O gritoUm. Dois gritos. Vários. Horripilantes, rompem a negrura da noite. Acordo com o coração atarantado, saltando pela garganta. Meninas pulam da cama em atropelo. Sempre tive medo de dormir naquele pavilhão isolado. Plantado nos fundos do colégio, ao lado do campo de esportes, fica distante dos outros blocos. Considerando que o colégio é todo cercado, não teria problema, mas naquela r ...
O grito
Um. Dois gritos. Vários. Horripilantes, rompem a negrura da noite. Acordo com o coração atarantado, saltando pela garganta. Meninas pulam da cama em atropelo. Sempre tive medo de dormir naquele pavilhão isolado. Plantado nos fundos do colégio, ao lado do campo de esportes, fica distante dos outros blocos. Considerando que o colégio é todo cercado, não teria problema, mas naquela região o muro está em péssimas condições. Esburacado em alguns lugares, desmoronando em outros. Os moleques não dão trégua, sobem e descem, bisbilhotando nossas aulas de educação física. Bobos, só para ver pedaços de coxas brancas sob o saiote curto do uniforme de ginástica? Alguém aciona o interruptor. Irmã Consuelo, tentando ajeitar o véu nervoso sobre a cabeça, sai de sua tenda branca, no final do corredor formado pelas duas alas de camas. Apesar do tumulto, reparo que a irmã não é careca como dizem. Tem cabelo e bonito. Os gritos vão se espaçando, ficando mais baixos. O que aumenta é a intensidade do sofrimento sufocado. Nossos ouvidos continuam espantados com o que pode ser um lamento humano ou o uivo desesperado de algum animal ferido de morte. Seja lá o que for, vem do dormitório das irmãs. Meninas descabeladas em longas camisolas de cambraia amarfanhada, encarrapitam-se nas janelas. Duas tentam retirar a pesada trave que veda a única entrada do dormitório. Outra esbarra no estardalhaço de um penico, que até então permanecera na clandestinidade. Gente, alguém do nosso dormitório usa penico! Irmã Consuelo, o véu cobrindo a vasta cabeleira, aparentando uma tranqüilidade que está longe de sentir, gesticula, tentando organizar o caos. Cessam os gritos. O silêncio aterroriza mais que o lamento. Finalmente, podemos ouvir os apelos de nossa guardiã: Calma, crianças, acreditem, Jesus está no meio de nós! Ele é nossa proteção, nossa segurança. Então, qual o motivo para tanto barulho? Vamos meninas, todas de mãos dadas, respirando fundo, expirando o medo, exorcizando os fantasmas. Isso! De novo! Muito bem! Agora, vamos rezar o Pai Nosso com toda a fé de nossos corações acalentados. Uma pinóia, irmã, o meu continua disparado. Fico entre Maria Amélia e Nélida e ambas têm mãos geladas. Pai nosso que estais no céu [puxa, que noite atrapalhada!], santificado seja Vosso [a irmã sem aquele véu fica ainda mais bonita. Se Padre Mariano encontrasse ela sem véu ia ficar mais vermelho ainda] nome, venha a nós o Vosso [será que morreu alguém?] reino, seja feita a Vossa [de defunto eu tenho medo, e o penico, que nojo, de quem será?] vontade, assim na terra como no céu. Um arrepio negativo percorre nossas cabeças, interrompendo a conexão: e se tiver sido uma chacina? Se estiver sobrando apenas nosso dormitório? E se os bandidos estiverem vindo para cá? Recomeça a gritaria, agora, das meninas. Alguém tenta se esconder debaixo da cama. O penico solta um uivo estridente, esparramando urina pelo dormitório.
Maldormida, a noite acaba. Naquela manhã, ficamos livres da chatice da missa, uma ladainha em latim, que ninguém entende. No refeitório, durante o café, tentamos, em voz baixa, obter informações. Nada. As grandes sabem tanto quanto nós. Apesar de manterem o ar de superioridade, percebemos que elas também estão assustadas. E só atrapalham. Para nos impressionar, falam em seqüestro, estupro, morte e não sei quantas outras barbaridades. O corpo docente não nos dá a menor explicação, as aulas acontecendo como se nada tivesse acontecido.
No final da segunda aula, entra o casal desconhecido. Ele, nervoso, cara amarrada; visivelmente contrariado. Ela, franzina, olhos inchados, mal se vêem suas feições tão baixa mantém a cabeça. Já estamos na quarta aula, quando o mistério começa a ser desvendado.
Espetáculo ruim de se ver. E eu, miúda, amedrontada, presa em suas malhas. Caminho pelo corredor com a caixa de giz nas mãos [precisava do giz acabar numa hora daquelas?]. Vindo ao meu encontro, o cortejo fúnebre. Nele, o casal que ninguém sabe quem é, a irmã diretora e, entre eles, alguém que a princípio não reconheço. A pessoa não anda. É praticamente carregada. Não olha para lugar algum. Nem para o chão. Pálida feito a morte. Ombros curvos. Ar de ausência, velhice fabricada em questão de horas. Não é possível, não acredito! Baixinha, o rosto redondo arruinado. Não usa o hábito, mas é ela, nossa querida e doce irmã Celeste que sempre separou os dias em alegres, de uma alegria contagiante, ou cinzentos, calcados na mais profunda depressão. Passa por mim e é como se eu também tivesse sido anulada, riscada da vida. Busco proteção na caixa, que seguro firme junto ao peito franzino, e vou passando meio de lado, olhando com o rabo dos olhos, desconfiada.
Aos poucos, vamos descobrindo: nasceu livre, na liberdade de uma cidade pequena, à beira de um grande rio. Era para ter vindo homem, mas, por um descuido da natureza, nasceu mulher como suas três irmãs. Com uma agravante: menos bonita que as outras. Quando consegue sair do mutismo de quarenta dias, o pai sentencia: esta há de ir para o convento. Se arranjar marido para três já não é fácil, que dirá para quatro. E você, mulher, não me arrume mais barriga. Quero mais saber de filho homem não.
Predestinada ao cativeiro, vivia livre, os pés cavando a maciez das areias brancas, o sorriso largo abraçando a volta dos pescadores. Acompanhando o nado dos peixes, apostando corrida com os mais velozes. O pai, jacaré tinhoso, só aguardando o momento de dar o bote. A mãe, tentando revogar a sina da filha. Homem, não se ama um filho menos que os outros, olha que rostinho meigo, que olhos vivos. De tão negros parecem opacos. Hoje fui chamada ao colégio. Pediram minha autorização para a Yara participar do coral. O professor de música disse que ela é uma revelação, que tem voz de... de... contralto, acho que é isso. Contralto? Aquela voz esganiçada, parecendo passarinho engasgado? Besteira! É não, homem, quem sabe ela não acaba sendo famosa, uma grande artista, hein? Dessas que a gente vê na televisão. Tem uma tal de Maria Callas não tem? Já pensou, nossa filha brilhando em palcos grandes por esse mundão afora? Eu ia ficar tão orgulhosa! Vira essa boca pra lá, mulher! Sangue meu misturado com gentalha dessa espécie! Palco! Por trás do palco tem o camarim. O convento é o lugar que eu reservei a ela. E já não é sem tempo. Me avisaram que ela anda trocando olhares melosos com o filho do Divino, aquele pescador que traz os peixes que você encomenda.
Então veio à tona. Irmã Celeste, nossa professora de canto, ou Yara, filha de pai de linhagem nobre portuguesa [de nobreza mesmo ele só tem o nome comprido] e mãe descendente da tribo dos carajás, nunca teve vocação para a vida religiosa. Tomou o hábito mas não foi capaz de se acostumar com o vento quebrado na aspereza de muralhas, os pés metidos em grossos solados, a cabeleira preta aprisionada, esquentando seu pensamento afoito, que ninguém é dono da própria vontade; a alma enclausurada em dogmas que não eram seus. Da depressão à loucura foi um passo.
Era, de fato, um cortejo fúnebre sem féretro. O enterro de uma morta-viva. O mundo inteiro morreu um pouco naquele dia. Eu morri muito.
Salada de Capitães
O olhar entediado do homem varre, pela milésima vez, a atmosfera de fornalha, esquadrinhando, palmo a palmo, a paisagem monótona da caatinga. Sonda os arbustos ressecados, caminha preguiçoso pelo areal em brasa, atravessa a suçuarana e vai pousar, indiferente, na cascavel gigante.
— Essa pasmaceira tá me bulindo com os nervos. Tanto coronel aí pedindo pra ser sangrado e a gente aqui à-toa. Dá até coceira nos dedos.
— Que outra saída? Depois de tantas estrepolias, onde mais se esconder? Só mesmo o Raso da Catarina, essa filial do inferno. Pensa que eu também não tô abusada? Como primeira-dama do governador dos sertões, acho que eu merecia mais. Sabe do que gosto mesmo, meu amor? É de ser entrevistada, fotografada, sair nos jornais. Ah, como eu queria um retrato meu, do tamanho que eu sou, como o que você viu da Baronesa Joana Viana, lá em Água Branca, nas Alagoas, quando você saqueou o palacete dela!
— Pode contar com isso.
— Posso mesmo, Virgulino? De que jeito?
— Vou mandar vir das estranjas um cabra dos bons só pra fazer o seu retrato.
— Meu amor!
— Da Europa? Pra quê, capitão, se temos ótimos retratistas aqui?
— Cala essa boca, Luiz Pedro. Vontade de minha Santinha pra mim é lei. Mesmo sendo você quem é, cabra do meu peito, meu compadre, padrinho da Maria, ainda assim vai pagar pela insolência.
Enquanto fala, voz mansa, sem pressa, vai sacando o punhal.
— Que é isso, compadre? Precisa castigo não. Já aprendi a lição.
— Demorou muito pra aprender, não gosto de cabra lerdo. Encomenda a alma pra quem você quiser.
Antes que Maria, pasma, possa intervir, o homem arremessa o punhal contra o vulto, que, assustado, tenta fugir. A cabeça, decepada, bola de borracha nas mãos da morte, pula uma centena de vezes, mais alto que os arbustos. Pára, finalmente, aos pés do capitão. Os olhinhos tristes do bicho piscam despedindo-se da vida.
— Valei-nos Nossa Senhora dos Cangaceiros, o capitão errou o alvo!
— Errei não, sua anta. Entre um burro e um macaco, ainda fico com o burro.
Do seio das labaredas do meio-dia, surge o homenzinho raquítico. Cabeça descoberta, caminha descalço pelo areal abrasado, indiferente aos espinhos do xique-xique, da macambira. Feições alteradas pelo cansaço, barba de semanas. Olhando de longe, parece miragem. Volta-Seca esbarra o desconhecido na ponta do rifle, enquanto Corisco leva o recado.
— O homem deseja lhe ver. Diz que é capitão como vosmecê.
— Tem arma?
— Não. Só idéias.
— Nesse caso, é inofensivo. Pois deixe que entre.
— Camarada Luiz Carlos, que surpresa! Eu tinha em conta que você estivesse em Moscou, aprendendo novas técnicas de guerrilha.
— De fato, estou. Só vim dar uma vista d’olhos aqui nos sertões. Aquele frio de lá congela o ideal no peito da gente. Esse sol, sim, aquece a vontade. Vim...Quem há de saber por que vim?
Os olhos do homem buscam a distância. Vê, na saudade, a coluna que se arrasta, longa, comprida, serpenteando no areal dos sertões, comendo poeira, dividindo a sorte grande [não conheceram uma única derrota] com a minguada do sertanejo. Descalços, esfarrapados. O peito estufado. Verde o ideal. A verdade na ponta da língua. Vez ou outra, cometendo injustiça.
Passa a visão. No horizonte, o nada. Atrás, o vento desfez as pegadas. Alguns esqueletos na beira do caminho. O Cavaleiro da Esperança. Difícil manter esse mito sem cair no ridículo. Muito mais fácil ter morrido na trincheira do inimigo. Um dia dividindo, no outro saqueando. Aquele que planta, certamente não o faz por lazer. 25 mil quilômetros! É muito chão! Em cada palmo, uma verdade, uma razão. Somos um país de agricultores, não de bandoleiros.
— Então o exílio não lhe tirou o gosto pela guerrilha?
— O senhor, Capitão Virgulino, qual a causa pela qual o senhor mata?
— Causa... Mato por causa que matei o primeiro. No momento ando meio parado.
— Faltam homens?
— Não, homens não me faltam. Lembrei-me foi das guerrilheiras que você deportou lá pra Bolívia, que rumo tomaram elas?
— Penso que, depois de tanta fome, podem até estar trabalhando como faquir em algum circo por lá.
— Pois então passava-se fome na Coluna?
— Não se passa no cangaço?
— Passa não. Esses coronéis de merda mantêm meus alforjes cheios. Sede, essa sim. Às vezes, por dias, não se encontra um sertanejo.
— Quando encontram tomam a água da cabaça dele?
— Se ela for suficiente...Se não, bebemos o sangue do cabra pra completar. Faça essa cara não, camarada, é a lei da sobrevivência. Mas falemos de outra coisa. Em boa hora você me aparece. Preciso de um favor seu. É um capricho da minha Santinha. Careço de um retratista dos bons, e tem de ser do lado de lá.
— Compreendo, capitão. É o tempo de chegar e eu providencio seu pintor.
No silêncio cinza, os dois homens encapuzados em si mesmos cismam. A inatividade gera a dúvida. É na batalha que afugentam seus temores. No céu de chumbo, o gavião voa majestoso, livre, senhor absoluto das caatingas. Um tiro só e o cangaceiro tem a seus pés a ave.
— Pra que matar, capitão?
— Pra que ter alguém com mais poder que você? Se veio atrás da verdade, camarada, essa pode ser uma.
— Perfumou meu cavalo, Pó Corante?
— Oxente, meu capitão, já lavei e perfumei três vezes, mas o cheiro de sangue não sai.
—Também, depois daquela chacina em Jeremoabo! Meu amor, precisava tamanha violência? Matar a família inteira, escalpar, cegar e depois arrancar o coração do velho Salina, ainda vivo, na frente do único filho que lhe restava, isso só vai atiçar ainda mais a ira dos coronéis contra a gente.
— Pois deixe que eles venham. Dívida antiga é assim que se cobra. O velho mereceu. Era um sovina. Só mandou a