POEMA EM MARCHAA pazé uma carta na manga;é um ás, mas à míngua;é um ponto que extingue'tá na ponta da línguatodo o 'P' desta pazque, sem P, fica o ás- a cartada finalà paz;a puseram de lado;a fizeram de fardo;propuseram, mas lerda,a tal paz vem d'A Quedade Camus: Consciência.Eis a paz: substância.Eu quero esta fragrância,respirar desta essência- a essência da paz.A pazlá no pus da ...
POEMA EM MARCHAA paz
é uma carta na manga;
é um ás, mas à míngua;
é um ponto que extingue
'tá na ponta da língua
todo o 'P' desta paz
que, sem P, fica o ás
- a cartada final
à paz;
a puseram de lado;
a fizeram de fardo;
propuseram, mas lerda,
a tal paz vem d'A Queda
de Camus: Consciência.
Eis a paz: substância.
Eu quero esta fragrância,
respirar desta essência
- a essência da paz.
A paz
lá no pus da ferida;
cá no susto da bomba;
lá no branco da pomba;
cá no berço da vida
toda paz suprimida
deve estar bem guardada,
dever ser sugerida,
pois a paz posta em jogo
é a chama - sem fogo,
é o xeque - sem mate.
Nosso sangue escarlate
que não sofra o arremate
de ser sugado,
de ser julgado,
de ser jogado
na vala ao lado.
Uma falta de paz
é a falta de arroz
e, pois, onde houver fome
a paz não se consome,
a paz não se consuma;
ela some e não sabe;
ela em si se desaba;
esta falta de sopa,
este excesso de tapa.
Eu já vi deste teipe,
eu já sei como acaba.
Será paz esta baba
escorrida da boca,
esculpida à barroca,
escarrada na Terra?
Um punhado de guerra
é a fome insolente
a atacar tanta gente.
Como disse o profeta
mais que esteta e beleza,
a paz é uma troca
de amor e gentileza.
Concluindo, oh, então:
- Ter a paz é ter pão.
A paz,
quem a pôs a escanteio?
Não se tira dum seio
o colostro materno.
Eis o gesto mais terno:
'Caminhar pela paz',
pelos filhos e pais,
mas quem foi que isto fez?
Mas quem é que isto faz?
Eu a sonho de vez
sem o míssil feroz,
sem a dor de um antrax
e o terror de um vil gás
[coisa mais infeliz],
sem a atômica luz...
Eu não quero o 'aqui jaz'
se espalhando veloz.
O meu sonho é que nós
só sonhemos com paz.
Ai, paz,
quero vê-la sem ais;
quero tê-la demais
numa tela de paz.
A brancura que traz
toda a cor de uma paz,
e não quero aguarrás
pra manchá-la de atroz,
pra calar sua voz.
Será que terá vez
o meu grito tenaz?
O meu grito de paz
só será eficaz
se juntar-se a outra voz,
e meu eu será nós
[e meu eu será nós]!
A paz,
expandir pelos pés
toda paz, sem revés;
caminhar ao depois
sob todos os sóis
- os 100 sóis que vós sois,
quero brancos lençóis
tremulando. Aliás,
se um mais um somam dois,
seja moça ou rapaz,
seja idoso ou bebê,
tanto faz, tanto faz,
tanto faz o porquê,
vem conosco viver
conviver pela paz!
A PLUMADesesperançada pluma,
vais ao chão
[como quem
[arruma
o pouso fatídico - morte.
Em parte tens razão.
À soltura de brisa
nenhum ramo se bisa
e, só nisso, eu embaso
meu porém temporão.
Oh, pluma, vai sim
ao chão que te espera,
o chão te transcreve
posfácio tão breve:
- Fim.
DESAFIOUm grande desafio
[é desvelar o fio,
o fio da mão da vida
[a gente não controla
como se fosse um rio -
[deságua o desvario.
A gente não decide
[ao fio se ele se enrola.
E o invisível rio,
[ao infinito, vi-o
correr pra além da vida
[a usar fraque e cartola.
E a roupa é um desfio,
[e nobre e vivo e pio:
Tua imortalidade
[ensinada na escola!
Vem, abre a tua mão,
[retira a tua luva;
vê, cada linha um vão,
[e a cada vão vem curva.
A vida é um novelo,
[aí reside o belo,
bem mais do que em novela;
[e se ela nos é turva,
jamais te curves, não;
[a vida uma ilusão:
...Adoça-te em marmelo,
[ouve um violoncelo...
biografia:
SERGIO FERREIRA OLIVEIRANascido na cidade de São Paulo; professor da Rede Estadual de Ensino do
Estado de São Paulo desde 2006.
sergiomradams@hotmail.com