ASAS ABERTAS Não me prendam! Não amarrem minhas asas... Eu me tornaria como um de vocês. Já ouço o barulho do laço sendo armado nas mãos de meu próximo; já escuto o tilintar das algemas; já sinto a intenção da canga em meu dorso. Afastem-se de mim insetos infernais, malditos de meu Pai. Não sou cavalo e nem cão. Se teimarem em roer minhas asas sob esta pele de cão, não me limitarei ...
ASAS ABERTAS Não me prendam!
Não amarrem minhas asas...
Eu me tornaria como um de vocês.
Já ouço o barulho do laço sendo armado nas mãos de meu próximo; já escuto o tilintar das algemas; já sinto a intenção da canga em meu dorso.
Afastem-se de mim insetos infernais, malditos de meu Pai.
Não sou cavalo e nem cão.
Se teimarem em roer minhas asas sob esta pele de cão, não me limitarei a coçar-me...
Entrarei nas chamas para queimar meus pelos e matá-los; sairei queimado, mas sairei livre!
Já ouço o zunir do laço a rodar em outras mãos...
Não sou cão e nem cavalo, mas escoicearei e corco varearei até vê-los jogados no chão; e então - não se enganem comigo! -, pisa-los-ei até a morte e beberei o sangue no caneco da minha vitória!
Não é um pedido que faço, nem tampouco uma ordem que dou; tão somente falo para mim mesmo... para não esquecer que tenho asas.
Não se enganem comigo! Tenho asas mas não sou passarinho, sou um gavião, um falcão e uma águia! Sou ave de rapina...
Tenho garras poderosas para estripá-los!
Não é um pedido que faço, porque não me atenderiam.
Não porque me querem mal... é porque querem o próprio bem.
Não se enganem comigo, também quero o meu próprio bem!
Já pressinto o tilintar das algemas e só de pensar o pavor me invade...
Não se enganem comigo! Reagirei como fera acuada ou fêmea que defende os seus filhotes; investirei com fúria no olhar e com a força que este pavor me dá.
Não se enganem comigo! O medo que tenho, não é de vocês...
O medo vem de ter as asas presas e vê-las atrofiadas; é o medo do esquecimento de mim mesmo, que então virá, fazendo-me igual a vocês...
Não se enganem comigo! Não falo para vocês; somos iguais neste ponto: pensamos somente em nós mesmos; a cada um o seu próprio espaço e eu quero o meu.
Mas também sou um pássaro que plana nas alturas, levado pelo vento que, como eu, não sabe de onde veio e nem sabe para onde vai...
Também sou manso e gosto do carinho de quem comigo está; sou terno e indefeso à mão acariciadora e terna, sempre desarmada...
É nela, nessa mão, que recolho minhas garras e deixo-me quieto no agasalho carinhoso...
Não se enganem comigo... sou frágil e doce, sei abraçar e sei amar [quem está comigo sabe disto]...
Haveremos de planar nas alturas mais altas, os dois, asa com asa... com asas abertas.
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MENTIRASUm menino nasceu
Sua infância viveu
Na escola aprendeu
Nos padrões cresceu
Namorou sério
Noivou também
Como convém
Ao rapaz sério
Como manda o padrão
Casou na igreja
Como convém ao varão
Como convém ao varão
Seu filho nasceu
Como manda o padrão
O tempo passou
Da farsa acordou
Perdido ficou
Não se achou
Liberdade!
Seu peito gritou
E sem idade
Seu coração chorou
E como quem acorda
Olhou para tudo
Olhou para trás
Olhou para as verdades que aprendera
Olhou para agora...
Enganado e ofendido
Enxugou as lágrimas
Calçou as botas
Enrolou a camisa
E fez como convém...
Como convém ao bandido
A regra rasgou
O padrão renegou.
Com o peito ardido
Saiu par aí
Por aqui
Por ali
Calado
Cantando
Caindo
Subindo
Está por aí
Está por aí
Como convém
Como convém a um bandido...
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SONHOSAh, alegria de jovem!
Pensamento que tem asas
E não tem pouso
É tudo possível
É só querer.
Ah, coração sonhador!
Não tens culpa de preparar
Teu sofrer...
Ah, coração!
Se fosses mais sereno
E mais modesto
Em teus sonhos azuis...
Se ao invés dois
contasses um...
No lugar do tudo
Um pouco...
No lugar do gargalhar
Um sorriso pequeno
Mas sentido...
Oh, pensamento!
Carrasco sempre presente
Algoz de machado afiado...
Um dia acorda e diz:
'Já chega! É hora de começar a sofrer!'
Por que acordas Pensamento?!
Ah! Se teu sono fosse eterno...
Concede-me só um pouco mais...
Um pouco mais de tempo
Para que eu sinta
A alegria de outrora.
Deixe-me conquistar
O mundo novamente...
Deixa eu tentar...
Deixe-me salvar a princesa
Que está presa no castelo...
Deixa-me acumular riquezas
E ajudar os pobres
Que dormem na fria calçada...
Deixe-me novamente
Sentir o ar puro de um campo
Açoitado por uma chuva que vem de repente...
Deixe-me sentar sob a árvore
E sentir-me leve...
E pensar que o mundo foi feito
Para eu seu feliz!
E, Pensamento,
Enquanto estiveres
atendendo este meu pedido...
Eu,
Num ato de suprema covardia
Vou matá-lo!
Sim, vou matá-lo
Para que eu possa Viver!
biografia:
Edgard Porto FilhoNasceu em cinco de julho de 1946, em Itaperuna, cidade no noroeste do estado do Rio de Janeiro e aos sete anos sua família mudou-se para Niterói, cidade da qual nunca mais saiu.
É um rebelde por natureza, contra os preconceitos da sociedade de seu tempo e, apesar de profundamente religioso - cristão -, renunciou à Igreja. Renunciou também à autoridade do Estado sobre sua pessoa, apesar de seus princípios rígidos e de seu respeito à lei.
Seu meio favorito de expressão é a prosa, onde valoriza a liberdade de pensamento numa sociedade que se limita ao espírito do tempo e valoriza o que ele despreza - o sucesso material.
Sua vida é sua obra e se dá no domínio da mente. Descobre suas 'possibilidades' em si mesmo.
porto.filho@editorafaroldasletras.com.br