EvangelhoO poetaé um ser de areiacapaz de- ironicamente, sensível -violentar a palavraestuprá-lafecundá-laao seu bel-prazer.A palavra,coitada [mas não puta! Esposa!]deflorada,fodida,amada como nunca,é levada a parir, num gemido,a flor-para-o-outro,que será entregue por nóse, no terceiro dia,virápara a salvaçãode todos os homens:- Eis o mistério da fé!Teatro de Sombras [de 'Divindades' ...
EvangelhoO poeta
é um ser de areia
capaz de
- ironicamente, sensível -
violentar a palavra
estuprá-la
fecundá-la
ao seu bel-prazer.
A palavra,
coitada [mas não puta! Esposa!]
deflorada,
fodida,
amada como nunca,
é levada a parir, num gemido,
a flor-para-o-outro,
que será entregue por nós
e, no terceiro dia,
virá
para a salvação
de todos os homens:
- Eis o mistério da fé!
Teatro de Sombras [de 'Divindades']
Tabu.
Silhuetas no vazio.
Abrolhos de luz.
Réstias recolho
De vidas recortadas
Ante a lâmpada
Que arde como um olho.
Silhuetas - ainda - no vazio.
No vazio de não mais ouvir
O tilintar do molho de chaves.
Molho-me de penumbra!
Mas no instante
Em que todo me desfolho,
No fundo de minha caverna
Recriada por um fio de
L u m i n o s i d a d e,
Ouço
Uma petulante porta súbita!
.......................................................................
Era ela,
Por debaixo da porta,
Inconcebível
Invasora
Monstruosa
Destruindo o escuro magnânimo
Humilhando meu fio-de-luz-encanto
Derretendo meu mundo-na-parede
Enchendo tudo e diluindo as silhuetas
Que eu não mais olho!
Tanto branco!
Fecholhos.
...........................................................................
E, como no Tabor,
Tudo se transfigura.
Totem.
Eu? Lírico?Não sou lírico.
Que é lirismo?
Que é lirismo, se minha voz
precisa se dissolver numa microfonia?
.......................................................................................
Esse silêncio é lirismo?
Só serei lírico
quando minha voz
virar um sonho agudo,
fino,
inaudível!
biografia:
Marcos [Antônio Soares] de Andrade Filho nasceu no Recife, em 23 de junho de 1982. Estudou com os irmãos Maristas até 1999. Deixou o velho casarão da avenida Conde da Boa Vista, no Recife, para ingressar no Departamento de Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Iniciou os experimentos poéticos nos últimos anos da década de 1990, o que lhe rendeu a publicação do volume de poesias 'Não-Lugar' [Bagaço, 2005], um dos destaques da Bienal Internacional do Livro de Pernambuco de 2005. Por ocasião da sua estréia na literatura, escreveu o professor e crítico literário Lourival Holanda: 'Marcos faz parte de uma geração de jovens poetas que não resolvem o descaminho destes dias duros pela paralisação; uma geração que não se resigna à não-significância'. Além da escritura, o poeta busca a transfiguração por meio da palavra como professor de Literatura Portuguesa e Brasileira na rede particular de ensino do Recife [Pernambuco], tendo passagem, nessa área, pelas cidades pernambucanas de Jaboatão dos Guararapes e Abreu e Lima e pela cidade paraibana de Campina Grande. É membro da União Brasileira de Escritores - Secção Pernambuco e ocupa a cadeira número de 29 da Academia de Letras, Artes e Ciências de Abreu e Lima [Pernambuco], tendo por patrono o poeta pernambucano Manuel Bandeira. Atualmente, colabora com os sites www.interpoetica.com e www.cronopios.com.br.
marcos.de.andrade@gmail.com