MOSTRA-MEmostra-mea arte da tua posecomo pássaro que poisa delicadamentenos ramos das árvorespara ver-te saltitando entre os meus dedose vires beber a sede no meu rostonum gesto de impoluta respiraçãocriando asas no céu estéril do meu quartoisto enquanto não entardeceprolongando-me a manhã da vidacom a suavidade de pluma dos teus ombrose o go ...
MOSTRA-ME
mostra-me a arte da tua pose como pássaro que poisa delicadamente nos ramos das árvores
para ver-te saltitando entre os meus dedos e vires beber a sede no meu rosto num gesto de impoluta respiração criando asas no céu estéril do meu quarto
isto enquanto não entardece prolongando-me a manhã da vida com a suavidade de pluma dos teus ombros e o gorjeio do teu carinho nos meus ouvidos
mostra-me que ser pássaro é posar o teu sorriso sem necessidade de espelhos e que o amor dorido e sofrido é apenas querer e poder deixar-te voar
livremente.
QUANTAS JANELAS?
quantas janelas há para uma rua? aqui sossegam os peitos roliços dos pombos e nascem alvoradas no parapeito sempre que inspiro e expiro as madrugadas lentas
a fruta desmancha-se em sangue nos meus dedos e agora também os pardais sentem que aqui, nesta janela com vista para tudo,
o mundo pode acontecer como se eu fosse Colombo e as minhas naus a saliva espreitando, ancorada, em cada esquina.
diz-me: quantas janelas pode haver para uma rua?
RUINA
quando for a morte abre a terra devagar com golpes de chuva não te demores nas sombras dos velhos palácios a escrever no verdete das paredes as folhas adocicadas ou os frutos vermelhos qua amadurecem o teu regaço. quando for a morte não digas medo nem espantes a noite leva o cadáver banhado de pó à cova e cospe - cospe de nojo - a lentidão das horas caídas como gotas de sol. quando for a morte espreita a escuridão mantida nas frinchas das portas no fundo das ruínas dos móveis na dobra eterna das mortalhas.
e quando a terra enfim batida e chorada, esquece-a com a permanente latência das palavras.
biografia:
Nascido em 1970, no dia de S. Martinho, em Vila Nova de Gaia, despertou para a escrita desde que entendeu que outras pessoas interessar-se-iam pelo que escrevia, tinha menos de oito anos. Esteve envolvido em vários projectos literários, desde os tempos escolares, e também na Rede. Foi deixando para trás a ambição de publicar em papel à medida que foi compreendendo que ainda não atingiu, segundo o seu ponto de vista, maturidade literária suficiente para se afirmar como escritor e poder investir na área da publicação. Na Internet edita o seu blog em http://quefarei.blogspot.com e é o webmaster do site não oficial do escritor português António Lobo Antunes em www.antonioloboantunes.no.sapo.pt