Orgasmo voraz e intensoOntem à noite flagrei vocême abraçando em outro corpo,eu era o seu amor amante,mas era outra, a boca que lhe beijavae enquanto você arfava, ele se iludiapensando que era ele o motivodo seu orgasmo voraz e tão intenso.Hoje quando lhe telefonei flagrei vocêfalando comigo como se fosse ontem,sua voz cantava felicidade ardentecomo se fosse eu o seu amantee enquanto eu escu ...
Orgasmo voraz e intensoOntem à noite flagrei você
me abraçando em outro corpo,
eu era o seu amor amante,
mas era outra, a boca que lhe beijava
e enquanto você arfava, ele se iludia
pensando que era ele o motivo
do seu orgasmo voraz e tão intenso.
Hoje quando lhe telefonei flagrei você
falando comigo como se fosse ontem,
sua voz cantava felicidade ardente
como se fosse eu o seu amante
e enquanto eu escutava alguém cantar
bem distante 'fica comigo esta noite',
você revivia o orgasmo voraz e intenso.
Ontem à noite você esteve comigo
mesmo estando em outro corpo.
Não viu os meus olhos, nem beijou-me a nuca,
não alisei o seu ventre e nem as coxas,
mas você sentiu-me dentro dos seus sonhos
mesmo sendo em outro corpo
que despejava seu orgasmo voraz e tão intenso.
Natal, 28 junho 2005x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Imagens sociaisEstava na negra lama,
eu vi,
tão negra quanto ela,
agachada,
os dois a correr:
O guaiamu da moçoila
ou a moçoila do guaiamu?
Mãos negras de cor e lama,
[tanta lama havia nos cabelos
encarapinhados...
mesmo com a força do vento
não esvoaçavam contra o rosto].
Eu não sei se era o caranguejo
correndo atrás do dedo viciado
ou se o dedo já ferido de tanto
ferir caranguejos,
fugia buscando abrigo,
onde não existia costado.
Somente eram brancos, os dentes
e a mancha avermelhada, nos olhos,
talvez rubro, como o caranguejo
estrebuchando na panela preta,
para o jantar, quando o sol
ainda faz-se tão vivo.
Quem estava mais negra
naquele instante, não sei,
se a lama do mangue
ou se a menina na lama.
Quem mais parecia animal,
daquele jeito, não sei,
o guaiamu fugindo da menina
ou a menina pegando o guaiamu.
Recife, 04 setembro 1996x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x
Ah! se existisse vida em Biafra!...Está chovendo, venham ver, meninos de Biafra,
venham ver a água caindo do céu e molhando
a poeira ressecada, no chão pisado de tanto verão.
O gado, se ainda existisse gado, estaria correndo
pelo pasto sem pasto, e os patos no lago,
se ainda existissem patos, nadariam em círculos.
Peixes aos borbotões, em anzóis ansiosos
encheriam um cesto cheio de fome,
vazio de esperança.
Mas, já não tem peixe em Biafra,
já não tem pão em Biafra
e nem fome existe mais em Biafra...
a vida deixou de existir,
o sopro de esperança sucumbiu, faz anos,
com as crianças barrigudas, depois da fome.
Os homens seguiram para outras nações
e suas mulheres ficaram para enterrar
os velhos, as crianças e outras mulheres;
está chovendo, venham ver, meninos de Biafra,
venham ver a água fazendo o rio transbordar
lavando o deserto vermelho de pó e sangue.
O frio, se alguém cá estivesse para sentir frio,
corta os ares como navalha, sacudindo portas
e quebrando janelas, há muito, já quebradas
pelas telhas atiradas pelo vendaval crepuscular
nas tardes quentes, do eterno verão, em Biafra.
Aracaju, 09 maio 1991biografia:
Jorge de AzevedoNasci no oitavo dia de agosto num bairro pobre de Salvador/BA, terra de tantos deuses e tantos santos. Cresci entre cidades - Candeias e Salvador - na esperança de encontrar comigo em qualquer esquina. Mudei para o Rio quando os primeiros fios de barba pintaram meu rosto, onde concluir os estudos e fiz-me militar do Exército por seis anos. Casei e descasei não sei quantas vezes. Tenho dois filhos, um casal pouco visto, pouco abraçado. Arquiteto sou de todas as formas. Pois formo palavras e poemas com a mesma facilidade que projeto moradas cores, mas sou poeta de coração e de alma.
sonhosdepoeta@yahoo.com.br