CRÍTICA DA RAZÃO FLORIDAO modo como a flor se inclina para onde deve é um mistério que cientista algum descreve. A flor não precisa apresentar credenciais, seu currículo é anterior a todos os nomes. Ela sabe mais de marketing de rede do que os papas da propaganda.A flor é geometricamente perfeita, segundo a precisão infinita do número irracional. A rosa resolve, de um modo matematicament ...
CRÍTICA DA RAZÃO FLORIDAO modo como a flor se inclina para onde deve
é um mistério que cientista algum descreve.
A flor não precisa apresentar credenciais,
seu currículo é anterior a todos os nomes.
Ela sabe mais de marketing de rede
do que os papas da propaganda.
A flor é geometricamente perfeita,
segundo a precisão infinita do número irracional.
A rosa resolve, de um modo
matematicamente perfeito,
a ordem das pétalas, de modo a ser
elegante e bela.
As folhas do coqueiro
não entram em guerras fratricidas
para receber primeiro os beijos do sol.
Em sua sabedoria,
a natureza flui à luz da Razão Áurea:
não precisa conhecer
a crítica da razão pura,
nem o abacate explica sua doçura
à luz das obras de René Descartes.
A SOLIDÃO DE
EMILY DICKSONA mais abissal solidão
não foi a de Noé,
em sua arca,
quando só havia
a treva
em toda a terra.
Mais espantosa solidão
foi a de Emily Dickison
na fazendola de seus pais,
nos confins da Inglaterra
- de onde jamais saiu,
a não ser para ver morrer
parentes e vizinhos.
No inverno de sua desesperança
sentia-se, como Noé,
sozinha no mundo.
Sequer moveu-a a fé
no reino das palavras: não
escreveu para que a amassem
nem escrevia porque
amasse alguém.
Escrevendo para não morrer,
só viveu para escrever.
Jamais amou, nem foi amada
nem viu arder a chama da alma
pela beleza transfigurada.
Seu único deleite era ver
pessoas acabando-se
em seu leito de morrer,
como se fora o ver
a morte
o seu único prazer
- o diálogo possível
com a vida,
neste mundo de morrer.
DE DENTRO DAS COISASAgonizei no gemido
de cada menino moribundo.
Meu coração tremeu medroso
em cada um que foi
apunhalado no escuro.
Fui caminhante habitual
da solidão das prostitutas.
Fui cada solitário
todos os párias
e os algozes do mundo.
Habito a alegria selvagem
do que salvou o filho
do que escapou ao assalto
da faca afiada
e fugiu, desesperado
do último hospital do medo.
Meu coração de poeta
abre as portas para tudo.
biografia:
BRASIGÓIS FELÍCIO Brasigóis Felício Carneiro nasceu em Aloândia [Go] em 1950. Poeta, contista, contista, romancista, crítico literário e crítico de arte, tem 30 livros publicados, entre obras de poesia, conto, romance, crônica e crítica literária. Em sua bibliografia destacam-se Hotel do tempo, poesia, [Editora Civilização Brasileira, l982]; Monólogos da Angústia, contos, [Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Diários de André, romance censurado e apreendido em 1976, por ordem do ex-ministro da Justiça, Armando Falcão; Viver é devagar, crônicas, l998, Literatura Contemporãnea em Goiás, crítica literária, O tempo dos homens sem rosto, poesia, Editora Estação Liberdade, Memória da solidão, contos, Coleção Karajá, da Agência Goiana de Cultura, Meus gemidos de Jó, Editora Kelps, Obsceno esplendor da Noite, Editora Kelps e A dança da vida.
É detentor de dezenas de premiações literárias [totalizando quase uma centena] em nível regional, nacional e internacional. Participa de antologias de conto e poesia publicadas em língua espanhola e francesa. Teve duas obras [ Monólogos da Angústia e Viver é devagar adotadas como leitura obrigatória para candidatos ao exame vestibular de instituições universitárias de Goiás]. Seus livros têm sido objeto de apreciações críticas, publicadas em livros, na imprensa regional e nacional, além de serem estudados em seminários e congressos de literatura. Sua obra foi tema de dissertação de mestrado aprovada junto a Universidade Federal de Goiás.
brasigoisfelicio@hotmail.com