento de Estudos Germanísticos da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Edições Colibri, Lisboa, 1997 e publicado no nº 59 da revista electrónica brasileira Agulha [www.revista.agulha.nom.br; A Amante Judia de Stendhal [ensaio], revista O Escritor, n.º 11/12, Lisboa, 1998; E Matilde Dembowski [ ensaio sobre Stendhal], revista O Escritor, nº13/14, 1999 e revista electrónica [www.revista.agulha.nom.br e Triplov; A Guerra Colonial e a Memória do Futuro, comunicação apresentada no Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial, organizado pela Universidade Aberta, Lisboa, 2000; A Pele dos Séculos [romance], Editorial Caminho, Lisboa, 2001;.Participou com comunicações nas Jornadas de Timor da Universidade do Porto sobre cultura timorense e sobre a Língua Portuguesa em Timor na S.L.P. A sua poesia encontra-se dispersa por publicações como NOVA 2 [1975], um magazine dirigido por Herberto Helder; o seu poema Primavera e Sono com música de Paulo Brandão foi incluído por Jorge Peixinho no 5º Encontro de Música Contemporânea promovido pela Fundação Gulbenkian e mais tarde incluído no ciclo Um Século em Abismo - Poesia do Século XX realizado no C.A.M.; recentemente publicou poesia nas seguintes publicações : Antologia da Poesia Erótica, Universitária Editora; Cartas a Ninguém de Lisa Flores e Ingrid Bloser Martins, Vega ; Na Liberdade, antologia poética, Garça Editores; Mulher, uma antologia poética integrada na colecção Afectos da Editora Labirinto; Um Poema para Fiama, uma antologia publicada pela Editora Labirinto; ; tem colaboração nas revistas Mealibra, revista de Cultura do Centro Cultural do Alto Minho e na Foro das Letras revista da Associação Portuguesa de Escritores-Juristas onde publicou Caderno de Viagem ao Recife . Na revista electrónica Triplov foi publicado um Roteiro sobre a sua obra, A Pele dos Séculos. Em 2008, a Editora Calendário publicou o seu romance histórico A Batalha das Lágrimas. Participou na 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará onde proferiu uma palestra intitulada Aproximar o Distante, Do Estranho ao Familiar - duas experiências: Timor-Leste e Guiné-Bissau.
joanaruas@sapo.pt