A poesiaA poesia, coisa assim: Gullar.Palavra acostumada a causar sustos...Vinicius. Chico Buarque. Tanto amar.Poetas imortais. Anjos augustos.A poesia: pátria de Bandeira.Asas de Mario quando Mario voa.Estrela que reluz a vida inteira.Pessoa se fingindo de Pessoa.A poesia: mágica Quintana.Cecília de palavra cotidianaCercada de delírios permitidos...A poesia: som que não tem somMas que não s ...
A poesiaA poesia, coisa assim: Gullar.
Palavra acostumada a causar sustos...
Vinicius. Chico Buarque. Tanto amar.
Poetas imortais. Anjos augustos.
A poesia: pátria de Bandeira.
Asas de Mario quando Mario voa.
Estrela que reluz a vida inteira.
Pessoa se fingindo de Pessoa.
A poesia: mágica Quintana.
Cecília de palavra cotidiana
Cercada de delírios permitidos...
A poesia: som que não tem som
Mas que não sobrevive sem Drummond:
'Tudo mais, em verdade, são ruídos'.
O menino[Para Alberto Santos Dumont]_O homem voa?
_Voa...
_Voa nada...
O homem foi feito pra caminhada,
Pisar a terra,
Passear no chão.
Voar é próprio pra passarada,
Voar é coisa pro gavião...
Dizer que o homem voa é coisa errada,
Coisa completamente sem noção.
_O homem voa?
_Voa...
_Que tolice...
Quem foi que disse
Que o homem é de voar?
Se não tem asas, mas pés de andar na terra,
Como é que poderia, ele, alcançar
As nuvens distraídas sobre a serra
E os pássaros que passeiam sobre o mar?
Por não ter duas asas
Mas duas pernas,
Tudo que o homem sabe
E pode é andar.
_ O homem voa?
_Voa..
_Voa não....
Só nas histórias da imaginação,
Só nos delírios da fantasia,
Porque sem asas, com que condição?
Porque sem elas, como poderia?
Voar é coisa de contos de ficção,
Palavra criada pra escrever poesia,
Por isso quem tentou, tentou em vão
Por isso é que ninguém conseguiria...
_ O homem voa?
_Voa...
E o menino não percebia,
Mas enquanto ele respondia, decolava,
Possivelmente porque enquanto respondia
Trazia um coração que volitava
Levando o menino, que por isso já sabia
Desde quando ninguém ainda sonhava....
O coração do menino era o seu guia
E o menino ia para onde o coração levava..
'O homem voa?' E o menino respondia
'Voa' à pergunta que o professor perguntava.
Não era ali o menino o que aprendia
Posto que era o menino o que ensinava.
_O homem voa?
_Voa
Naquela hora
Daquele dia
Já desde ali o homem então voava...
A rimaA rima é o piercing no umbiguinho na palavra,
É o brinco de ouro na orelhinha da Princesa,
É a outra voz dentro da mesma oitava,
Não é o Pato com laranja. É a sobremesa.
É a ponte entre Itaipu e Itaipava,
É o que dá vida ao verso, e ligeireza,
E outra profundidade à poça rasa,
E empresta à podridão delicadeza...
A rima é a gota exata do tempero,
É o Redentor pro Rio de Janeiro,
É Dorival Caymmi pra Bahia...
É como o drible de Garrincha, a rima,
Não é o Mapa do Tesouro. É a Mina...
A rima é a sístole da poesia.
biografia:
Luis TavaresHá várias maneiras de se contar uma história sobre alguém.
Referenciá-la a pessoas, lugares e fatos vividos na linha do tempo é a forma clássica.
Desenhá-la de acordo com a linha da história do seu pensamento é o que tentaremos aqui.
Nas as primeiras horas da manhã do dia 6 de setembro de 1959, chegava ao mundo o menino Luís através de parto normal, 48 anos antes de ter seus poemas aqui registrados em forma de livro.
De família simples, filho de professores e irmão de bons companheiros de brincadeiras, musica e poesia, viveu uma infância sadia e feliz em Campos dos Goytacazes, onde nasceu.
Liceista, conheceu ali a letra, a palavra, o verbo, o verso, o soneto e as rimas que depois dali percebeu que também lhe era possível tentar.
Em 1973 perdeu, de algum modo, seu irmão Carlinhos. Descobriu forçadamente, porque forçadamente é que se fazem muitas vezes muitas descobertas, que a morte é simples mudança.
O tempo seguiu e o menino simples que aos 13 anos descobriu a morte como pedaço da vida, seguiu, aos 18 anos, para o Rio de Janeiro em busca da graduação em medicina. Formou-se em 1984 pela UFRJ, retornando à sua cidade natal após concluir seu objetivo.
Já não contava mais com a presença próxima do pai amado, arrebatado pela mesma irmã morte que lhe levara o irmão na sua infância e voltara para reafirmar que a morte, de toda forma, é simples mudança.
Aprendeu que viver tem o significado mítico de superar e que para seguir em frente seria necessário parar de caminhar em círculos.
Conheceu a poesia na infância através dos versos de Castro Alves e da boa lembrança que guarda até hoje de escutar seu pai volitar os poemas de Parnaso de Além Túmulo com que a psicografia de Chico Xavier presenteara a humanidade.
E não foram poucos os versos e as rimas que sua infância inteira lhe mostrou.
Mas foi na Escola Jesus Cristo, através das aulas do Professor Rubens Fernandes Carneiro que conheceu as primeiras letras acerca da vida de Jesus. Foi desde ali que nunca mais esqueceu a Galiléia, nunca mais esqueceu Cafarnaum...
O menino crescera.
O homem grande, foi se habituando a prescrever após diagnosticar e a diagnosticar após inspecionar, palpar, percutir e auscultar...
Acostumou-se a escrever prontuários e receitas, ganhando assim intimidade com as palavras.
O médico é um escritor
Escreve tão diariamente
Que chega a sentir-se autor
Da história de seu cliente
Disse certa vez, parafraseando Pessoa...
Um belo dia decidiu arriscar rimas usando as mesmas letras rígidas com que registrava o que se convencionou chamar de ordens médicas.
Abusou das rimas, disfarçou as métricas, desafiou os ritmos, transgrediu as frases, rearrumou idéias e recriou palavras entre sínteses e antíteses em seus versos.
Aprendeu a escrever sonetos. Quase sempre sonetos tortos, igualmente inundados de rimas, métricas, ritmos, frases, idéias, sínteses e antíteses.
Certa manhã, na praia de Atafona, aprendeu com a sua irmã Margarida o que era um blog.
Nascia o www.quasepoesia.blogspot.com, seu diário em versos nem tão diário mas sempre em versos.
Publicou em 2005 seu primeiro livro: A palavra dada.
2005 veria nascer também o volume Um poema para o Natal [esgotado].
2006 foi a vez de verem chegar os livretos Mãe e O Nascimento de Jesus [esgotado].
Em 2007 publicou o também livreto Somos Mamíferos onde, entre poesia e prosa, dá sua versão sobre porque a amamentação chegou aos nossos dias desacertada assim. Somos Mamíferos é um texto de reafirmação da essência humana e mamífera do homem.
2007 é o ano do Aconteceu em Belém.
Após quase meio século de dias e noites de tempestade e brisa, aprendeu a acreditar na poesia como principal aliado.
Os versos são seu principal argumento.
Através deles, protesta, instrui, combate, derruba, comemora e morre, disfarça e vive, renasce e ama.
A vida lhe ensinou que a falta de limites é atributo de Deus e não do homem.
Descobriu que a poesia, somente ela, nunca o poeta, não tem limites.
Concluiu que a poesia é a mímica de Deus e que escrevê-la é nada mais senão que desvendá-la.
Quer ainda escrever muitos versos, mas não pretende incompatibilizar-se com a Lei quando sua hora for chegada.
Nas as primeiras horas da manhã do dia 6 de setembro de 1959 este depoimento começou a ser escrito.
As linhas traçadas aqui continuam na linha do tempo, redigidas pelo autor de todas as coisas, registradas nas folhas diárias que a vida oferece aos seus.
A história do homem é a história de seu pensamento e seu pensamento é cria do seu coração.
Por enquanto é o que se sabe, até aqui.
Que venham os versos e passem os dias.
Porque amanhã, ninguém sabe.
lamtavares@uol.com.br