CURVA DE RIOBoiás, terra boa e hospitaleira de gente obreira há de ser sempre... Nos confins deste vasto território boiano há uma pequena cidade encravada entre dois grandes rios que correm em direção ao sul engrossando o caudaloso Paraná. Boianópolis. Cidade como outra qualquer. Pequena em dimensão, mas grande em riquezas, porém pouco exploradas. É isso mesmo, os habitantes desta local ...
CURVA DE RIOBoiás, terra boa e hospitaleira de gente obreira há de ser sempre...
Nos confins deste vasto território boiano há uma pequena cidade encravada entre dois grandes rios que correm em direção ao sul engrossando o caudaloso Paraná. Boianópolis. Cidade como outra qualquer. Pequena em dimensão, mas grande em riquezas, porém pouco exploradas. É isso mesmo, os habitantes desta localidade não dão valor ao maior bem que possuem: suas riquezas naturais e culturais. Há, isso é coisa para boiola – diz uns; outros dizem que “tem mais o que fazer para ficar pensando nessas coisas”. O fato é que ficou um espaço vazio que foi sendo ocupado por outras pessoas. Muitos moradores começaram então a colocar nas mãos dos forasteiros responsabilidades que deveriam ser ocupadas pelos habitantes locais.
Conclusão: Boianópolis está perdendo sua identidade. Aquela pacata urbe com uma comunidade tranqüila, ficou para trás e junto foi sua cultura, suas tradições seus feitos, enfim, não está sobrando pedra sobre pedra.
Isso é ruim porque os povos nativos, os descendentes dos pioneiros, perderam sua identidade. E o que é pior: ninguém faz nada. Os poucos que cobram seu lugar são taxados de “doido varrido” – o fulano? aquele lá é doido, não dê ouvido para ele não.
Como diz o ditado: Boianópolis é igual a uma curva de rio: só aparece garrancho. E a garrancheira toda vem, come arroz “quentado” e arrota caviar. E o povão “reganha”, e a cidade perde.
Imaginem vocês: um gringo recém-chegado ficou “berrando” até conseguir entrar na política e o danado passou mel na boca dos bestalhões, saiu candidato a prefeito, foi eleito, mamou pintou e bordou, pisou, massacrou...
Outro dia fui até a capital de Bóias, a verdejante Boiânia e, ao entrar em uma repartição pública estadual para pegar um documento, o atendente, quando viu minha identidade me perguntou se eu era de Boianópolis. Confirmei que sim. Por quê? Retruquei. O diretor geral desta unidade é de lá – disse-me.
- Engraçado, como é que ele trabalha aqui se não reside na capital? Infelizmente eu tenho o desprazer de vê-lo quase que diariamente.
- Pra você ver moço como são estas coisas de política. Raramente ele aparece por aqui. De vez em quando telefona mandando resolver algum problema de amigo dele.
Eu fiquei surpreso até porque o dito cujo quer ser candidato de novo. Exatamente! Já imaginaram? Como uma pessoa dessas tem a cara de pau de querer ser candidato a prefeito sendo que só faz trapaça.
Na realidade é mais um dos politiqueiros safados. Não tem escrúpulos, respeito ao erário público e ao povo que o acolheu quando chegou por aqui com uma mão na frente e outra atrás.
E por falar em garrancho, certo dia chegou um indivíduo na city dizendo que era fazendeiro e que estava à procura de terras na região para expandir seu negócio pecuário. Uns quantos corretores carregaram o cidadão pra cima e para baixo até que encontraram uma fazenda que interessou ao chegante.
Pagou a fazenda com cheques e ficou de receber a escritura ao descontar o último cheque que ficou para trinta dias. Neste meio tempo, comprou em todas as lojas da cidade, roupas, equipamentos, móveis e dois veículos. O povo ficou fascinado com aquele “cidadão de bem”. Alguns chegaram a cogitar um convite para ele participar da política.
Não foi nada não, quando venceu o primeiro cheque da fazenda, o cara anoiteceu num boteco pagando cerveja para todos [com cheques é claro] e amanheceu pra lá de Bagdá.
Os cheques emitidos no comércio e na compra da fazenda era tudo roubado. O cara é um bandido de primeira, cevou os trouxas, comprou, aprontou, casou e vazou, deixando seus credores a ver navios ou serão bois?
Mas isso sempre acontece por aqui. De vez em quando chega um esperto e engana o povo e aplica o golpe. A cidade parece que tem um ímã que atrai tudo que não presta. E o pior. Golpe em cima de golpe e o povo não aprende.
RESGATE Uma vez por mês realizávamos coletas de quirópteros na Pousada das Araras. Um trabalho científico como requisito para obter título de Doutor.
A Pousada é uma Reserva Particular do Patrimônio Nacional, outorgado pelo Ibama. Além da fauna e flora exuberantes, a região guarda sítios arqueológicos com vestígios de povos que viveram na região há mais ou menos quinze mil anos atrás.
Por ser uma linda região, sempre recebe turistas, alunos de escolas públicas das cidades vizinhas, universidades e pesquisadores de todo o pais e do exterior.
Em uma dessas campanhas de campo mensais, num sábado à tarde, chegou uma dupla de franceses.
Encantados com o lugar, começaram a andar de um lado para o outro fotografando e filmando tudo que via. Como estava escurecendo, a proprietária pediu para que eles não afastassem da sede, porque poderiam se perder no Cerrado. Que fossem descansar e deixar o passeio para o dia seguinte com a companhia de um guia.
Tudo bem, dizia um deles. Vou fazer umas fotos aqui em volta e não vou me afastar.
O estrangeiro empolgado com tanta beleza entrou em uma trilha e se afastou da sede. Nisso escureceu. Aí foi um Deus nos acuda.
Todo o pessoal da Pousada saiu à procura do francês e nada. Ligaram para o corpo de bombeiros de Jataí pedindo uma equipe de busca. Enquanto isso, outra equipe de busca chegou de Serranópolis e cada equipe saiu por uma trilha.
Tarde da noite, todos estavam cansados e nem notícia do infeliz. Até que o comandante da corporação cessou as buscas, reiniciando no dia seguinte.
Quando amanheceu o dia, as equipes retomaram as buscas à procura do desaparecido. Uma pessoa viu rastos dele e gritou com a turma:
- O Francês pegou a trilha do rio Verdinho. Vamos todos para lá.
Quando andaram uns 200 metros, o guia da pousada encontrou uma batida fresca e onça pintada e disse para os companheiros:
- Tem uma onça pintada andando por aqui há muitos dias. E ela está na batida do francês. Tomara que ela não esteja com fome e encontre com ele na reta. Se não, vai virar comida de onça.
Andaram mais uns quinhentos metros na batida da onça e nos rastos do homem. Ao fazer uma curva, no meio do Cerrado, encontraram o francês que vinha de encontro com a turma.
- Saí para fazer fotos e fiquei deslumbrado com tanta beleza e quando olhei em volta, já tinha escurecido e não encontrei o caminho. Pensei: não adianta gritar, por que ninguém vai me ouvir, então amassei o capim e deitei. E tive uma noite maravilhosa. Nunca vi um céu tão estrelado e tantos sons diferentes.
- O senhor não ficou com medo? Perguntou um:
- Fiquei não.
- Uma onça pintada passou por aqui e quase come o senhor. Teve sorte.
- Eu ouvi um barulho estranho e resolvi subir numa árvore e vi passar uma gata linda. Mas não tive medo não.
- Então vamos voltar para a sede, pois o pessoal está muito preocupado e tem umas cinqüenta pessoas aqui na pousada a procura do senhor.
- Mesmo? Que povo preocupado. Brasileiro ser um povo muito hospitaleiro mesmo. Já vi falar. Agora eu confirmo.
Ao chegar à sede, o estrangeiro ficou tão feliz com tanta de gente a sua procura que pegou um maço de notas [dólares, é claro] e distribuiu quatrocentos dólares com o pessoal que estava a sua procura e disse:
- Brasileiro ser muito bom. Olha só o tanto de gente me procurando. Se fosse na França, ninguém me procurava. Ia dizer: “quem manda este idiota se embrenhar no mato à noite? Agora se vire!!”.
CARAÍBANo interior do Brasil, região de Cerrado, durante os meses de junho a setembro é para os povos desta vastidão, principalmente para os habitantes da zona rural, uma época triste, onde não existe verde, clima seco sem umidade no ar. Ao olhar para o horizonte, parece que o ar está “tremendo”.
Os ventos fortes que sopram sobre o bioma Cerrado, fazem com que toda a vegetação herbácea, seque, deixando os animais magros, passando fome.
De longe se ouve os “gritos” histéricos das seriemas. O Carcará fica rondando sobre sítios e fazendas à procura de um filhote desavisado para fazer a refeição do dia.
As perdizes, durante este período, começam a entoar seus cânticos de acasalamento, para dar continuidade à vida. No céu azul, urubus voam em círculos aguardando a morte de uma rês para poder se alimentar, cena comum neste período do ano.
Mas no meio de tanta tristeza, a majestosa Caraíba, uma arvoreta comum nos Cerrados, perde suas folhas, deixando seus ramos nus para dar lugar a lindos cachos de flores amarelas, parecidas com a flor do Ipê. Iniciando a floração no mês de julho, prolonga até setembro, decorando o sertão, atraindo insetos para sua polinização e, depois que cai, atrai o veado catingueiro que utiliza as flores para se alimentar.
Nos pastos misturando com as reses, as garças boiadeiras, migrantes do pantanal, catam parasitas no gado e, à tarde, voam para as margens dos rios onde passam a noite numa algazarra danada, fazendo um lindo espetáculo crepuscular.
Os canários da terra, ao amanhecer fazem a festa com sua melodia suave e agradável e, ao entardecer, os pássaros pretos, iniciam sua orquestra nos bambuzais. As pombas do bando e as juritis voam para a copa das grandes árvores a procura de abrigo.
De longe se houve o assobio dos jaós no meio da mata e dos inhambus nas palhadas. O Lobo Guará uiva triste no meio da noite, avisando que aquele território tem dono.
Biografia:
Elvis Souza Nascimento, biólogo, Vice-presidente da Academia de Letras do Extremo Sudoeste de Goiás, com trabalhos publicados em Antologia de Contos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores,três livros e um capitulo de livro publicados em parceria com outros escritores, autor do livro de contos e crônicas Sertão das Caraíbas.
e-mail. canguu@yahoo.com.br