A mão escuta o papel toca a letra um corpo vaza o desenho a boca resume o traço pássaros cachoeiras um bordado que imita a virtude e a transparência das águas. ----------------------- O tema ronda a lógica invade a língua disparidades não faz insiste inquebrável ao menos não diz a razão é um pensamento sem saída. ----------------------- Fronteiras que se repetem ciclo limite e ...
A mão escuta
o papel
toca a letra
um corpo
vaza o desenho
a boca resume
o traço
pássaros
cachoeiras
um bordado
que imita
a virtude e a transparência
das águas.
-----------------------
O tema ronda
a lógica
invade
a língua
disparidades
não faz
insiste
inquebrável
ao menos
não diz
a razão
é um pensamento
sem saída.
-----------------------
Fronteiras
que se repetem
ciclo limite
exaltação
atropelos
um fim
de século
ao meio-dia
circunstancial
inédito só
as pernas do sol.
----------------------
O umbigo transborda
o éter
alva, lisa
sem marca
de cansaço
epiderme de mulher
o mar do nome
doce, leve
peixe
a dança refresca
o belo namora
a boca e as pernas.
Poemas do livro 'Arquitetura de algodão' Biografía:
Depois da mostra retrospectiva no Museu de Arte Moderna da Bahia que veio confirmar o lugar de Almandrade na linha de frente da arte contemporânea brasileira, este artista /poeta nos surpreende com um belíssimo livro de poesia, a começar pelo titulo: Arquitetura de Algodão. Projeções, planejamento, cálculo, idéia. A feliz tentativa de captar imagens impossíveis, pensamentos e corporifica-los. O mais original é a diluição do que entendemos como real numa composição abstrata e lúdica, como se escrever poesia fosse pintar um quadro. Uma declaração de amor à fragilidade, ao
invisível e a leveza. Uma poesia destilada, cerebral, que namora com a filosofia, a lógica, Wittgenstein, Bérgson, Nietzsche se perder a ética e a liberdade do trabalho literário.
O que podemos detectar de comum entre o trabalho pictórico de Almandrade e sua poesia é a instauração de um estado de leveza e equilíbrio. O livro parece que veio anunciar o próximo milênio, cantando as virtudes da leveza, como uma proposta poética. Como não se lembrar de Ítalo Calvino e suas propostas. A evidente leveza dos versos e a arquitetura dos poemas nos convidam a ler e reler o livro.
almandrade_x@ig.com.br