E EU QUE ERA TUDO OU NADA AO MEIO-DIAE eu que era tudo ou nada ao meio-dia, Que cantava a chuva ao inverno frio, Que rastejava seu nome aos pés do caos, Que andava só e nua Sob o sol da minha rua. Eu que amei a todos enquanto contemplava a vida, Que odiei o vento sul nas tardes de sábado, Que lamentei a morte e celebrei a vida, Que troquei tantos sonhos por livros preciosos, Que andava a pé, à ...
E EU QUE ERA TUDO OU NADA AO MEIO-DIAE eu que era tudo ou nada ao meio-dia,
Que cantava a chuva ao inverno frio,
Que rastejava seu nome aos pés do caos,
Que andava só e nua
Sob o sol da minha rua.
Eu que amei a todos enquanto contemplava a vida,
Que odiei o vento sul nas tardes de sábado,
Que lamentei a morte e celebrei a vida,
Que troquei tantos sonhos por livros preciosos,
Que andava a pé, à toa,
Sob a lua do meu tempo inútil.
Eu que praguejei injúrias na sexta-feira treze,
Que amaldiçoei a falta de sorte do mundo,
E invejei meninas de cabelos dourados,
Durmo hoje ao som de eternas rumbas,
Uso vermelho às seis da manhã,
E ando de preto,
Sob o sol do meu destino.
Eu que nunca lamentei meus absurdos,
Que nunca retrocedi nos meus conceitos rÃgidos,
Que de certezas plenas amanheci em verdes vales,
Que escutei o ai solene de prostitutas virgens,
E derramei meu sangue ainda criança,
Ando hoje devagar,
Sob a lua cheia de histórias vermelhas.
E hoje aqui tudo é lembrança e esquecimento,
Minha casa é pequena pra mim,
E meus amigos já não dizem as letras do meu nome estéril.
Faço da rua abaixo passarela extensa
E ando ainda sem pressa
Sob o sol e a lua do meu caminho vil.
AS ESTRELASCortando o firmamento,
ponto a ponto,
sobre a cidade vazia,
brilhante constelação...
Erguida sobre a multidão
de passageiros solitários,
ora afoitos pela luz do dia que vem,
não percebem o céu luminoso
a espera de outro milagre,
e seguem com pressa,
olhos fixos ao chão.
E lá no alto juntas sorriem,
clareando meu pensamento,
arrastando o tempo junto a mim.
Dias e dias, talvez.
noites e noites:
alguma luz,
imprevistas sombras,
breu.
Tristes amarras prendem
homens atentos a coisas vãs,
e as estrelas,
ah! As estrelas majestades!
Reinam solenes
sobre a cabeça do pensador
que, aberto ao clarão de todos os luares,
deixa refletir a luz das meninas,
que de tanto piscar,
parecem dançar!
Mas a noite toda é homem,
velhos assuntos,
mau humor.
Onde antes vibravam mil cores,
hoje tudo é cinza e azul.
E não vemos mais
os tempos ancestrais
onde tudo era brilho
e luz.
OCEANO FLAMENCOEu me vestia de vermelho todos os dias
e corria pela praia em contraste primário com as cores do mar,
pisando em areia branca,
revisando versos azuis.
Perdi três vezes o grande amor,
abandonei pessoas eternas,
esqueci o número da casa em que vivia,
e vaguei sem dinheiro pelas ruas do meu paÃs.
Cheguei como estrangeira em terra desabitada,
carreguei meu silêncio por tempo inaudito,
forrei de poesia o chão do meu quarto inóspito,
e chorei sozinha em noites de céu sem lua.
Conquistei meu espaço com palavras fortes,
gerei frases de efeito em território alheio,
mascarei intenções duvidosas,
formulei sentenças de guerra,
e impus à força minha vontade única.
Não fiz muitos amigos,
testei meu passaporte em estabelecimentos locais,
mantive em segredo meu passado profano,
e falhei em público quando jamais deveria.
Hoje sou mais de cinco mulheres,
encanto homens e crianças,
minha bagagem é cheia de histórias adormecidas
e a liberdade infinita, minha melhor companhia.
biografia:
Tamara RamosNascida na cidade de Santos em 1977, Tamara Ramos dedica-se ao estudo das obras literárias nacionais e internacionais desde a adolescência.
Formada em fotografia, a autora valorizou sempre a busca pela estética tanto em seu trabalho visual como em sua obra literária.
Nota-se em sua poesia uma forte influência da arte latina e hispânica, encontrando nas cores intensas da arte espanhola, mexicana, chilena, colombiana e brasileira, a maior fonte de inspiração para sua criação poética.
Em 2007 lançou o blog 'E eu que era tudo ou nada ao meio-dia' que tem surpreendido a autora devido ao grande número de acessos.
Em 2008 participou do livro de coletâneas de poesias e contos: ANTOLOGIA DELICATTA III, lançado na 20º Bienal do Livro em São Paulo, com dois poemas de sua autoria.
Bacharel em Direito, a autora também é criadora e responsável pelo projeto 'Formando Poetas' onde ensina a lÃngua portuguesa e a paixão pela leitura por meio da poesia. O projeto foi desenvolvido para dar apoio à s crianças carentes e com deficiência de aprendizagem.
A autora também é colunista dos sites Gosto de Ler, o maior site de colunistas do Brasil; e do site Recanto das Letras.
Tamara Ramos é membro da Academia EspÃrito Santense de Letras.
tam_ramos@hotmail.com