PergaminhoO álibi da juventude,já não o tenho;no mapa das costelas tragoo pergaminho esticado da misériaenquanto alucinado farejoo ar fétido em buscade um qualquer resquíciode pó de esperança.O que mais posso almejaralém do descanso?Além do largar as feridasdo corpo e da alma,esse cansaço inesgotávelque transborda-me pelos poros?Já não sou cornucópia de ilusões:contento-me com a do ...
PergaminhoO álibi da juventude,
já não o tenho;
no mapa das costelas trago
o pergaminho esticado da miséria
enquanto alucinado farejo
o ar fétido em busca
de um qualquer resquício
de pó de esperança.
O que mais posso almejar
além do descanso?
Além do largar as feridas
do corpo e da alma,
esse cansaço inesgotável
que transborda-me pelos poros?
Já não sou cornucópia de ilusões:
contento-me com a dor real
que me vem de saber-me velho,
esse pergaminho vivo
de histórias e estórias
contadas, caladas, catadas
ao longo dos anos.
SínteseLembro ainda o primeiro abraço
quando todos os nossos poros se beijavam,
lascivos, lúbricos, insaciáveis.
Depois os abraços se sucederam
e fomos nos dando tanto
e tanto nos demos que um dia,
ao abraçá-la, percebi:
era a mim mesmo que estava abraçando.
Continuamos a nos abraçar,
os anos se sucederam até que chegou um dia
em que apenas nos amparávamos no abraço,
um a suster o outro, ossatura de escora.
Sucederam-se as dores
até que um dia já não tínhamos força
para suster um ao outro.
Estendemo-nos ao comprido,
paralelamente,
na intenção do encontro no infinito.
ProcessoNo processo de desocupação
de seu coração
eu sou o réu.
Réu sou onde reinava
absoluto senhor.
Absolutamente perplexo
dou-me conta
do furor do libelo,
completamente sem nexo,
sem senhoria, sem sexo.
Nada é acontecimento, nada é pessoal:
tudo é processo.
biografia:
Osmar Casagrande CamposPoeta, contista, cronista.
Área de atuação profissional: Comunicação social [jornalismo, publicidade, cultura.
osmar.casagrande@gmail.com