Cantiga sobre o que não arrefecequando tua imagem chega à noite ou de madrugadinhafaço da cama uma mesa para um café a dois e escaldoteus pés cansados de viajante com minha terna saudadee te acolho, viajante, em meu colo, para te ninar de novopois eras tão menino quando afagavas os meus cabelosruivos sem culpas óbvias e esses medos convencionaisque ...
Cantiga sobre o que não arrefece
quando tua imagem chega à noite ou de madrugadinha faço da cama uma mesa para um café a dois e escaldo teus pés cansados de viajante com minha terna saudade e te acolho, viajante, em meu colo, para te ninar de novo
pois eras tão menino quando afagavas os meus cabelos ruivos sem culpas óbvias e esses medos convencionais que não mereces perder-me nem eu despedir-me de ti por isso te preparo para voltares à casa que não habitas
mas sossega! suavemente o meu cantar o teu coração de amigo acalanta e não temerás nem a dor nem a derrota somos apenas um porque cantamos o amor que não morre e não arrefece. carecemos de senso, não de explicação.
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LA VIE EN ROSE
A vida que sobra pelos cantos. Com raízes. Dorinfinda. Sem melodias. Sem rimas, sem motes. Cem mortes. Alguém que comigo não conjugou a sorte.
A dor que não cabe em nenhum poema. Amarga e forte. Não se esvai com mil novenas nem chá de apagador. Crua lima de vil navalha que me amortece.
Tempo desmedido no sentimento desmentido que faz sentido. Rumo e Norte. Justa fusão de um viver com a Morte. Vivência de amor que tece sem amortecedor.
Você: tatuado entre tantas minhas outras eternidades. Menor distância entre este absurdo real diário e a Verdade absolutamente nua do meu imaginário.
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INFINITUDE
A primeira vez que me deste teu sorriso houve uma enorme lua em quarto-crescente iluminando a sombra da minha existência sob o jardim de meus olhos já cansados e deles marejaram correntes de água tão doce que viraram açudes cristalinos a refletir constelações de sóis migrantes [ah, as nossas loucas e cadentes luzes!] do infinito meu para o céu da tua boca!
biografia: Lilly Falcão nasceu a bordo de uma aeronave decadente que sobrevoava os céus de Pernambuco nos idos anos sessenta e muitos. Desde pequena intriga-se com verbos, pronomes, adjetivos e sujeitos sem predicados. Fez Direito e agora trabalha para fazer as letras se acertarem no seu juízo. E de vez em quando é feliz.