A pipaDo alto da laje mais alta do morroO neguinho magreloDe pés descalçosE short frouxoEmpina a pipaComo se empinasseA própria vida.Dança com ela um funkEntre fios de alta tensão.Tensão...Só a da dona 'Creuza''Desce dessa laje moleque!''Vem comê!''Cualé?!'O baile ainda não acabou.Sorriso maior que o rosto,Perninhas finas e cinzentas de poeira.O short caindoMostra o cofrinhoPuxa o danado ...
A pipaDo alto da laje mais alta do morro
O neguinho magrelo
De pés descalços
E short frouxo
Empina a pipa
Como se empinasse
A própria vida.
Dança com ela um funk
Entre fios de alta tensão.
Tensão...
Só a da dona 'Creuza'
'Desce dessa laje moleque!'
'Vem comê!'
'Cualé?!'
O baile ainda não acabou.
Sorriso maior que o rosto,
Perninhas finas e cinzentas de poeira.
O short caindo
Mostra o cofrinho
Puxa o danado
Não pára o 'dibico'
'Ah... 'muleque'!!!'
A pipa leva aos céus os seus sonhos
O vento os sopra aos ouvidos de Deus
Se não tiver muito ocupado
Talvez ouça
O que o neguinho lançou ao azul.
Em cada fitilho da 'rabiola' colorida
Pontas de esperança de não sabe o quê.
Quem sabe o neguinho só ria por rir...
Quem sabe seja só do poeta o devaneio...
E que na pipa não haja sonhos
Por isso cortada
Agora 'avoada'
Estraçalhou-se nas mãos de outros
Chora neguinho.
Asas de ÍcaroMeus sonhos ganharam asas
As de Ícaro lhes serviram bem
E voaram alto;
E lá do alto
De uma altitude segura
Viajavam e me sorriam
Desejos e segredos sob a cera
Que já começava a lamentar
Os segredos eram frágeis
Mas os desejos ambiciosos
De nada se importavam.
Comandavam determinados
As asas tristonhas em direção ao Sol.
Bem alto e cada vez mais longe...
Eu já não os via mais.
Mas quanto mais alto subiam
Mais chorosas ficavam as asas
Que desmanchavam sonhos
Que matavam desejos
E quebravam os segredos
Próximos a luz.
Seu lamento foi à única coisa que vi então.
Em gotas como bolinhas cintilantes
Que mais pareciam pingentes de madre pérola.
Eu as juntei do chão.
Vou derretê-las.
Reconstruí-las...
E terei asas outra vez.
O quartinhoEle ainda era o seu amor.
O único que tivera e que em segredo
Ainda desejava.
Traiçoeiro coração
Tem caminhos tortuosos.
Uma curva errada e olha aí a distancia...
Mas só percebemos quando tudo já vai tão longe...
Às vezes não dá pra voltar.
Sem saída, o jeito então é se aventurar;
Por esses novos caminhos
Onde o vento leva as migalhas de pão
Pra nos machucar.
Ferida, quis esquecê-lo.
[ele não a queria mais]
Tentou viver um dia de cada vez.
Não conseguiu.
Fez pra ele, então um quartinho.
Bem arrumadinho lá nos fundos;
Em seu coração.
E tocou a vida.
Mas quando sentia saudades...
Colocava o disco pra tocar,
Ouvia aquela música
E como encanto a porta se abria.
Ali, visitava suas lembranças.
E logo que a música acabava
Enxugava rápido a breve lágrima,
Respirava fundo
E recomeçava.
Trilhando a nova estrada que fez.
E assim passaram-se vinte anos.
O tempo não espera.
Quanto mais distante seguia em seu caminho
Mas constantes eram as visitas
Àquele quartinho.
Enfim um dia
Tomada de uma infinita saudade
E de um arrependimento das coisas
Que deveriam ter sido e não foram...
Tomada de um medo aterrador
E de uma solidão infame...
Colocou aquela música
Repetindo-a várias vezes.
Sentou-se num cantinho do quarto
Não enxugou as lágrimas.
Só chorou.
E chorou muito.
Até que cansou.
E dormiu.
Não mais acordou.
biografia:
Adriana Kairos nasceu em 1975. Carioca. Cursa Letras na UFRJ. É professora da rede pública do Rio de Janeiro. Quando criança teve a oportunidade de ter aulas com 'OS PROFESSORES' [homens e mulheres maravilhosos] e acreditou que fossem heróis e isso mudou o rumo de sua vida. Certa vez, já formada, quis salvar o mundo. Caiu da cama... Hoje acredita, tão somente, que pode ser 'A PROFESSORA'. Seu trabalho também pode ser encontrado no site do Recanto das Letras.
adrianakairos@ufrj.br