SOLIDÃO EQUILIBRISTAEu sei da sua solidão que sonha com os prazeres do meu corpo de acrobatae os meus gemidos de séculos de desejose noites de blasfêmiasNão se iludaNão me sigaMeu vestido não é vermelhoMinha xoxota não é a do livro de Biologia Vôo sobre o mundo com as borboletas Mas é com as lagartas que divido o musgo das rochas úmidase outras coisas miúdas e insignificantes.ALA FA ...
SOLIDÃO EQUILIBRISTAEu sei da sua solidão
que sonha com os prazeres do meu corpo de acrobata
e os meus gemidos de séculos de desejos
e noites de blasfêmias
Não se iluda
Não me siga
Meu vestido não é vermelho
Minha xoxota não é a do livro de Biologia
Vôo sobre o mundo com as borboletas
Mas é com as lagartas que divido o musgo das rochas úmidas
e outras coisas miúdas e insignificantes.
ALA FA travessia da ala F
É uma viagem mais longa do que a da Patagônia ao Alaska
Recosto-me num ombro imaginário
E vejo tudo:
O que vivi
O que temi
O que comi e não digeri
Porque a dor não se digere assim
Leva anos, séculos,
Expressões inúteis
Ladrilhos escorregadios
Cacos de espelhos colados na parede
Água gelada acordando meu corpo anestesiado
A lucidez é um fiapo
Que me envolve como uma sentença de morte
Pulsos cortados presos à cama
Enquanto a vida homeopaticamente se esvai
pelas frestas de uma janela inexistente
Sussurros de camudongos enchem meu peito de pavor
Trazem fantasmas, sombras, medos
Um dia entrarão e roerão tudo
Teus olhos também
Nada será poupado, nem a lembrança
Fragmentos de sentidos se espalham no silêncio do poema
O ruído: pesadelo semântico
O ruído: avatar da miséria
O ruído: corte na alma
Para além do ruído, a palavra medrosa, o deserto
O espelho descobrindo continentes esquecidos
As montanhas longínquas do norte
Emolduram fragmentos de desejo
que rodopiam em volta de uma promessa não cumprida
os dedos de A. se enrodilham nos meus cabelos soltos
Caminho pelas minhas veredas inúteis
E vejo que não há onde se esconder
Todos os cômodos estão tomados de dor
De escuridão
Nenhum vagalume...
E eu prossigo
Nenhuma esperança ao redor: apenas sangue
O quarto inteiro cheio de sangue
... e borboletas.
DEUSeu e você
pontos distintos na geometria do universo
duas conchas
dois buracos negros
dezenas de interrogações
você me observa
enquanto eu devoro o universo
e levo uma eternidade para digerir
o beijo
o caos
a morte
o nada
Eu, desenhista, poeta, crente.
Você, Deus.
[Extraídos do livro Solidão Equilibrista, Fortaleza: Edições UFC, 2008]biografia:
Bernadete Ramos Beserra, poeta e antropóloga, é professora da Universidade Federal do Ceará. Publicou os livros Solidão Equilibrista [poemas] e Brasileiros nos Estados Unidos: Hollywood e outros sonhos [antropologia].
bernadetebeserra@yahoo.com.br