InspiraçãoQueria ser PoeBrotar palavras como quem respiraAdocicar pensamentos com sílabas e vocábulosMenosprezar a ignomíniaCom uma calmaria inspirada de poetaOusar florescer romances e poemasCom pena borbulhante de mestriaOde à beleza épica de mil cores pintalgadaEm encruzilhada redigidaBeber inspiração em prados e colinasVeredas de s ...
Inspiração
Queria ser Poe Brotar palavras como quem respira Adocicar pensamentos com sílabas e vocábulos
Menosprezar a ignomínia Com uma calmaria inspirada de poeta
Ousar florescer romances e poemas Com pena borbulhante de mestria
Ode à beleza épica de mil cores pintalgada Em encruzilhada redigida
Beber inspiração em prados e colinas Veredas de sobranceira magia em papel retratada
Quem dera compreender a língua dos Deuses Traduzi-la em palete colorida
Em galácticas me perderia maravilhado Num estrelar de mil e uma fantasias
Amena mão esta que escreve Humilde arauto de mente fértil entristecida
18.02.2005 ______________________________
Para Ti
Poemas são como flores Sorrisos primaveris Sonhos Pintalgados Aquilo que não se diz
Inocência genuína Uma beleza ambarina Um hino à candura Homenagem à formosura
Procuras inebriar-me Já fui uma criança Já te disse que não Tocar-te não posso
Desprezo-me por isso Amo-te ainda mais Sempre - Jamais.
28.02.2000 ______________________________
“Vivo numa estrada sem sinais de limite de velocidade”
Imaginem o homem de negro e botas de couro empoeiradas que, tal corvo solitário, segue o seu caminho inebriado e ofuscado pelo movimento.
Imaginem uma lua cheia e uma noite abafada em que os olhares não se cruzam por receio, em que os devaneios são exorcizados, em que o oculto desejo vagueia por pradarias de luxúria recalcada, em vão...
Imaginem uma noite em que recordam velhos discos de rock n\' roll, lugares há muito não visitados e odores já esquecidos.
Imaginem a ganância personificada.
Imaginem trevas e obscurantismo, valquírias e medusas, minotauros e cefalópodes.
Imaginem uma rádio antiga. E estática. Uma voz metálica vociferando impropérios. Folhas de Outono levadas pelo vento matinal. Fantasias impróprias de uma idade já avançada, ressuscitadas em tons cinza, mas camufladas com desdém e envoltas em considerações pudicas de escárnio assustadas.
Imaginem agora borboletas esvoaçando num dia soalheiro. Pássaros chilreando e risos de adolescentes nas margens de um riacho serpenteante entre rochas esverdeadas. Águas transparentes e transparentes vozes femininas, angelicais na sua candura.
Imaginem o homem de negro e botas de couro a observá-las.
Imaginem um regresso a casa e um comboio a vapor. Um apeadeiro envolto em neblina e gente. Sim! Muita gente! O apito do guarda-freio. Vozeares ininteligíveis.
Imaginem-se em criança, sozinhos numa noite de temporal. Sintam a chuva na vidraça. Sintam o ribombar aterrador dos trovões estremecendo loiças baratas e baixelas deslavadas pelo tempo.
Imaginem o rosto do homem de negro e botas de couro momentaneamente iluminado por um relâmpago por detrás da vidraça.
Imaginem um moribundo e o seu último desejo realizado, como que por artes mágicas.
Imaginem um estado febril transformado em doce frescura de cascata purificada por mão divina. Nirvana!
Imaginem religiões unidas! Harmonia entre nações! E o homem de negro e botas de couro empoleirado em tribuna, em convulsões de palavras de ordem para uma plateia mundial!
Imaginem agora um cirurgião que acaba de calçar luvas de látex. O coração a bater forte. O do doente fraco.
Imaginem o cheiro da sala de operações. O arrastar dos pés… e os familiares lá fora. Imaginem uma experiência de quase-morte. O doente sente-se a pairar, a deixar o seu corpo, a subir uns metros.
Imaginem-no a olhar para baixo. A ver o cirurgião na sua azáfama de curandeiro, o seu corpo dilacerado, e o homem de negro e botas de couro segurando sua mão.
Imaginem a dor, a paixão. Como estão interligadas.
Imaginem a loucura. Como é ténue a linha que dela nos separa.
Imaginem agora uma bola de futebol que salta do passeio para a estrada. E o jovem que a persegue, inocente.
Imaginem o carro que se aproxima a grande velocidade. E a bota de couro do homem de negro que pisa o travão.
06.10.2004
biografia:
José Remelhe é tradutor independente. Nasceu a 30.05.1972 no Porto. Foi tradutor de várias obras entre as quais se destaca \'Desgraça\' do Prémio Nobel da Literatura J.M. Coetzee. trad.remelhe@sapo.pt