1Um menino trazia um fio de búziosna concha da minha mão.Era criança, mais jovem do que eu julgavaou imaginava serou verno azul profundo os tons ocre e sépiada falésiaque caía sobre o mar. Era o tempo das nêsperas e das amorasque ainda brilhamnos meus olhos.Mas era o tempo das ondas lavrandoa areia, gaivotas estridentesclamando contra o vendaval.E o menino nada sabia do vento áspero da mon ...
1
Um menino trazia um fio de búzios
na concha da minha mão.
Era criança,
mais jovem do que eu julgava
ou imaginava ser
ou ver
no azul profundo os tons ocre e sépia
da falésia
que caía sobre o mar.
Era o tempo das nêsperas e das amoras
que ainda brilham
nos meus olhos.
Mas era o tempo das ondas lavrando
a areia, gaivotas estridentes
clamando contra o vendaval.
E o menino nada sabia do vento áspero
da montanha
nem da rigorosa fixidez
do pão do condenado.
Era uma criança ainda jovem
que procurava búzios na praia
junto ao mar
no azul profundo do céu
que imaginava
na cor das nêsperas e das amoras
que ainda hoje animam
os meus olhos.
2
Façamos hoje o mesmo gesto delicado
dos nossos avós
em nome dos princípios que regem
o projecto antigo
de plantar uma árvore onde havia outra árvore
no chão que persiste
o desígnio lhano do destino
de ir substituindo gerações por outras gerações
sobre a terra.
Façamos esse mesmo gesto delicado
em memória dos nossos avós
e do seu propósito festivo de reger-se
por processos que persistiram desde os antigos
que plantavam árvores para a ventura
de ver a terra coberta de flores e seus frutos
para seus filhos
filhos de seus gestos antigos dedicados
de ir plantando árvores
sobre a terra.
3
Folheemos este livro antigo,
os lábios múltiplos da página
que disse a madrugada,
o jardim que desenhou
o corpo diligente dos insectos,
a fogueira do horizonte
que amareleceu estas flores breves.
Folheemos este livro
nas sombras onde cai uma gruta
de silêncio,
ou o sol poderoso
de olhar as planícies,
os cristais da terra.
Folheemos este livro antigo,
o abismo entreaberto nestas páginas,
a cerimónia comovida
consumida por ecos
de imagens doutros dias
que disseram a palavra longe.
biografia:
José Vieira CaladoProfessor de Português e Inglês
[reformado], detentor duma Maîtrise, da Univ de Paris.
Publiquei 15 livros de Poesia, dois de Prosa e um Ensaio.
vieiracalado@gmail.com