CLAUDIANAConstruir estradas paralelas sobre linhas planaspara caminharmos sempre juntos,é como nos contorcemos sobre um tempoque nos fez semelhantes e nunca nada nos cobrou por isso.Os leitos profundos nós os fazemos sempre,independente de quereres, bordados de seda e espinhos,tapete estendido sobre lugares indistintos onde os teus pés que caminham são de ferroenvoltos em sapatos de algodão m ...
CLAUDIANAConstruir estradas paralelas sobre linhas planas
para caminharmos sempre juntos,
é como nos contorcemos sobre um tempo
que nos fez semelhantes e nunca nada nos cobrou por isso.
Os leitos profundos nós os fazemos sempre,
independente de quereres, bordados de seda e espinhos,
tapete estendido sobre lugares indistintos
onde os teus pés que caminham são de ferro
envoltos em sapatos de algodão macio,
deixando lisas as pedras onde passam, beijando precipícios.
Brandos cantares imitando hinos aos teus ouvidos sussurram:
Caminha, vai, não tenha medo,
esmaga os espinhos e tece a seda
com que se farão bandeiras festivas em todos os domínios,
colorindo noites e estrelas, permitindo a vida,
estandartes de borboletas acordadas no encanto de luas
com suas asas leves vincando seus destinos.
Assim é você, como o desenrolar de um fio,
agudo prumo segurando pipas entre as nuvens
em inimitáveis rodopios, mãos em paz que fazem pouso
em tantos corações famintos,
sinalizando portos de repouso absoluto. Pés peregrinos
que cruzam oceanos despertencidos e indistintos,
em barcos de guerra, com remos resolutos,
recolhendo sentimentos tão por aí desavisados,
enchendo de virtudes mãos que vão pedindo.
São os pés nus os que semeiam bosques
nas cordilheiras mais altas, somando flores e frutos,
que deixam marcas nos caminhos estreitos,
que sinalizam os rumos
nas paredes tantas vezes sem éco dos mais profundos labirintos,
que vão mostrando o traço dos faróis nas noites escuras,
onde a amizade é a grande sentinela
de todo o amor que vai se construindo.
BALADA DO FILHO MORTO
BRUNO MEZENGADorme meu filho, dorme,
no berço da minha dor, coberto com meu sorriso,
encostado no meu peito, ao hino do meu amor.
Dorme, dorme, passarinho,
guardado dentro do ninho de espinhos que eu fiz tecer
no meu coração vazio,
para guardar teu silêncio, teu movimento macio,
teu riso tão resguardado, a tua infância ainda viva.
Vai descansado e sonhando descobrir novos encantos
onde ninguém penetrou,
de roupa branca encenando anamneses de planos,
brincadeiras de doutor,
escutando corações, imaginando alegrias,
que um dia tuas mãos macias curariam perdições.
Fotografia rasgada ao meio, ausência dividindo o tempo, colo sem peso,
noite escura acobertando a covardia da vida que te esquece o corpo
sobre o frio, tão quieto, tão sozinho,
que bebo com meus olhos perdidos, meu silencio, meu maldito vicio
de te amar tanto e tanto que estrangulo o grito.
Sentinela calada eu vou seguindo estes teus passos brancos,
teu rumo tão decidido, tua vontade cerrada,
tua bondade guardada que só quem viu preservou,
vou engolindo o destino tão de repente rompido,
num instante decidido sem mesmo te consultar:
ficou assim resolvido que não brincarias mais.
[ Minhas mãos estão tão presas...]
Só comigo a brincadeira continua em vida inteira
que eu possa me recordar, meu coração é teu trilho.
Dorme em meu peito, meu filho, sem mais nenhuma aflição,
vou te embalando tão lento que nós nem vamos notar,
minha mão no teu cabelo, nossa distancia esquecida,
o sangue em chuva caindo de dentro do meu olhar,
cobertor desafinado tramado em perda e saudade,
que só a morte nos trás.
Vai e me espera tranqüilo, parte de mim te acompanha
e a outra parte seguindo.
NERUDIANA 2Volto a falar como quem passa uma vida inteira
buscando em espelhos
o sentido inconstante dos desejos proibidos
rabiscados sem definição na tua pele.
Pergaminho indecifrável de contornos
como um rio manso que alisa vales e pomares
insistindo em fecundar a minha terra bruta,
chuva macia caindo em meus olhos
para sempre semeados desse teu encanto.
Cheiro de pó molhado, de vidraça antiga
respingada de vela,
viço de grama serenada estendendo tapetes
nos caminhos, para que eu sempre te encontre.
Para que eu possa me fartar do teu encanto
e da tua boca pintada, do teu riso, do teu cheiro,
como se na ousadia de te pertencer
eu pudesse entender para sempre o teu destino
e compreender o porque da luz intensa
envolvendo sempre os teus cabelos em chamas,
em sons sutis de serenatas e pandeiros.
Sei que são os olhos do meu querer que te fazem,
e quero te fazer como te vejo.
Quero poder ver o sentido dos teus lábios,
ainda para mim desconhecidos,
entreabertos sempre entre prazer ou fúria,
tantas vezes para mim dissimulados,
sempre tão apressados como uma brisa ligeira
que por nunca me pertencer não me importavam.
biografia:
Angelo Soares NetoNatural de São José do Rio Preto, estado de São Paulo,Brasil, medico psiquiatra, membro da União Brasileira de Escritores e da Sociedade Brasileira de Medicos Escritores, tem publicado os livros:Cadê? de pedras e limo e Amantes Infiéis [poesias] e Pequenas Histórias para Boi Dormir [ contos infantis].
angelo.soares@riopreto.com.br