Semente Maria A minha tia Maria,Tinha cara de poesia.Qual poesia? eu não sabia, mas que tinha, tinha.Ah! Se tinha... Minha mãe dizia sempre que ela não tinha nada.Era uma pobre coitada,Sem eira nem beira, cozinheira de forno e fogão.Cozinhava para os cegos pobres de uma Associação. Ganhava pouco e gastava tudoComprando passarinhos engaioladospara soltar nas praças da cidade.-Sua tia Maria ...
Semente Maria A minha tia Maria,
Tinha cara de poesia.
Qual poesia? eu não sabia, mas que tinha, tinha.
Ah! Se tinha...
Minha mãe dizia sempre que ela não tinha nada.
Era uma pobre coitada,
Sem eira nem beira, cozinheira de forno e fogão.
Cozinhava para os cegos pobres de uma Associação.
Ganhava pouco e gastava tudo
Comprando passarinhos engaiolados
para soltar nas praças da cidade.
-Sua tia Maria é muito pobre! minha mãe afirmava cheia de certezas.
Eu não encontrava a dita pobreza que ela via
Naquela tia com cara de poesia.
Minha tia Maria ficou muito doente
E prosseguiu soltando passarinhos.
Minha mãe comunicou que ela morreria como indigente.
Já meu pai dizia que ela não morreria.
-Esse negócio de morte não é com Maria.
Minha mãe irritada perguntava:
-Ela vai virar semente?
E meu pai cheio de orgulho respondia:
-Ela já é semente. Semente Maria.
Minha tia Maria tão bonita.
Foi encontrada na pracinha morta.
Havia passarinhos à sua volta,
Seus amigos cegos estavam lá,
Rodeando de flores seu sorriso.
Disseram a meu pai que ela dormia.
E que morreu sonhando que voava
Com a cara cheinha de poesia.
[Iara Rosa - Búzios, 2008]
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A história de um Abacateiro Minha vizinha, de sorriso triste
Chegou ao muro e me contou do Abacateiro.
Disse que plantou pensando ser do lado seu.
Era não. Era do lado meu.
Bonito, frondoso e de frutas cheio
Era o meu Abacateiro!
Pela manhã, quando o sol chegava
Todas as folhas dele rebolavam
Balançando na fresca matinal.
Mas
À tarde, chegava um vento assanhado.
Soprando forte de todos os lados
Balançando as frutas do Abacateiro, o safado.
Arrancando as roupas do varal.
Um dia tristonho
De repente,
Dia comum sem sol sem vento
Sem quê em porquê
Morreu o Abacateiro que era tão meu!
A vizinha do sorriso triste,
Sem porquê nem quê
Também morreu...
[Iara Rosa - Búzios, 2008] Biografia:
Iara de Oliveira Rosa - Iara Rosa Nascida em Niterói, RJ
Na década de 70 se apaixonou pela cidade de Búzios e aqui fixou residência.
Formada em Pedagogia, desde cedo se dedicou as Artes Plásticas.
Tem entre outras exposições sua participação no XIV e XV Salão Nacional de Arte Moderna - Rio de Janeiro:
l Bienal de Artes Plásticas em Salvador:
XXI Salão Fluminense de Belas Artes em Niterói
Fez sua última apresentação na 'Nanette Fine Arts Gallery, em Philipsburgs, St Maaten, Antilhas Holandesas;
É verbete do 'Dicionário das Artes Plásticas do Brasil' autoria de Roberto Pontual - Editora Civilização Brasileira.
Depois de pintar seus quadros e esculpir em entalhos, ela também se voltou para as coisas que somente as palavras podem expressar.
Tem centenas de crônicas que escreveu para Jornais.
São de sua autoria:
'A Dama de Azul', publicada na Antologia Best-Seller - Editora Literis - RJ. 1996
'De como o menino Taquasi ganhou seu primeiro cão' - publicado na Antologia Anuário de Escritores - Editora Literis, RJ
'Quando o Francês voltar' - publicado na Antologia Histórias de verão - Editora Literis, RJ
Surgiu então o romance
'Santana D'Armação' - romance - Victor Alex Editor - Búzios, RJ - 1999
'Buzionautas' - contos e crônicas - Victor Alex Editor - Búzios, RJ - 2006
Inéditos:
Auto de Santana [Teatro]
O Libertário [Teatro]
crocrodrilro@Yahoo.com.br