NO SILÊNCIO DAS RETINAS Hoje nos deitamos ao mesmo tempo. Há dias em que me deito antes só para ter o prazer de fantasiar, enquanto tu caminhas pela casa e organizas trabalhos dos dias vindouros, disponibilizando tempo para nossos passeios com o cão, nosso olhar estrelas no terraço, cinema, lentas danças, caminhadas pelas avenidas floridas [nosso amor é como cacho amarelo de jasmim], refei ...
NO SILÊNCIO DAS RETINAS
Hoje nos deitamos ao mesmo tempo. Há dias em que me deito antes só para ter o prazer de fantasiar, enquanto tu caminhas pela casa e organizas trabalhos dos dias vindouros, disponibilizando tempo para nossos passeios com o cão, nosso olhar estrelas no terraço, cinema, lentas danças, caminhadas pelas avenidas floridas [nosso amor é como cacho amarelo de jasmim], refeições luminosas e tantas outras coisas tão nossas que ninguém saberá senti-las. Depois vem aquela sensação quase infantil de ouvir teus passos se aproximando, sentir teu cuidado ao me cobrir, a ternura doce ao beijar meus cabelos e ajustar-te ao meu corpo, na certeza de não atrapalhar meu sono. E eu finjo, finjo dormir, só para estar desprovidamente entregue aos teus cuidados.
Logo, sinto tua respiração na minha nuca e tento resistir, mas nenhuma promessa de sono seduz mais que o toque do teu pé por baixo do lençol. Uma intimidade que me revira, e eu vou me encostando, me roçando nos teus dedos, corpo manhoso e feiticeiro num jogo secreto de quer-não-quer, vem-não-vem, faz-não-faz... Sinto cheiro de terra, de algas no fundo do mar, noite se desintegrando, átomos dispersos e os calmos despojos do amor. Para sempre as nossas mãos amalgamadas. Para sempre as promessas. Chuvas secretas de teus lábios, és meu, sou tua.
No entanto, em dias como hoje, quando tudo foi premeditado, fica essa desarrumação. Garrafa de vinho embaixo da cama, taça embaixo da torneira, pé de sapato perdido, cadê a roupa? E a gente transpirada, com preguiça de tudo, meio rouca, meio mole... e tu, como um menino, encolhido nos meus braços, transpirando cansaço, sonhando o sonho dos bem-aventurados. Aqui neste quarto tecemos o fio de nossa história. Cada célula é um poema. Amo-te tanto, que tento lembrar uma canção de ninar para te aninhar no meu abrigo. Amanhã quando as flores se abrirem ao orvalho das pétalas, na hora em que as calêndulas se colorirem com um amarelo-luz e o sol perfurar os telhados das casas e entrar pela nossa janela, tu te levantarás da cama devagar e com olhar de silêncio tocará a porta da minha alma. Sempre ouço a voz do teu coração, mesmo quando ela tem escalar o vento dos oceanos e esticar-se toda no infinito para me fazer acordar deste sonho.
COREOGRAFIA INVISÍVEL
Não sei o que pensam os pássaros quando, nas tardes de sábado, dormem sobre os fios de alta tensão. Os pássaros têm sábados frustrados. Todas as coisas que podiam ter sido, não foram. Também não sei o que pensam os homens enquanto dormem os pássaros pelos sábados adentro. Sei que os homens têm insônia e fecham janelas. Instituem a escuridão, apagam as palavras e desintegram-se em longos silêncios. As coisas que poderiam ter sido? Não têm importância. Em qualquer tempo há fios de alta tensão e pernas de mulheres com sangue fervendo. Tantas que chegam a ser ignoradas. Despojos do amor? A desproporção criou homens-deuses vulgares e divinizados. Criou profissionais especialistas em argumentação. Braços em torno do pescoço, bocas de estátuas coladas e música para preencher os vazios. Mas o objeto deste texto é o amor. O sujeito também. Amor em construção. Quatro paredes lentas e penosas do lado de cá do horizonte onde pretendo improvisar ninhos e desprender pássaros do sonho.
Mas o tempo urge, razão pela qual me deito, mesmo, à terra. Todas as coisas se revelam e se negam continuamente. Finjo não perceber. Repouso minha cabeça sobre o seio da ignorância. A