BEATRIZVocê chegou às 10 horas e 10 minutos da noite de 10 de junho, número cabalístico. 10 é o número de Deus. Geninho, seu pai, assistiu ao parto. Ao sair da barriga de Carla imediatamente a enfermeira colocou tubos no seu nariz, ato contínuo, sua mãozinha esquerda puxou os fios que lhe incomodavam. Foi um primeiro gesto de rebeldia, de grandeza, de independência. Sua avó Vânia, coman ...
BEATRIZ
Você chegou às 10 horas e 10 minutos da noite de 10 de junho, número cabalístico. 10 é o número de Deus. Geninho, seu pai, assistiu ao parto. Ao sair da barriga de Carla imediatamente a enfermeira colocou tubos no seu nariz, ato contínuo, sua mãozinha esquerda puxou os fios que lhe incomodavam. Foi um primeiro gesto de rebeldia, de grandeza, de independência. Sua avó Vânia, comandando a família, aguardava a chegada no berçário. Emocionei-me ao lhe ver enrolada, apenas o rosto descoberto, seus olhos alegres me encararam, senti uma silenciosa troca de bem querer no nosso olhar. Maior emoção. Afinal, Beatriz, do latim 'a bem aventurada', significa: 'Aquela que faz os outros felizes. Pessoa disposta, capaz de alegrar a todos e a si própria. Dá nova luz aos ambientes que freqüenta. Espírito crítico, capaz de distinguir com clareza o certo e o errado'. Está vendo? Minha querida neta veio ao mundo cheia de qualidade e beleza. Ontem foi sua estréia, brilhante e radiosa, na vida. Aqui de minha varanda contemplo seu primeiro dia de vida no rigoroso inverno nordestino, céu azul, nuvens brancas divide, no infinito horizonte, o verde esmeralda do mar da praia da Jatiúca, seu privilegiado primeiro habitat. Querida neta, amada Beatriz, nunca fui homem de dar conselhos, como você é neófita na arte de viver, seu avô pode explicar alguma coisa de serventia. Existem alguns seres humanos superpoderosos, quase divinos, são os poetas, eles sabem dizer a vida como ninguém, sua linguagem é a do coração, por isso eles sempre têm razão. Um poetinha de nome Vinicius de Moraes nos anos 60 cantava: 'A vida é arte do encontro, embora haja tantos desencontros pela vida'. Tempos depois Gonzaguinha deu ao mundo essa preciosidade: 'Viver!... E não ter a vergonha de ser feliz... Cantar e cantar e cantar. A beleza de ser um eterno aprendiz... Ah meu Deus! Eu sei, eu sei que a vida devia ser bem melhor e será... Mas isso não impede que eu repita... É bonita, é bonita... E é bonita... É isso menina Beatriz, a vida é cheia de altos e baixos, mas vale a pena. Quando algum dia você se deparar com alguma desgraça, faça como seu avô, pense na beleza e nas coisas boas da vida, anula ou pelo menos empata o sentimento de perda. Existe uma seqüência de fases, ciclos em nossa existência: infância, adolescência, juventude, meia-idade, maturidade, velhice. Temos que aceitá-las como são e não como queríamos que fossem, o passar do tempo é inexorável. Veja você, querida Beatriz, meu corpo está perto da velhice, 68 anos, mas a cabeça, meu coração, pensa, sente, como jovem, sou ainda capaz de me indignar, de amar, de sonhar, de cantar. Às vezes o corpo não ajuda a curtir a vida e a felicidade, nossos maiores patrimônios, mas devemos no mínimo se esforçar. A vida é nosso maior bem. É nossa obrigação lutar constantemente em busca da felicidade. Outro poeta, Lulu Santos, comparou a vida com as ondas do mar: 'Nada do que foi será... De novo do jeito que já foi um dia... Tudo passa... Tudo sempre passará... A vida vem em ondas... Como um mar... Num indo e vindo infinito... Tudo muda o tempo todo... No mundo... Não adianta fugir... Nem mentir... Pra si mesmo agora... Há tanta vida lá fora... Aqui dentro sempre... Como uma onda no mar.' O segredo é escolher as ondas que servem para surfar sua alma, seu coração, sua vida. Mas, nunca esqueça as pessoas amadas, fique junto!!! Ah, minha netinha Beatriz, seu nome é tão lindo que o maior poeta de minha geração, Chico Buarque, escreveu esses versos: 'Sim, me leva pra sempre, Beatriz... Me ensina a não andar com os pés no chão... Para sempre é sempre por um triz... Aí, diz quantos desastres tem na minha mão... Diz se é perigoso a gente ser feliz'. Que bonito!!!!! Ontem conversando com um velho amigo de 94 anos, Oséas Cardoso, cheio de alegria ele me confessava: o que mais gosta na vida, é a própria vida. Venha Beatriz, venha viver a vida, sem a vergonha de ser feliz seja uma eterna aprendiz. Venha para essa maravilhosa experiência, única, vibrante, essa aventura mágica e bela que é viver. E guarde com carinho essa crônica que seu jovem, velho avô escreveu. Se um dia você estiver triste, triste que não tiver jeito, console-se, leia esses escritos. Eles foram inspirados na alegria, na felicidade de seu primeiro sorriso.
POR QUEM OS SINOS DOBRAM
Passei o último natal com meus netos na bela cidade de Gramado. Tenho bons amigos gaúchos, aliás, irmãos, pois companheiros de Escola Militar se tornam irmãos. Tenho muitos irmãos. E foi com carinho que o coronel Canto e sua Iramaia ofereceram um belo churrasco em sua aconchegante casa no condomínio Lage da Pedra. Para maior surpresa e satisfação, meu irmãozinho Alcebíades Schenkel, mesmo adoentado, enfrentou 300 km de Cachoeira do Sul até Gramado para me dar um abraço, trouxe ainda um borrego novinho para o churrasco, meus netos devoraram. Eu fiquei emocionado com o gesto do Bidão, disse-lhe que eu iria à Cachoeira, ele me respondeu que estava doido para me ver, dar um abraço. Foram dois dias de carne e vinho. Marcamos encontro para maio no Uruguai. Na despedida um forte abraço. Ao chegar ao hotel, chorei, falei para minha mulher que aquela tinha sido a última vez que estive com Bidão. Aquele tinha sido o último abraço. Semana passada confirmou-se minha 'premonição', recebi telefonema do General Gualter, Bidão morreu. Parei meu computador, cruzei os braços por cima, chorei feito um menino, até que minha filha Vanda percebeu, veio me consolar. Contei para ela o significado daquela amizade. Foi no início de 1959 entramos alegres, vibrando na Academia Militar das Agulhas Negras. Alguns amigos com vivência de três anos da Escola Preparatória de Fortaleza e agora novos amigos vindos de todos os cantos do Brasil. Dentre eles, um logo se destacou na maneira espontânea de ser, na alegria, na sinceridade. Dei-me bem com a gauchada e o Cadete Schenkel, já despontava um líder entre nós. Nossa amizade iniciou naquele ano com andanças na cidade de Resende, cavalgadas em fim-de-semana pelo Vale do Paraíba, e como ninguém é de ferro, em vez em quando uma passada pelas boates das redondezas. Aprendi muita coisa com Bidão, ele adorava corrida de cavalo, ensinou-me tudo. No final do ano eu já apostava bem no Grande Prêmio Brasil em Narvik e Farwell, os dois grandes cavalos daquela época. No segundo ano Bidão foi para Artilharia, eu para Infantaria, mas a amizade continuou. Certa vez houve uma briga, dessas que só se vê em cinema, na Boate Casablanca, cadetes x camioneiros. Quando apareceu a patrulha da AMAN, nós fugimos. Ao pular uma janela levei uma cadeirada na cabeça, desmaiei. Coelhão e Bidão voltaram para me acudir, levaram-me nas costas. Sangrava muito, pedi que me deixassem, preferia ser preso, apresentei-me à patrulha. Peguei 15 pontos na cabeça e 15 dias de xadrez. Bidão toda noite me levava pizza na prisão. Saímos aspirantes cada qual para um lado, mas nunca deixamos de ter alguma notícia. Nesses últimos 15 anos, nossa turma da AMAN, tem realizado reuniões anuais. Temos nos visto com mais assiduidade. Foi nesses encontros, que Vânia, conheceu melhor meus amigos de Escola Militar, ela sempre comenta a beleza dessa amizade, do bem querer que existe entre nós, com maior respeito às opiniões de cada um. Schenkel ao se reformar do Exército foi ser fazendeiro em Cachoeira do Sul. Visitei a Fazenda Farroupilha, meu amigo era bom administrador e foi um excelente oficial do Exército. Antigamente quando morria uma pessoa os sinos da Igreja tocavam, dobravam pelo ser humano que havia morrido. O poeta John Donne escreveu um poema: 'Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo, assim como se fosse uma parte de seus amigos; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti'. As cidades cresceram, a tradição dos sinos na hora da morte acabou. Contudo, desde a tarde de sete de fevereiro eu ouço os sinos tocarem, os sinos dobram nos meus tímpanos, no coração, lá dentro da alma. Foi-se um amigo, está se indo uma geração. Geração de homens formados nos últimos anos românticos da humanidade. E não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram não apenas pelo Bidão, dobram por Neuza, por Márcia e André. Eles dobram pelo Uchoa, por Anaíde, pelo Muxfeldt e Cristina. Eles dobram por todos os amigos, pela nossa geração, pela turma da Academia Militar das Agulhas Negras de 1961, pelo Camurça, Rubião, pelos colegas da EPPA e EPF, Bidão era cidadão honorário arataca. Os sinos dobram pelo Exército Brasileiro, dobram por mim, por ti, por todos nós.
POR QUEM OS SINOS DOBRAM
Passei o último natal com meus netos na bela cidade de Gramado. Tenho bons amigos gaúchos, aliás, irmãos, pois companheiros de Escola Militar se tornam irmãos. Tenho muitos irmãos. E foi com carinho que o coronel Canto e sua Iramaia ofereceram um belo churrasco em sua aconchegante casa no condomínio Lage da Pedra. Para maior surpresa e satisfação, meu irmãozinho Alcebíades Schenkel, mesmo adoentado, enfrentou 300 km de Cachoeira do Sul até Gramado para me dar um abraço, trouxe ainda um borrego novinho para o churrasco, meus netos devoraram. Eu fiquei emocionado com o gesto do Bidão, disse-lhe que eu iria à Cachoeira, ele me respondeu que estava doido para me ver, dar um abraço. Foram dois dias de carne e vinho. Marcamos encontro para maio no Uruguai. Na despedida um forte abraço. Ao chegar ao hotel, chorei, falei para minha mulher que aquela tinha sido a última vez que estive com Bidão. Aquele tinha sido o último abraço. Semana passada confirmou-se minha 'premonição', recebi telefonema do General Gualter, Bidão morreu. Parei meu computador, cruzei os braços por cima, chorei feito um menino, até que minha filha Vanda percebeu, veio me consolar. Contei para ela o significado daquela amizade. Foi no início de 1959 entramos alegres, vibrando na Academia Militar das Agulhas Negras. Alguns amigos com vivência de três anos da Escola Preparatória de Fortaleza e agora novos amigos vindos de todos os cantos do Brasil. Dentre eles, um logo se destacou na maneira espontânea de ser, na alegria, na sinceridade. Dei-me bem com a gauchada e o Cadete Schenkel, já despontava um líder entre nós. Nossa amizade iniciou naquele ano com andanças na cidade de Resende, cavalgadas em fim-de-semana pelo Vale do Paraíba, e como ninguém é de ferro, em vez em quando uma passada pelas boates das redondezas. Aprendi muita coisa com Bidão, ele adorava corrida de cavalo, ensinou-me tudo. No final do ano eu já apostava bem no Grande Prêmio Brasil em Narvik e Farwell, os dois grandes cavalos daquela época. No segundo ano Bidão foi para Artilharia, eu para Infantaria, mas a amizade continuou. Certa vez houve uma briga, dessas que só se vê em cinema, na Boate Casablanca, cadetes x camioneiros. Quando apareceu a patrulha da AMAN, nós fugimos. Ao pular uma janela levei uma cadeirada na cabeça, desmaiei. Coelhão e Bidão voltaram para me acudir, levaram-me nas costas. Sangrava muito, pedi que me deixassem, preferia ser preso, apresentei-me à patrulha. Peguei 15 pontos na cabeça e 15 dias de xadrez. Bidão toda noite me levava pizza na prisão. Saímos aspirantes cada qual para um lado, mas nunca deixamos de ter alguma notícia. Nesses últimos 15 anos, nossa turma da AMAN, tem realizado reuniões anuais. Temos nos visto com mais assiduidade. Foi nesses encontros, que Vânia, conheceu melhor meus amigos de Escola Militar, ela sempre comenta a beleza dessa amizade, do bem querer que existe entre nós, com maior respeito às opiniões de cada um. Schenkel ao se reformar do Exército foi ser fazendeiro em Cachoeira do Sul. Visitei a Fazenda Farroupilha, meu amigo era bom administrador e foi um excelente oficial do Exército. Antigamente quando morria uma pessoa os sinos da Igreja tocavam, dobravam pelo ser humano que havia morrido. O poeta John Donne escreveu um poema: 'Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo, assim como se fosse uma parte de seus amigos; a morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade; e por isso, nunca procure saber por quem os sinos dobram, eles dobram por ti'. As cidades cresceram, a tradição dos sinos na hora da morte acabou. Contudo, desde a tarde de sete de fevereiro eu ouço os sinos tocarem, os sinos dobram nos meus tímpanos, no coração, lá dentro da alma. Foi-se um amigo, está se indo uma geração. Geração de homens formados nos últimos anos românticos da humanidade. E não pergunte por quem os sinos dobram, eles dobram não apenas pelo Bidão, dobram por Neuza, por Márcia e André. Eles dobram pelo Uchoa, por Anaíde, pelo Muxfeldt e Cristina. Eles dobram por todos os amigos, pela nossa geração, pela turma da Academia Militar das Agulhas Negras de 1961, pelo Camurça, Rubião, pelos colegas da EPPA e EPF, Bidão era cidadão honorário arataca. Os sinos dobram pelo Exército Brasileiro, dobram por mim, por ti, por todos nós.
biografia: Carlito Lima Ex-capitão do Exército, ex-prefeito de Barra de S. Miguel [Al], engenheiro, ambientalista, descobriu seu talento de escritor só aos 61 anos quando em 2001, por insistência de amigos, foi editado seu primeiro livro de memórias, testemunho sóbrio, meticuloso, forte, sincero, humano e bem humorado: 'CONFISSÕES DE UM CAPITÃO'. Destemido depoimento de um oficial do Exército com enfoque especial sobre 1964. Carlito Lima servia na 2ª Cia de Guardas no Recife, teve convivência com presos políticos como Arraes, Julião, Paulo Freire, Pelópidas Silveira, Gregório Bezerra entre outros. A revista paulista CULT, colocou CONFISSÕES DE UM CAPITÃO, entre os 14 melhores livros na bibliografia sobre o golpe militar de 1964. O livro foi sucesso em todo o Brasil após entrevista de Carlito Lima no programa do Jô Soares. Descoberto como excelente contador de história, escreve há cinco anos uma coluna semanal, HISTÓRIAS DO VELHO CAPITA, em vários jornais com histórias bem humoradas da vida real. Em 2005 começou a editar a revista eletrônica semanal ESPIA na Internet com opiniões, dicas, notícias e muito bom humor, enviada por E-Mail. Fazendo sucesso nas páginas virtuais.
O monumento vivo de Maceió e suas histórias [03/11/2006]