POEMA TRANSVERSOEu quero um poema que valhaMeio tronco inteiro meio maravalhaQue sirva ao ético e sirva ao canalhaQue seja elite e seja gentalhaQue levante a cerca e derrube a muralhaQue colha a fartura e plante a migalhaQue zombe da minha cabeça grisalhaQue ajunte as partes do que se espalhaEu quero um poema que valhaO frio do pólo e o calor da fornalhaO ócio do rico e você que trabalhaQue s ...
POEMA TRANSVERSOEu quero um poema que valha
Meio tronco inteiro meio maravalha
Que sirva ao ético e sirva ao canalha
Que seja elite e seja gentalha
Que levante a cerca e derrube a muralha
Que colha a fartura e plante a migalha
Que zombe da minha cabeça grisalha
Que ajunte as partes do que se espalha
Eu quero um poema que valha
O frio do pólo e o calor da fornalha
O ócio do rico e você que trabalha
Que seja perfeito porque leva à falha
Que permita o novo que permita a tralha
Que incendeie e queime com fogo de palha
Que erga e suporte o peso da talha
Forçando o silêncio do homem que ralha
Preciso de um poema que valha
O crime dos justos e a coesão da limalha
O fio cortante da minha navalha
A bandeira branca ao fim da batalha
Daqui a mil anos que seja a medalha
Do ser que ajuda do ser que atrapalha
De quem preconiza de quem avacalha
Fazendo-se probo na mão que metralha
Tão justo e tão torto que enquanto estraçalha
Os planos mais lindos de quem amealha
Permite também o caminho que atalha
A chama dos sonhos de sua acendalha
URBI ET ORBIPombos de praça me entristecem
Fazem-me lembrar do futuro
Águias de fogo cruzam o céu
Levando-me de volta ao que vivo
O que faço aqui como indivíduo?
A minha contribuição é válida?
Vale a esperança no amanhã?
O frio aumenta minhas dores nos ossos
Um carro que passa respinga-me seu ódio
Todos que vejo salivam a raiva
Como vítimas de uma esperança ordinária
Um pobre estende-me a mão
No cinema, filmes de traição
Na cidade, estupros e incestos
A moral é uma corda bamba
Que não suporta o peso da caçamba
Minha cidade é uma extensão do mundo
Isto é o que mais me dói
Sento-me na escadaria suja do teatro
Sem o menor ânimo para um novo dia
Xingo Deus e Satã
Jogo minha porção de ódio no chão
Chuto as moedas do inválido
Clamo pela compaixão das prostitutas
O Sol passa com seus raios por entre os edifícios
O barulho nos trilhos anuncia mais um trem
A vida se resume a um eterno vaivém
Peço o café puro da manhã
Leio as manchetes nas bancas de jornal
Conto os centavos que me levam e trazem
E parto para menos um dia de mim
CONTRAVERSÃOSeguimos na contradança
Contrabando, contrabanda
Contrapondo-se à cobrança
Contrariando quem manda
Contradizendo as crenças
Contra-indicando ofensas
Nadando na contracorrente
Como um contraveniente
Seguimos pelo contraste
Contra-ofertando o traste
No contra-ataque da ilusão
No viés da contradição
Contracenando com a vida
Escapando da contrapartida
Contragolpe, contrapeso
Contrafeito, mas ileso
Tudo é contraproducente
Num contra-senso demente
Contrabaixos, contracantos
Contragosto contra tantos
O rumo do contrapasso
É o mesmo da contramão
Todo verso controverso
Tem sua contraversão
biografia:
FELIPE CERQUIZE é engenheiro químico pós-graduado em Marketing. Com forte atuação na vida cultural do Rio de Janeiro, lançou, em 1996, o livro RHUMOR, coletânea de contos classificada pela comissão julgadora do PRÊMIO NESTLÉ DE LITERATURA no ano de seu lançamento. Em 1999, lançou o CD de MPB chamado LÉGUAS, com apresentação do compositor GUTTEMBERG GUARABYRA. Em 2003, foi classificado em primeiro lugar no concurso de poesias da FACULDADE EDUCACIONAL UNIFICADA CAMPOGRANDENSE [RJ] com a obra intitulada POEMA TRANSVERSO, entre as mais de 400 poesias inscritas. Também em 2003, classificou-se em sexto lugar no festival de música popular do CLUBE DOS COMPOSITORES DO BRASIL com a música APÁTICO PACTO, selecionada entre as mais de 1600 canções concorrentes. Em 2005, lançou o livro CONTOS SINISTROS na XII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO, com prefácios de TIBÉRIO GASPAR e de REGINALDO BESSA. Em 2006 teve a sua música COMUNHÃO inserida na trilha sonora da novela ALÔ ALÔ MULHERES, exibida na www.alltv.com.br. Em 2007, foi classificado em primeiro lugar no concurso BALADA DO IMPOSTOR, promovido pelo poeta GERALDO CARNEIRO, com um texto sobre a morte de PAUL MCCARTNEY. Ainda em 2007, lançou o livro de poesias CONVERSA RIMADA, em parceria com a cantora, compositora e poetisa LUHLI, na XIII BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO DO RIO DE JANEIRO. Em dezembro de 2007, o poeta foi agraciado com o primeiro lugar no Prêmio FEUC de literatura com a poesia COMO NOSSOS FILHOS, entre os mais de 250 participantes do concurso.
Como melodista e letrista, possui mais de trezentas obras, incluindo parcerias com KIKO FURTADO, LUHLI, LUIZ CARLOS SÁ, PHILIPPE BADEN POWELL, TAVITO, ZÉ ALEXANDRE, DENISE DALMACCHIO, EDUARDO FRANCO, ETEL FROTA, FELIPE CORDEIRO, GILVANDRO FILHO, ISO FISCHER, entre outros.
fcerquize@hotmail.com