POEMA DAIMPERMANÊNCIA Ronaldo CagianoEm tudo o que fiz, por onde passe[e]i,deixei um pouco de mim no rastro imprecisode meus passos,na rutilância dos olhos esbugalhadosdiante dos avessos da vidaou na tumultuária assimetriados leitos da amada. Os desacertos, as nulidades, os escombrossão frutos clandestinos dos atalhos e das contingências,do niilismo impregnado em minhas vísceras: a inocênci ...
POEMA DA
IMPERMANÊNCIA Ronaldo CagianoEm tudo o que fiz,
por onde passe[e]i,
deixei um pouco de mim
no rastro impreciso
de meus passos,
na rutilância dos olhos esbugalhados
diante dos avessos da vida
ou na tumultuária assimetria
dos leitos da amada.
Os desacertos, as nulidades, os escombros
são frutos clandestinos
dos atalhos e das contingências,
do niilismo impregnado em minhas vísceras:
a inocência apeou desapontada,
a malícia conduziu-se ávida
na crina indigente dos lençóis.
Os exageros
eu os credito á solidão ,
esse rebanho de ausências
e sua confraria de silêncios,
que nos apartam ou nos impõem
um degredo maior
que asila a alma
e desmantela as coisas.
[Do livro “Canção dentro da noite”, 1998] FLAMBOYANTS Nas avenidas de Cataguases
os flamboyants florescem
como numa pintura de Van Gogh,
enquanto a cidade jaz
num silêncio sepulcral.
Corolas e pistilos denunciam
que no asfalto distante rompe uma flor:
é a rosa destemida
que vinga contra o tédio
e a dissimulação
que o tempo decreta
nesses homens tão urgentes.
Os passos enviesados
da entourage ensimesmada
não colhem dos pássaros
a melodia mozartiana
que insiste em meio
à indiferença total.
Mas essas árvores solenes
[como os discretos oitis das alamedas]
explodem altivas nas cercanias solitárias
e guardam segredos das gentes
sob o beiral do riacho exausto
que, sonolento, beija suas raízes.
Mais vivos do que nós,
celebram o que em mim
já não vive.
[idem]
SO[M]BRASVejo o rio que corre
em Cataguases
– é o mesmo vário rio
que [es]corre em mim:
educando-me pelas encostas
com lições de cheias
e úmida cartilha de enfados.
O exemplo da água que f[l]ui,
com sua impessoalidade e inconcretude
crava-me um sertão nas entranhas.
E um acúmulo de pedra nas vísceras
embrenha na alma tantos eus.
Essa sombra, essas sobras
bóiam indigentes, como um feto
em placentária
clandestinidade.
[idem]
OFICINA DE DESGOSTOS A solidão da carne
mistura-se ao triunfo
que não há em quase nada.
Dos dias,
o veneno que impregna
as vísceras infames.
O exílio é deflagra
os espasmos de solidão
no tédio instalado
após a curva da estrada
[ que decreta o asilo dos sonhos
na banalidade de todos os esquecimentos]
circunstância inamovível
desse estar-no-mundo
e não ser nada.
[idem]
MURAL Ó ceu azul – o mesmo da minha infância –
Eterna verdade vazia e perfeita!
Fernando Pessoa
Percorro o trajeto do meu rio
e transito por antigas encostas
onde encalharam
os barcos vulneráveis
de uma infância alada.
Embarcações de papel
que não cumpriram
a viagem dos sonhos
pois – nau sem rumo –
perdeu-se no sofisma
de minhas alucinações precoces,
adernou ao som
de ingênuas procelas.
Hoje busco nessas águas
o elo que se rompeu
[agora hibernado no escuro
das torrentes cansadas
que em mim escorrem].
Outro leito há no velho Rio Pomba:
correndo por aldeis difusas,
escande o sinuoso caminho
de minhas dores & delícias.
O Tejo que em mim soluça
leva-me a oceanos inauditos.
Biografía:
Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases [MG] 15/4/1961, viveu 28 anos em Brasília, onde formou-se em Direito. Atualmente mora em São Paulo. Colabora em diversos jornais e revistas, publicando artigos, ensaios, crítica literária, poesia e contos. Obteve 1º lugar no concurso 'Bolsa Brasília de Produção Literária 2001' com o livro de contos 'Dezembro indigesto¨. Livros publicados: Palavra Engajada [Poesia, SP, 1989],Colheita Amarga & Outras Angústias [poesia, SP, 1990], Exílio [poesia, SP, 1990], Palavracesa [poesia, Brasília, 1994], O Prazer da Leitura, em parceria com Jacinto Guerra [contos juvenis, Brasília, 1997], Prismas – Literatura e Outros Temas [crítica literária, Brasília, 1997]. Canção dentro da noite [poesia, Brasília, 1999], Espelho, espelho meu [infanto-juvenil, em parceria com Joilson Portocalvo, Brasília, 2000], Dezembro indigesto [contos, 2001 – prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001], Concerto para arranha-céus [contos, LG, DF, 2005] e Dicionário de pequenas solidões [contos, Língua Geral, Rio, 2006]. Organizou as coletâneas Poetas Mineiros em Brasília [Varanda Edições, DF, 2002], Antologia do conto brasiliense [2003, Projecto Editorial, DF] e Todas as gerações – conto brasiliense contemporâneo [LGE, Brasília, 2006]
ronaldo.cagiano@caixa.gov.br