As águas continuam movendo moinhos. Não me digam para onde devo ir, eu sempre vou para onde devo ir.Não apontem meu queixo,eu aponto meu queixo para onde achar que devo,porque aprendi a curvar a cerviz diante do sábio,mas não diante do tirano nem do sinhô.... Eu não ando em garupas porque a dorme ensinou a controlar as rédeas da minha vidae o vento cósmico me mostrou o norte eterno do me ...
As águas continuam movendo moinhos. Não me digam para onde devo ir,
eu sempre vou para onde devo ir.
Não apontem meu queixo,
eu aponto meu queixo para onde achar que devo,
porque aprendi a curvar a cerviz diante do sábio,
mas não diante do tirano nem do sinhô....
Eu não ando em garupas porque a dor
me ensinou a controlar as rédeas da minha vida
e o vento cósmico me mostrou o norte
eterno do meu viver.
Quem quiser me dominar,
que habite os circos romanos,
durma nos calabouços úmidos
dos Cézares ou se acorrente nos porões fétidos
dos navios negreiros.
Os leões já não me assustam, eu os domei.
As pedras do calabouço foram
pulverizadas pelos séculos e a
chibata não me dói porque aprendi
a não chorar diante da vida, amando as pessoas
e os sublimes.
Não tentem me matar porque já morri tantas vezes
que fiquei amigo da morte.
Eu posso e faço o que quero
porque aprendi a me atirar abismo abaixo.
Venha, aprenda a viver a existência
dos grãos de trigo dos Faraós que
germinam apesar dos séculos.
Hoje é minha vez de rebrotar e fazer
sombra para meu povo. Vou passar.
Ganga Zumba vive!
Paulo Lacerda
13/08/2007.OPERARIO EM DESCONSTRUÇÃO.25 anos? Talvez. Uniforme completo.
Verde bandeira, esperança ou musgo?
Eles não voltam , nem o verde nem a esperança,
Só o musgo que brota dos túmulos.
Corpo estendido na estrada, fio comprido,
olhos para o céu.
Fechados o céu ou os olhos?
Sangue vermelho e ainda úmido
Unindo cervical e asfalto.
Nas mãos vales transportes ora vencidos.
Nos bolsos, salários irônicos.
Na consciência do atropelador, vazio.
Na boneca sem braços e esfarrapada, tesouro mantido.
Na boca, ansiedade e bico;
“Mamãe, papai tá demorando hoje...!???
Paulo Lacerda
07/06/2006.O AmorNo mundo da energia coagulada é muito difícil amar o amor diáfano dos que vieram para testemunhar.
Não quero ser considerado inexistente ou desprezível.
Vim para ser incorporado em suas vidas,
participar dos cafés das manhãs,
dos bolsos vazios dos pais sem razão e sem causa,
da cumplicidade dos meninos
e da fagueirice das meninas,
do aroma do verde das manhãs das auroras ignoradas,
do amanhecer de tempos passados.
Vim agasalhar a chuva,
abrandar os corações dos relâmpagos,
vim cantar para que as sementes germinem
e assoprar as velas dos barcos que chegam porque um dia partiram.
Quero adormecer nos leitos de pedras dos cárceres,
chorar filhos perdidos
e abraçar filhas que voltam prenhas.
Quero afagar as noites de lua e assoprar as estrelas,
quero estar junto da vida e viver nas carnes dos corpos.
Quero sorrir nos olhos das crianças que dormem sem sol.
Eu existo, olhem para mim, eu estou dentro de vocês.
Eu sou o silêncio dos justos,
a cantiga nos lábios das brisas,
a resignação das pedras do vale,
a lágrima que rola por vocês na ladeira íngreme da ingratidão.
Eu sou o amor! Eu amo vocês.
Biografia
Paulo César Lacerda de Oliveira.Cidade: Contagem - M. Gerais.
1961 – 9 anos. Freqüentador assíduo das matinês de domingo, 14 horas, ingresso pago com o dinheiro da venda semanal de jornais velhos, prestação de serviço carregando lenha da rua para o depósito ou com algum ganho de meu pai, num gesto de boa vontade ou quem sabe após um exaustivo trabalho de convencimento dirigido à sensibilidade de minha mãe, acompanhado de promessas firmes de cuidar melhor [futuramente] do Marcinho, o pequenininho.
Qualquer outro caminho servia da chantagem emocional à ameaça de choro desenfreado, perturbador. O que importava era não perder a exibição naquele domingo do seriado do Zorro, herói para todas as dificuldades, solução para todos os problemas. A máscara negra e excitante me ajudava na aproximação da namorada que insistia em ignorar meus dotes masculinos; a capa mística me ajudava a escapar voando da fúria paterna diante do boletim do colégio com notas inenarráveis; com a espada ágil eu marcava com a letra “Z” a testa de meus adversários; o cavalo fogoso me carregava galopando para a cama em escapada das investidas maternas pouco amistosas, quando prestes a descobrir meus pensamentos libidinosos para com nossa empregada.
Do cavalo eu desisti porque me convenceram de que eu não teria pasto para alimentá-lo, a empregada escapou de meus olhares e resolveu ter filhos com outro, a capa se fez inútil porque a realidade me cravou no chão, a máscara eu ainda usei durante muito tempo, embora tenha deixado de ser negra, desbotou até ficar transparente lavada pelas lágrimas da saudade, a espada se fez necessária e tentei materializa-la pelas mãos de meu pai, que numa tentativa de se ver livre de meus petitórios, fez uma para mim em madeira. Coisa horrível, muito longe daquela perfeição que usava para marcar com “Z” as testas dos meus adversários.
A grosseria do tal instrumento ficou marcada de maneira indelével em minha memória, e num chamamento continuado para a busca de melhoria. Na busca, faltaram madeira, ferramental e meios adequados; assim, aos treze anos, consegui apenas construir dois punhais de madeira com sobras de um espaldar de cadeira que achei no lixo. Peças toscas que existem até hoje, com minhas primas, que foram as primeiras a acreditar que eu poderia construir alguma coisa.
Sem que eu tivesse percebido, por falta de dinheiro para comprar madeira nova e impulsionado pelo espectro da espada grotesca feita por meu pai, eu havia despertado para a iniciativa de construir objetos em madeira reutilizada. Ali estava uma das lições que me aguardavam ao longo de toda a minha vida; as conquistas são filhas legítimas da dor.
Segui minha vida materializando os objetos que povoavam meu imaginário, entre uma nota baixa e outra, entre uma mudança de casa e outra entre um momento de solidão e outro.
Chegada a necessidade de trabalhar, fui posto fora de minhas construções sem me dar conta de que a dor da separação me preparava para o progresso, trocando o meio em que eu vivia. Ainda assim, entre uma atividade profissional e outra segui construindo, ainda que peças rudimentares, mas já bem melhores do que a espada tosca feita por meu pai.
O acinte de ver pessoas copiando meus trabalhos e se apropriando de minhas idéias me levou a desenvolver uma técnica própria que frustrava as pretensões dos copistas de plantão, defensores da idéia do prato feito, sem criatividade e sem terem visto a espada tosca feita por meu pai.
Com o desenvolver a da técnica, eu já vislumbrava a possibilidade de reconstruir seres sutis como as flores, seria possível?... e eu seria capaz?...
Sim, foi possível. Depois de aproximadamente dez anos de pesquisas, aí estão as flores esculpidas em madeira reutilizada. Os copistas ficaram estacionados na tarefa primária de copiar idéias e se esqueceram de produzi-las. Não copiaram as flores-esculturas ou por não terem desenvolvido técnica alguma ou por não terem ainda desenvolvidas as flores em seus corações.
Que as flores-pensamentos que povoam meus campos mentais continuem sendo materializadas por minas mãos e possam vir a povoar os sonhos de vocês, materializando-se em gestos de ternura e afeto para com seus familiares, vizinhos e todos os nossos irmãos cósmicos, sendo este um dos caminhos do processo evolutivo permanente da fraternidade universal, caminho nascido em 1961, na espada tosca construída por meu pai.
Obrigado pai, esteja onde estiver.
Hoje posso libertar meu cavalo, deixar as empregadas escolherem com quem querem ter seus filhos, o tempo tirou minha máscara e marco meus adversários no coração, com as flores do entendimento.
Contagem 01 de Fevereiro 2010.
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paulolacerdaartes1@yahoo.com.br