SECO LATO E lá vai o velho balde ao triste velho poço. Naquele fundo fosso água é que não tinha. Dali tudo o que vinha era o estalo seco... Foram meses de seca – de reles solidão. Quieta se alastrava por várzea e campina. Foi fazendo ruínas no longínquo lugar. O dia no limiar: já raiava a labuta com o fardo nas costas e na ...
SECO LATO
E lá vai o velho balde ao triste velho poço. Naquele fundo fosso água é que não tinha. Dali tudo o que vinha era o estalo seco...
Foram meses de seca – de reles solidão. Quieta se alastrava por várzea e campina. Foi fazendo ruínas no longínquo lugar.
O dia no limiar: já raiava a labuta com o fardo nas costas e na testa o suor.
Na hora de cortar lenha, dava machadada cega. Não se via o futuro tampouco humanidade.
Roça não produzia... ao bom Deus rezava: – Livrai-me da agonia de ver sonho morrendo no fundo da minh’alma, nas minhas cercanias...
Fitava sempre o céu (esperança inda tinha). Mas a gota que se via era única e salobra... Irrigar plantação ela não poderia.
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POR UM FIO
Cadê o fio da meada? Está emudecido o grito de alerta. A tola risada faz valer o risco.
Veja onde está a vida... Ela está na esquina, no meio do meio-fio, pintada de preto sobre fundo branco.
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FLORES EM VÃO
Limiar do dia, sol começa a nascer com o ininterrupto arrastar de horas. E no fim da tarde, a luz, a fenecer, largando na boca o gosto da aurora.
Cada dia nesta estação é um abismo. De minúsculo a imenso, vai me absorvendo. Na batida incessante do tempo me assisto pela manhã friorento e à noite ardendo...
Antes me erguia, agora despedaça. Alma errante e coração desorbitado até que a primavera vá e se refaça.
Mas para quê... Tanto esforço em florir – renascer beleza no talo cortado – se impossível é de murchar se abstrair?