CONCERTO PARA PAZ E ORQUESTRA DE ESPERANÇAS Me apraz a paz que toca o mundocom intenção e técnica de um instrumento vivo,não a paz do corpo inerte de um defunto,tradição dissimulante de modas de outro instante,festas aparentes na alegria escorredia dos beijos e bebidassó para mudar a ansiedade momentânea.Mas, a paz como ato definitivoentre humanos que se prezamamando as diferenças de ...
CONCERTO PARA PAZ E ORQUESTRA DE ESPERANÇAS Me apraz a paz que toca o mundo
com intenção e técnica de um instrumento vivo,
não a paz do corpo inerte de um defunto,
tradição dissimulante de modas de outro instante,
festas aparentes na alegria escorredia
dos beijos e bebidas
só para mudar a ansiedade momentânea.
Mas, a paz como ato definitivo
entre humanos que se prezam
amando as diferenças de suas tribos.
A paz que traz prazer
para mim, para você,
para todos os nascidos.
A paz que faz pensar e agir,
sempre em busca, sem comando de patrão ou governante,
sem mandar e deixar de progredir,
trabalhando porque precisa,
para si, para tudo que existe em seu entorno,
paz que seja mais que um adorno,
convivendo, co-habitando, coexistindo
no universo de plantação e colheita,
necessidades existenciais
sem compulsão do consumo.
A paz sem fronteiras
com tradições culturais contrárias e complementares
de cada povo, cada parte.
A paz de mãos dadas da educação democrática,
transformando os valores de um mundo poluído
na lufada de ar puro doada aos pulmões
de funções iguais em nossas caixas torácicas,
desfazendo as diferenças das injustiças sociais.
A paz verdadeira.
I -
CORO GREGOGerson Valle Quando partiu
as vozes ainda tentaram atrapalhar seus sentimentos,
indefinidas, distantes,
mas fortes no todo da dúvida dos homens:
- Não parta que tudo que importa
já está decidido,
a porta da vida não tem outro lado,
o sentido de tudo permanece guardado.
Ainda por cima a madrugada indistinta
tolhia-lhe as árvores
e pássaros incógnitos piavam tristes.
Ao longe as badaladas chegavam
esmaecidas, perdidas de significado.
Já não se podia dizer que os sinos dobravam edificantes, claros.
Tornaram-se toscos ecos da madrugada
caídos perdidos no espaço do além.
- Não parta que o parto da vida
é aqui que se dá.
Para lá não há nada.
Somente a escuridão do dia ainda não nascido.
Somente o perigo de alguns bichos famintos.
Somente o precipício doido das encostas sem dono.
Era preciso fingir não ouvir o tom sensato
dos vizinhos solícitos ou invejosos,
dos párias acostumados aos usos repetidos,
dos pobres carentes de opiniões,
dos ricos acastelados nas próprias provisões.
Era preciso romper a grande ternura protetora
dos hábitos e paixões já conquistadas,
e se voltar para o desconhecido promissor
de novas vantagens incalculáveis
a romper com o sol que tudo invade
lá fora da casa, lá fora do cerco,
lá fora dos porões dos mantimentos previsíveis.
- Não parta que o mundo
encontrado e guardado nos vícios e outros riscos
está com raiva e agride
qualquer infidelidade!
Mas, aí era tarde.
As vozes do coro já estavam distantes,
do outro lado dos passos...
II -
ACALANTO PARA O MENINO DE RUAGerson ValleDorme, menino, na rua,
por entre surras,
tomando chuvas,
dorme na rua que é tua,
do teu temor,
da tua fome,
mas que não sabes o nome,
como não sabes também
dos rumos melhores que vêm
do mundo educado,
poupado,
separado de teu recanto
de dor, desabrigo, espanto.
Dorme que o bicho papão
não amedronta
a cabeça tonta
do cheiro de cola e da falta de pão.
Dorme. Dormindo não vês
que te querem prender
por dormires embaixo da lua nua
coberto no jornal
que o guarda acha imoral,
sobre o chão que te resta
de tudo que não presta,
sem ter outro lugar
para dormir e sonhar,
roubar e fugir,
sem ter para onde ir...
Dorme enquanto o guarda não bate
em teu pé machucado
na desgraça a todo lado,
correndo sobre os cacos,
piso incerto dos buracos,
como o cão alvoroçado que late,
sob os tapas que o mundo te bate,
bicho das cidades sem rosto,
dorme no travesseiro do desgosto,
e dormindo construas
o sonho de não estar mais na rua...
Dorme, pedaço de bicho,
dorme, dorme, menino jogado no lixo...
III -
A INVASÃOGerson ValleDe um planeta taciturno
com técnicas e critérios
vêem-nos e invejam o verde
e as águas ainda em torno...
O ar de lá vai acabar,
junto às plantas e os sustentos;
nas janelas ninguém sente
paisagens dos nossos ventos...
Já pensaram invadir-nos,
levando nosso oxigênio
com a aura que nós mantemos
num resto de provimentos...
Observaram-nos melhor,
e alguns sábios ponderaram:
'aquilo que nós queremos
será nosso com o tempo'.
Tinham visto alguns milênios
se passarem nesta Terra,
e de como nós tratamos
as riquezas que invejavam.
E não sujaram as mãos
naquilo que não tem mérito:
o serviço de extermínio,
de que a espécie se encarrega...
biografia:
Gerson ValleFormado pela Faculdade de Direito Cândido Mendes, com pós-graduação na Université de Nice, França [Diplome de l'Institut Européen des Hautes Études Internationales, e Diplome d'Études Approfondies en Droit de la Paix et du Développement]. Professor de Direito Internacional Público e Cultura Brasileira em várias faculdades do Rio de Janeiro. Procurador da Fundação Nacional de Arte-FUNARTE, do Ministério da Cultura. Publicou, além de livros jusrídicos, em POESIA: 'Confetes de muitos carnavais' [1982], 'Passagem dos anos' [Ed. Pirata, 1984], 'Aparições' [Poiésis,2001], 'Vozes trazidas pelos ventos' [Poiésis, 2005]; FICÇÃO: 'Os souvenirs da prostituta - A novela de Ipanema' [Catedral das Letras, Petrópolis - RJ, 2006], 'Pela internet' [Entrelivros,Brasília, 2006], 'Contos de Natal' [Thesaurus Editora, Brasília, 2006], 'Vozes novas para velhos ventos' [Thesaurus Editora, Brasília, 2007]. Tradução de 'Lendas' de Gustavo Adolpho Bécquer [Poiésis, 1997]. SOBRE MÚSICA E POLÍTICA: 'Jorge Antunes - uma trajetória de arte e política' [Editora Sistrum, Brasília, 2003]. Mais de 300 publicações em diversos periódicos [no Brasil, na França, na Itália e na Áustria], com crônicas, artigos, contos e poesia, integrando o Conselho Editorial do jornal 'Poiésis - Literatura, Pensamento & Arte', desde 1998. PRÊMIOS: 1º lugar do 'Concurso de Contos da Associação Nacional de Escritores - ANE' de 2006, para livro de contos; 1º lugar para poesia em português da Accademia Internazionale Il Convivio', Itália, 2004: 2º lugar da mesma Accademia em 2003, etc. ENCENAÇÕES TEATRAIS - A ópera 'Olga', de libreto seu, foi encenada em 5 récitas, em 2006, no Theatro Municipal de São Paulo, com grande elenco de cantores, coro, grande orquestra, em 3 atos, com direção cênica de William Pereira; Sua peça infantil 'Dança das árvores' foi encenada no Museu Imperial, Petrópolis - RJ, por um grupo de adolescente, em 2001. Tem poemas musicados por: Maestro Jorge Antunes, Maestro Ernani Aguiar, Maestro Guilherme Bauer, Maestro Ricardo Tacuchian, Maestro Odemar Brígido, etc, sendo que com alguns deles são vários os seus poemas musicados, até mesmo óperas, publicados, gravados em cd e apresentados diversas vezes ao público. Tendo sua infância na cidade do Rio de Janeiro, mudou-se para Petrópolis, cidade no meio da Mata Atlântica, onde participa de ongs ambientalistas, tendo tido, mesmo um programa de televisão de caráter ambiental e cultura, nesta cidade, de que recebeu a Cidadania Honorária da Câmara de Vereadores. É membro da Academia Brasileira de Poesia - Casa Raul de Leoni, cadeira nº 31.
valle@compuland.com.br