1. CANTO DOZEIO lençol verde prenuncia núpcias.Deuses adormecidos.Perfumes se insinuando no mundo que desperta.O que é a imensidão, ali, diante de mim?Aqui, onde a visão, levada a transpor limites ,nos revela, afinal, compreensão:os deuses vendem quando dão.Não há azul, mas o mar é patente.Pathos: imensas ondas plangentes.Quando vivemos vemos vir no ventoo destino, somente:O nada no tudo ...
1. CANTO DOZEI
O lençol verde prenuncia núpcias.
Deuses adormecidos.
Perfumes se insinuando
no mundo que desperta.
O que é a imensidão, ali, diante de mim?
Aqui, onde a visão,
levada a transpor limites ,
nos revela, afinal, compreensão:
os deuses vendem quando dão.
Não há azul, mas o mar é patente.
Pathos: imensas ondas plangentes.
Quando vivemos vemos vir no vento
o destino, somente:
O nada no tudo à nossa frente.
II
Um caminho leva ao latente.
Látha é corpo-em-gesto
que anima a seda na dança do kashf.
É Shakti vestida de Maya.
A mais pura das vestais.
O mistério entre tecidos,
A verdade e o sentido,
o ignoto em seu sabor,
o invisível em sua cor.
O poeta em mahjub
deixa ver a lua
como um ator invisível.
Ulisses teve de se velar,
quando Demódoco cantou,
para que surgisse Odisseu.
Setenta mil cortinas de luz e trevas
não são apenas um detalhe,
e foi assim que Moisés
teve de se cobrir
ao falar a seu povo,
e sacralizou-se o imperador da China.
III
Pedras ao sol.
Soníferas águas adormecem seres e Ceres:
tão humanos campos cultivados.
Sem cultivo, ela pletora.
Nessa escada que subimos, chegamos.
Profundas águas deságuam no profundo sono.
Não comunico: o que digo já nos é próprio.
O que são palavras?
Estas – tão assim estas –
que quando as escutamos,
apenas o silêncio nos resta?
Calma festa: núpcias se anunciam:
deusescachoeiraventomontesverdessonságuas.
É assim quando é linguagem,
e as coisas parecem tão despudoradamente juntas.
Eroticamente unidas.
Festa em que todos se ausentam e a natureza
é o presente do mundo que se cala.
Esse perfume de ipês floridos.
Esse odor acre dos arbustos ressequidos sobre pedras lisas.
Eis o dom.
IV
Há histórias de chuvas reveladas pela água
e gravadas por dedos antigos nas pedras.
Herdamos esse sangue, o dom, a linguagem.
Palavra que estas e aquelas se imagem.
Escutamo-las e dizemo-las,
e eis diante de nós a imensidão!
Esperando encontrar o inesperado,
aqui, entre teias,
onde o lugar,
lançado em mostrar-se,
brilha, belo.
Cala mas não emudece a fala.
[do livro 'Entreteias'. São Paulo: Scortecci, 2007]2. 'Excerto'Mais uma tentativa de aprender a morrer, que é coisa de se agir até cessar de aprender:
Tem um menino tocando flauta
na proximidade duma estrela alta,
que o escuro deixa passar
entre nuvens brancas como gueixas,
que brilha como santa,
Nossa Senhora,
e ora piedosa pela falta que faz,
agora,
o intervalo que jaz
entre a flauta rouca da criança
e canto do galo que anuncia aurora.
Há um poeta em mim que deus me disse,
mas sou ateu.
Tudo que se disse, não fui eu.
Foi como se ouvisse,
de alguém que se escondeu,
cada palavra que, anotada,
se faz nota e não diz mais nada.
Autoria sepultada é matéria de poesia:
artéria cortada que nos silencia.
[do livro “ASSIMETRIAS”]3. DANÇALeve como as pedras dormem nos caminhos
Livre como a vida escrita nas estrelas
Donas do porvir, eu amo sem sabê-las
Mesmo quando falam coisas tão temidas
Salta como as linhas tortas das colinas
Sonha como as horas correm pelas veias
Vou chorar ou rir, seguindo o que me ensina
Fico entregue aos frágeis braços sem rodeios
Das pequenas quedas surgem corredeiras
Sem se perguntar dos mares que as esperam
Nem sequer pensar nas margens que lhe beiram
Vem distante o aceno e a despedida é minha
Simples entre os lábios a resposta inteira
Quer me devolver segredos que eu não tinha
biografia:
Diego Braga nasceu no Rio de Janeiro, em 1980, Graduou-se em Letras pela UFRJ. Atualmente, conclui sua dissertação de mestrado na área de Poética, pela mesma instituição. Estreou na literatura em 2007, com os poemas do livro 'Entreteias', e é autor do também poético 'Assimetrias' ainda inédito.
diegofbpereira@yahoo.com.br