Três tempos IO relógio na parede do quartoFaz-me delirar na rotinaInglória dos ponteiros.No roteiro gris das horasAssoalho minhas retinasO silêncio da gavetaDevora os poros de mil arrepiosFortes ou fracosCedo ou tardeEm nosso cais aporta o navioLaço negro preso na proaCanto funéreo de mil aisUm sorriso debochado ressoa- Sobe, sobe, minha gente:A morte não cabe numa canoaA vela na cera despe ...
Três tempos I
O relógio na parede do quarto
Faz-me delirar na rotina
Inglória dos ponteiros.
No roteiro gris das horas
Assoalho minhas retinas
O silêncio da gaveta
Devora os poros de mil arrepios
Fortes ou fracos
Cedo ou tarde
Em nosso cais aporta o navio
Laço negro preso na proa
Canto funéreo de mil ais
Um sorriso debochado ressoa
- Sobe, sobe, minha gente:
A morte não cabe numa canoa
A vela na cera despe-se
Ao longo do mar que incendeia
Meia-luz de tormentos
Alumiando o sorriso agreste
Caramelo sentidos inocentes
A morte é folha verde viva
Arrancada da árvore morta
Feito fruta cozida
No ventre de uma compota
O olhar na pálpebra dormida
Repousa num ponto
Esfria e reflete:
- O que sobrou de tudo?
- O que levo comigo?
Haverá outro mundo,
Outros amigos?
Descalço.II
Carros e corpos seguem em romaria
Pelas ruas estreitas do cemitério
Uma laje se abre vazia
Esboça o trono do último império
Não vou ceder a sepultura
Nem ao estreito caixão encerado
Ocultarei meu corpo na pele crua
Em mim nada será enterrado!
Na pele sedosa dum poema
Vou refrescar meus versos
Um anjo destilando cantilena
Lança-me dos céus o ingresso
Não vou pagar a conta deste espetáculo
Este cemitério cinzento de flores artificiais
Onde me estende os braços um insolente buraco
Quero meu corpo nas margens do cais
Onde nada é para sempre
E tudo é nunca mais!
Não quero saber de santos e rezas
Vou sem pressa por outro caminho
Sem este chão feito de pedras
Quero outro ninho!
Um lugar fresco feito de sombra
Onde sol não queime a saudade
Onde as flores sejam de verdade
A morte um gole envelhecido de vinho. Ah!
III
Hei de acordar estirada
Com as mãos cheias de pérolas
Num trigal de nuvens douradas
Longe do escuro e frio cemitério
Onde conspiram as almas penadas!
Hei de ser flor numa nuvem jardim
E lá de cima do cismo oculto
Gargalhas de mil anjos contentes
Acordam todos os mundos
E no céu claro da fé que me guarda
Serei das estrelas o vulto
A lua será minha enseada
Deus um repouso oculto
Nas emoções cansadas
Vou nadar na espuma clara do céu
Feito um passarinho nas asas ritmado
Feitos poemas num destino cordel
No vazio das minhas linhas
Um lugar sossegado
Onde meu versos possam dormir
Acordados.
[Cassiane Schmidt]Última Canção [Cassiane Schmidt]Me deixe
Vá embora
Me deixe a sós com a solidão
Hoje não me interessam seus discos, seu ritmo, seu tom
Hoje não!
Hoje quero casa vazia
Ouvir atrás das cortinas
Verdes segredos de solidão
Quero poesia na mesa
Ser a voz da canção
Me deixe
Vá embora
Me deixe a sós com a solidão
Hoje não me interessam tuas rimas, tuas cismas, tuas mãos
Hoje não!
Hoje quero dançar no vazio dos teus passos
Arranhar teus frágeis desejos
O chão nosso de cada dia
Levou todos os caminhos pro fim
Hoje acordei feito pesadelo
Tua pior companhia
E não me olhes assim com olhos de partir
Olhos de nunca mais
Hoje sou o cais que leva e não traz
Recolha seus braços e feche a porta ao sair
Não esqueça de levar as chaves
Pois amanhã quem sabe
Será cedo demais pra mim
Mas não me olhes assim, não insista
Hoje sou página virada
Sua última canção!
Ponto finalO tempo escala os ponteiros do relógio
Maldito Tic-tac
Outro dia nasce
O dia nascido é uma página virada
Tantas vírgulas, muitos pontos finais
Sintaxe difícil das horas
Singular vencendo plurais,
: solidão
Tantos sentimentos conjugados
Em todos os tempos
: passado.
As manhãs da infância me beberam toda
Jamais me recuperei
Os goles daquelas manhãs coloridas
: ressaca
O tempo costurou a alegria de menina
Vivo costurada de lembranças
De tudo o que foi
: infância
A capa do livro é dura
Primeiras páginas, coloridas
As últimas, escuras.
Cassiane Schmidtbiografia:
Cassiane SchmidtFormada em Pedagogia pela Uniasselvi- Universidade para o
desenvolvimento do alto vale do Itajaí.
Formada em Letras - Língua Portuguesa e Respectiva Literatura.
Pós-graduada em Gestão Escolar, pelo ICPG - Instituto Catarinense de Pós Graduação.
Atualmente é acadêmica do curso de pós graduação em Lingüística e do curso de Pós graduação em Língua Portuguesa.
É membro da Sociedade dos Escritores de Blumenau desde dezembro 2007. A paixão pelos livros nasceu desde pequena, recebia incentivo direto de sua mãe para a leitura, quando pequena teve acesso aos clássicos da literatura infantil. Surge deste contexto o encontro marcado, sagrado com as Letras.
Participou de várias antologias.
cassianeschmidt@yahoo.com.br