SonhaAo homem o pensamento lhe dizia sonha, e a memória de amarras o prendia a coisas mortas e a coisas que morriam.Tecido em opaco, o olhar alcançavao horizonte, as cores desmaiadas e as demais roupagens de um dia. A sombra desse dia anunciava a noite e esta escondia o ritual da aurora que trafegava num circulo sem nome. Um rosto velho escondia-se em outra face perdida e no silêncio uma crianà ...
SonhaAo homem o pensamento lhe dizia sonha,
e a memória de amarras o prendia
a coisas mortas e a coisas que morriam.
Tecido em opaco, o olhar alcançava
o horizonte, as cores desmaiadas
e as demais roupagens de um dia.
A sombra desse dia anunciava a noite
e esta escondia o ritual da aurora
que trafegava num circulo sem nome.
Um rosto velho escondia-se
em outra face perdida e no silêncio
uma criança contemplava e ria.
O tempo estiolava-se ao sol
e ampliava o sonho
na própria noite onde crescia.
Éramos poucos. A madrugada
ecoava e a margem de um rio
reverbera a palavra e silencia.
Vidas As vidas que passaram
deixaram portas abertas
para labirintos.
Sendas, clareiras
em selvas e sombras
de retorno inútil.
O tempo cerca a memória,
retém os seus contornos
e a forma de um desenho.
Mas é um traço sem formas
como se fora a mancha
dessas vidas, seu percurso.
Este universo vazio dos instantes
marcados no compasso
dessas vidas, uma a uma.
Luar sobre CopacabanaNévoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas lÃnguas negras,
são estranhos animais.
InvisÃvel-indivisÃvel, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.
Entre o mar e os edifÃcios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.
Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.
O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.
O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.
Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruÃdos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .
biografia:
Celso Japiassu nasceu em João Pessoa, ParaÃba, no Nordeste do Brasil. Publicou sete livros de poemas: O texto e a palha [1965], Processo Penal [1968], A legião dos suicidas [1971], A região dos mitos [1979], O itinerário dos emigrantes [1983], O último número [1988] e 17 poemas noturnos [1993]. Em parceria com Nei Leandro de Castro, publicou 50 sonetos de forno e fogão. Mantem na internet o sÃtio www.umacoisaeoutra.com.br.
celso.japiassu@gmail.com