LETRA NEGRA [fragmentos]Iescuto escuro - sombras surdas - no espaço espesso lodo torvo de um tempo esquivo em que começo e recomeço o pugilato comigo mesmo luta ou luto que me cega e segue como treva ou trava ao vento curvo. IIverde é o segredo verde é o silêncio escrito em cicatriz escrito em anti-flor-de-lis - para a necessária abolição de mim -IIIestou morto e não-morto vértebras ao ...
LETRA NEGRA [fragmentos]I
escuto escuro - sombras surdas -
no espaço espesso
lodo torvo
de um tempo esquivo
em que começo e recomeço
o pugilato
comigo mesmo
luta ou luto
que me cega e segue
como treva ou trava
ao vento curvo.
II
verde é o segredo
verde é o silêncio
escrito em cicatriz
escrito em anti-flor-de-lis
- para a necessária
abolição de mim -
III
estou morto e não-morto
vértebras ao inverso
letras tontas
de um nome incerto
vocábulo equívoco
desfeito em água
- para a necessária
abolição de mim -
escuto espesso - sombras mudas -
no escuro escuro.
IV
nada me aquieta
entre espectros
de palavras-coisas:
anêmonas trafegam
pensamentos rotos,
roídos até o muco
- eis a era desolada
de cortes e recortes
tempo-cutelo
no espaço lacerado
pele-de-lua violada
por línguas-gárgulas
lua-esfinge-macerada
por caninos cérberos:
tempo nigromante
- corvo corvo corvo
recrocitando escárnios.
V
'quando nada mais faz sentido' -
busco o mistério animal,
a ferocidade da noite:
deslizando por meus lábios,
abisma fábulas
na desordem dos cabelos;
entre pupilas, expandindo luas,
tensionando a pele, na cegueira dos mamilos,
ela se transforma, revoluta,
desentranhada, não me decifra,
não te devoro, até a lenta paz dos músculos,
que se instila no coração.
biografia:
Claudio Daniel, pseudônimo de Claudio Alexandre de Barros Teixeira, é poeta, tradutor e ensaísta. Nasceu em 1962, em São Paulo [SP], onde se formou em Jornalismo pela Faculdade de Comunicação Social Cásper Líbero. Atualmente, faz mestrado em Literatura Portuguesa na Universidade de São Paulo.
Publicou os livros de poesia Sutra [edição do autor, 1992], Yumê [Ciência do Acidente, 1999], A sombra do leopardo [Azougue Editorial, 2001, vencedor do prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira, oferecido pela revista CULT] e Figuras Metálicas [Perspectiva, 2005], e o de contos Romanceiro de Dona Virgo [Lamparina, 2004].
Traduziu poemas do cubano José Kozer, dos uruguaios Eduardo Milán e Victor Sosa, do argentino Reynaldo Jiménez, do dominicano León Felix Batista e outros autores, incluídos na antologia Jardim de Camaleões, A Poesia Neobarroca na América Latina [Iluminuras, 2004].
Publicou também a antologia Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil [Landy, 2002], em co-autoria com Frederico Barbosa, e Ovi-Sungo, Treze Poetas de Angola [2007], entre outros livros.
Em 2007, foi selecionado para o Programa Rumos Literatura, promovido pelo Itaú Cultural, e recebeu a bolsa de criação literária oferecida pela Funarte.
Organizou os eventos literários internacionais Galáxia Barroca e Kantoluanda, em 2006, e foi um dos curadores do Tordesilhas, Festival Ibero-Americano de Poesia Contemporânea, em 2007.
É editor da revista eletrônica de poesia e debates Zunái [www.revistazunai.com.br], conselheiro editorial das revistas Coyote e Et Cetera e mantém o blog Cantar a Pele de Lontra
http://cantarapeledelontra.zip.netclaudio.dan@gmail.com