PERFILEu sou...Eu sou destino sem nome, Vento sem rumo, amor sem pronomeSou caminho sem sina, sem presságio e ladinaSou dor sem doente, sou riso que someSou riso de siso, convidado sem fomeVerso que não terminaEstrofe onde germinaA dúvida, o cerne, a vidaNas cores negras da lidaSou vida, mas amo a morteSou morte querendo viverFogo que não se arde e gelo que chameja o serSou o fim do meioE o me ...
PERFILEu sou...
Eu sou destino sem nome,
Vento sem rumo, amor sem pronome
Sou caminho sem sina, sem presságio e ladina
Sou dor sem doente, sou riso que some
Sou riso de siso, convidado sem fome
Verso que não termina
Estrofe onde germina
A dúvida, o cerne, a vida
Nas cores negras da lida
Sou vida, mas amo a morte
Sou morte querendo viver
Fogo que não se arde e gelo que chameja o ser
Sou o fim do meio
E o meio do fim
Sou o começo em teu seio
Do desejo, enfim...
DÚVIDADeslizo meu féretro amalgamado
Pelas ruas ciprestes e soturnas
Curvando minha caveira que podre
Vil percorre pelas ruas noturnas
À esquina da meia-noite um mendigo
Me olha como quem procura atenção
E exibe suas chagas, o seu manto
Abraçando a noite num silvo vão
Perscruto meu corpo dilacerado
Pelas sinas - tortuosas lacunas
Pelo horizonte fugidio das brisas
Que se amontoam nas cinéreas dunas
Meu amor que se desfaz de tão mórbido
À descrença de palavras gentis
Tudo encerra à mentira das vaidades
Nos nossos céus coloridos e anis
LEMBRANÇASEm cada minuto que eu viver
Em cada instante em que eu sonhar
Hei de advertir nos momentos em que estive a teu lado
Em cada silêncio que se fizer, em cada palavra preparada
Em todo sussurro que o vento trouxer junto à brisa do mar
Toda e qualquer vez que me cobrir de areia o vendaval
E meu rosto se esconder do teu sorriso
As lembranças serão vividas falácias
E a esperança como o que restou de mim em ti
Para dizer que não me amavas
E dizer o que não foi
Absolutamente enclausurado, no claustro dos teus amores
A certeza inimiga que me atormenta dia e noite
Faz-me entender o que queria olvidar...
Quais redes onde recosto meu corpo
Sereno e molhado pela chuva...
E o orvalho de cada manhã desce em meu corpo
Quando abro meus olhos abraçando o nada...
Abri os meus olhos, não quero voltar a fechá-los
Abri os meus braços, não quero tornar a trazê-los
Beijei o teu rosto, aspirando beijar tua boca
E abracei-me ao teu corpo, mas era o vazio em mim
E gritei... Te amo! Te amo!
E nos meus sonhos esqueci-me em você e não quis mais voltar
Nestes sonhos tão belos
Onde quis eu permanecer...
Quem sabe... Quem sabe o vento te traga de volta,
Quem sabe possamos um dia nos amar
Cúmplices da violência silenciosa do tempo
Do tempo, que só me fez chorar...
biografia:
Jairo Mellis
PERFIL Eu sou...
Eu sou destino sem nome,
Vento sem rumo, amor sem pronome
Sou caminho sem sina, sem presságio e ladina
Sou dor sem doente, sou riso que some
Sou riso de siso, convidado sem fome
Verso que não termina
Estrofe onde germina
A dúvida, o cerne, a vida
Nas cores negras da lida
Sou vida, mas amo a morte
Sou morte querendo viver
Fogo que não se arde e gelo que chameja o ser
Sou o fim do meio
E o meio do fim
Sou o começo em teu seio
Do desejo, enfim...
Mellis Essa poesia, chamada 'Perfil' é a que mais se assemelha com o contraste, com a contradição, com o paradóxo que segue minha vida, em todas suas nuances.
Funcionário Público, escritor desde jovem, tendo já ganhado prêmios de concursos tais como o promovido pela Coca-Cola há um bocado de anos, quando ainda me iniciava na Literatura, quando ainda convivia com as crônicas de Fernando Sabino, tomando para mim o estilo, sempre me deixei influenciar muito rapidamente por tudo que me emociona, que me surpreende, tanto que alguns anos depois eu já versava, brigava com as dissertações e reflexões sobre a vida.
Mas um dia encontrei um camarada muito especial, que me influenciou deveras no modo de pensar e de escrever. Encontrei Vinicius de Moraes.
Ah! Quem dera fora o homem Vinicius, o espécime em extinção, o poeta romântico e apaixonado pela vida!
Mas se não fora o próprio, foram suas palavras bem ditadas via de regra, no belo poema 'TERNURA' que me encantaram...
TernuraVinicius de Moraes
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
Texto extraído da antologia 'Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa', Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.
E o que dizer de casemiro de Abreu com sua Lira dos Vinte anos?
E o que dizer de Edgar Alan Poe, com o poema 'O Corvo' [The raven, tradução de Machado de Assis]
A aparente falta de estilo, talvez seja essa mescla, essa mistura a qual se amalgama e que dita a intensidade e o ritmo, que diferencia o autor dos demais. Mas talvez esse jeito louco de ver a vida, seja ele mesmo o tal 'estilo próprio'.
jairomellis@hotmail.com