passagem democrática e nem tantoprimeiroa ordemtece a circunstânciae se instala no peitocomo lembrançanão que se queirademonstrá-lacomo exercíciomas que se a tenhaao redor do próprio umbigoárvores, então,serão indíciosde que uma florestanão resistea qualquer contraditae os restos da manhãserão manhãse nunca posarãode tardepelos raciocíniosprimeiroa ordemcomanda o peitocomo uma des ...
passagem democrática e nem tanto
primeiro
a ordem
tece a circunstância
e se instala no peito
como lembrança
não que se queira
demonstrá-la
como exercício
mas que se a tenha
ao redor do próprio umbigo
árvores, então,
serão indícios
de que uma floresta
não resiste
a qualquer contradita
e os restos da manhã
serão manhãs
e nunca posarão
de tarde
pelos raciocínios
primeiro
a ordem
comanda o peito
como uma desdita
a que se estivesse submetido
desde a própria vida
manhãs, então,
serão ressacas
de uma noite frugal
e incompreendida
primeiro
a ordem
estabelece-se
como uma agricultura
em que não a messe
árvores, então,
serão a finalidade
de plantas costumeiras
e inconsumíveis
o homem, sem vão,
restringe-se a ser
como lhe são.
primeiro
a ordem
afoga o pânico
e diz-se razoável
e vivida
árvore, então,
será paisagem
por que se teimou
em querê-la viva.
primeiro
a ordem
se sacraliza
e no altar do peito
perdura
com a mesma textura
de uma tristeza intangível
primeiro
a ordem
realiza-se
numa matemática
que nem se diga.
árvores, então,
serão usinas
a construir engenho
que as oprima.
o homem
senão
será apenas invólucro
que a contenha.
primeiro
a ordem
atualiza o gesto de sangue
em veias e vias
que a atinja.
árvores, então,
serão bandeiras
de esmagar o tempo
pela vida inteira.
o homem
a desoras
em vão constrange
a norma.
primeiro
a ordem
anuncia-se
com um quê
de liberdade travestida.
árvores, então,
serão da vida
o avesso
do que se sentia
a ordem
finalmente
consome
a obediência
e a desordem
é norma
do homem,
do futuro,
da alegria.
odes filosóficas e ditirambos desconexos
I
o princípio
não inicia
apenas esquece em si
o que havia
e é não sendo
como se permitia
construindo a descontrução
do dia.
e não é por sê-lo
assim avesso
que trai o jeito
de ser começo
mas por se ter a prumo
em desafio
ao eximir-se dos fins
por que se cria.
II
o princípio
é um fim em vão
resta-lhe no tempo
um inteiro não
mas dá-se a futuros
com a mesma simetria
com que a noite inventa
de ser dia.
III
o princípio
não é resposta
antes se tem
como pergunta
de todas as portas
indaga
quando é
o que não sendo
na alma
e resta
no espaço
como adaga
que nem se dissesse lâmina
de cortar a fala
o princípio
medra
como uma ilusão
da pedra
um rastro manso
da matéria
IV
o princípio
tem-se a custo
como desrazão
do discurso
posto em palavras
não transita
uma verdade que se quer
absoluta
é-lhe íntimo
o curso
dos melhores rios
do uso
e acostuma-se
à corrente
como barco definitivo
que aparenta
singrar com jeito
o peito do infinito.
Afeto
I
a síntese
discursa a lógica
meu afeto é tanto
e dízima periódica
não trai a desfaçatez
de algarismos monótonos
mas a precisão definida
em todos os meus ossos
não tem a perspicácia
das matemáticas lides
mas é, no exercício de mim,
um grito que domino.
II
meu afeto
é inócuo
se não a trama do peito
nos meus ossos
meu afeto
há de ser unânime
como a força das formigas
e a placidez dos elefantes
meu afeto
está para a vida
na mesma proporção
em que é lida.
meu afeto
é o exercício
da exata compreensão
do que eu não digo,
Balada à garçonete do Hotel Sputnik
no ventre do teu olhar
existe o mesmo desatino
com que se lança o Rio Neva
na esteira do seu destino.
tem a preguiça teu olhar
de um dia estatizado
e a nervura dos confortos
com que a vida, às vezes, há de
tem do mar as ondas do Báltico
e a desfaçatez do que nem digo
e se cabe, assim, em palavras
descabe das coisas que nem sinto
tem a exata compostura
de uma dízima infinda
que nunca começa nos teus olhos
e que nunca em nós termina.
Como ter coração
Como ter coração
se 800 milhões
não são ?
como ser pacífico
se a paz
é apenas um indício ?
como não ser infinito
se a paz inteira
ainda não cabe em nosso grito ?
Inverto
inverto.
sou aquilo
que nem me conheço.
invento.
sou o contrário
do meu medo.
intento.
ouso me amar
como me invento.
na minha morte
na minha morte
estarei presente
mesmo que não a tenha
compreendido
habitarei o fogo
em carne e ossos
e desabitarei a vida
o melhor que possa.
minha morte
não existe
os homens é que teimam
em dizê-la triste
na minha morte
a vida estará presente.
a minha e toda outra
que leve de mim
a compreensão do tarde
e a não compreensão do que se sente.
na minha morte
desarquiteto o limite
deixo de ser só homem
adredemente restrito
e caibo na rebelião
de todos os meus sentidos
aqueles que trouxe à mão
e todos os outros que nem tive
na minha morte
me definitivo
passo a ser um ego coletivo.
Ode adverbial ao orgulho
a visão
insta-me
a ver meu filho como nauta
navegador de mares que não posso
consumidor de asas
que me faltam.
e a emoção, de resto,
é um grande porre de adrenalina
pelo cérebro.
Ode ao não-ser
minha paixão não permite
que meu horizonte seja um dia
posto em cabides
minha paixão não admite
que o inverso de mim
seja somente o que não tive
minha paixão não se permite
ser um amor em tese
impunemente indeciso
minha paixão não se omite
em ser da revolução
até que deixe de ser triste.
Ode aos meus possíveis adversários
ganhaste o jogo
em qualquer circunstância
não concorro
perco,
até adredemente,
pra me guardar em lutas
que a alegria me consente.
Ode circunstancial e palestina
balas não desenham a tarde
balas apenas descrevem
a indignidade.
balas não são balas
apenas indicam
uma morte
desnecessária.
o menino
envolto em balas
é um dedo em riste
na cara dos canalhas
o menino
envolto em medos
é um tempo
de segredos.
o menino
envolto em morte
é a descontrução
de sua sorte.
Ode eclesial
I
na nave
deus
é barco
de tanger a vida.
o homem
em ondas
é mar que não se teve
e que apenas transita
entre um rasgo de esperança
e aquilo que nem se cogita.
deus e homem
apenas se contemplam
um esculpido em perdas
o outro em paciência
II
em oração
impune e mansamente
o homem constrói andaimes
pela alma das gentes
deus em si
constrói-se e se constata
como um verbo intransitivo
de estranha matemática
e deixa-se mínimo
nessa íntima sintaxe
que lhe conjuga tão incerto
em verbos que nem prolata.
III
na nave
a salvação é uma bandeira
de espalhar pretextos
pela noite brasileira
conforma-se à norma
decretada a priori
de que a paz é apenas um susto
que se reteve na memória.
homem,
deus é tanto
que teima em ser altar
imune à confiança.
na nave, entretanto,
deus e o homem escondem de si
qualquer desesperança.
poema ao suicida
o salto
esconde
o homem da cidade
ao morrer -
quem sabe?
o homem pula a si
e a verdade
incoletivamente
ele desarquiteta
o salto, a vida e a tarde
quando idéia
quando idéia,
já tão velha
a matéria,
saio de mim
em aventura
e chego a dizer-me verbo
de estranha criatura
idéia que nem seja tanta
como o músculo
que sustenta a garganta
e me propõe ações
de esperança.
quando matéria,
já tão gasta
a idéia,
ouso dizer do mundo
a razão que meu braço
carrega verbos e fardos
e trunca a rota da fala
com a mesma simplicidade
com que a esperança se deita
na paz de quem nem sabe.
quero meu amor à mão
quero meu amor à mão
como o gesto mais frugal
e comete-lo impunemente
seja no ócio ou em ofício tal
que nunca se distinga
o que lhe sejas avesso
mas que se traga ao largo
de todo o meu medo
e que lhe sinta a carne
e uma virtual saudade
porque me seja tanto e farto
pra distribuí-lo à vontade
quero meu amor provisório
como a estrela mais precoce
que vive apenas da tarde
o limite da luz que não lhe guarde
e que lhe sinta as entranhas
como um discurso latente
que construa versos na praça
em gramáticas que nem se consente
quero meu amor teúdo
apesar de coletivo
e tê-lo na exata proporção
de tudo que eu não digo
quero meu amor subjetivo
como os adeuses que não dei
e remoê-lo pelo chão da tarde
na imprecisão de tudo que não sei
quero meu amor não meu
mas que se faça variado
e que tenham em mim limite tanto
por tanto que se faça vasto
quero meu amor
sem ilimites
perfeitamente desatado
e que encontre pedras em seu leito
e que encontre leito em seus enfados
quero meu amor desesperado
na falta e na presença
farto pelo que de tanto
gasto pelo que de menos
sou
sou.
penso.
e divirjo de ser e pensar
constantemente:
Os medos me caem entre os dedos
de repente
sou
e sempre
a vida finge pensar
aquilo que nem se sente.
estou
impunemente
naquilo que nem sei
se sou tão sempre.
Cartas da vida e brasileiros dramas
Carta I
Inteligência do amor
não tenha a vontade
um mister tão compulsório
que não o de gerir o peito
e se furtar ao ócio;
que convença o coração
dessa gerência informe
mas que se preze infante
e que se entregue e chore;
que abasteça o peito
de quereres mais amenos
alguma rosa profunda
algum urgente segredo;
que conspire à furto
com a razão mais latente
mais que se queira interina
numa vida permanente;
não traia o corpo
alguma chaga imprecisa
que se derrame sem jeito
pelo bolso da camisa;
antes se queira frágil
nos exercícios da vida
e se desdobre em cachoeiras
em que se caiba impreciso;
e arquitete um abraço
que não lhe saiba conciso
no limite de suas carnes
e do tamanho do infinito;
não venha o espaço
querer-se tão limitado
que não comporte um amor
que caiba no teu abraço;
mas que se firme completo
nas lacunas que lhe formam
e se informe por certo
das colunas que suporta.
Carta II
a gente sempre morre
do tamanho da vida
e sobra em amores pacatos
pelo jeito da notícia
a gente sempre ama
do tamanho do abraço
e nem se sobra ileso
das marcas do que se acha.
Carta III
a noite
bóia nos meus olhos
com a mesma textura
com que bóia minha alma
pela rua
meu poema
não se acostuma
a ser verbo
que não se assuma
e se não se alça
a exercícios mais táticos
é que bóia também na noite
embrulhado no que acho.
a noite
bóia nos meus olhos
no gesto mesmo
de uma lágrima
feliz que nem seja tanta
verbo que se queira água
meu poema
não se escusa
de ser um verbo que sinto
e que me acusa
de tê-lo assim inteiro
nas vírgulas que se
Carta IV
meu país não obedece
a qualquer geografia
Carta V
a lágrima do riso
tem um jeito diferente
é algo assim como um rio
que não tivesse corrente
Carta VI
de cada paixão
resta o desuso
uma preguiça de amar
a longo curso
Ode definitiva a Reich
minha emoção
preside
a assembléia geral
do que eu não tive
minha razão
assume
todo e qualquer futuro
que me pune
hei de andar assim
incontinente
como se a vida não coubesse
naquilo que se sente
e sempre me permito
ainda insolvente
cobrar o que da vida
gasto assim impunemente.
meu corpo
é o esforço
que minha alma
apresenta
Ode aos meus possíveis
meus complexos
não os meço
melhor cabê-los todos
no meu verso
e sempre os trago
à algibeira
guardados inúteis
às quartas-feiras
e mesmo que a noite
os entenda
deixo-os pela madrugada
pendurados numa alma
que me convenha
Determinação
Fica assim assente
ninguém há de consumir
a solidão da gente
pois de querê-la tal
como exercício
melhor seria tê-la em asas
como pássara notícia
fica assim assente
ninguém há de fingir
o choro da gente
pois de tê-lo avaro
no desvão dos olhos
melhor compreendê-lo
como ineficácia do ócio
fica assim assente
a gente é sempre tudo
quando nada é melhor
que ser presente,
Coplas desconformes ao redor da vida
no primeiro ato
expulso- me
gelatinoso e um
e quase a pulso
no primeiro ato
não me pertenço
pois sou um eu tão grande
que me esqueço
no primeiro ato
trago o mundo
na ponta dos dedos
e a não compreensão
de vãos segredos
no primeiro ato
não estou sendo
como seria se fosse
já sofrendo
no primeiro ato
divirjo das borboletas
não me tenho em asas
mas em medos
no primeiro ato
lavro meu grito
na certidão única
do que sinto
no primeiro ato
não me caibo
como invólucro pertinaz
do que me acham
no primeiro ato
convoco- me ao mundo
com a percepção
de que só me iludo
no primeiro ato
estou tudo
embora nada me diga
como outro
no primeiro ato
despeço- me avulso
da química eficaz
dos úteros
no primeiro ato
não me minto
verdade que nem seja tanta
e que pressinto
no primeiro ato
não me vivo
apenas me lanço
ao simples infinito
no primeiro ato
ainda nem caço
o tamanho
dos meus passos
no primeiro ato
reservo- me
o direito de ser quase
o que não quero
no primeiro ato
posso o que não devo
e devo não poder
o que mereço
no primeiro ato
nem me meço
minha placenta
ainda é o universo
no primeiro ato
minha carne
é já notícia
de que ardo
no primeiro ato
sobro da mãe
como um susto
em que não caibo
no primeiro ato
minha mãe é tarde
noite que já nem pressinto
na manhã que há de
no primeiro ato
não tenho palavras
mas uma rápida ilusão
de que me agrado
no primeiro ato
finda a dessemelhança
do que ainda é pouco
e que me é muito pelo quarto
no primeiro ato
não me canso
de atravessar o vau
dos rios que alcanço
no primeiro ato
estou íntimo
e último
e quase acho
no primeiro ato
nem me importa
a palidez do mundo
e as cores da revolta
no primeiro ato
estou concluso
remetidos os meus autos
à barriga do mundo
no primeiro ato
nasço
com a quase alegria
em que me ardo
no primeiro ato
me desconvoco da idade
sou o início e o fim
do que me invade
Indagação adverbial do mar
água em sono
quem te constrange
a não te dares por rio
mas um mangue?
rio em concordata
que compreensão teria
se te fizessem credor
de alguma alegria?
teu primado
em tudo rebenta
jeito de onda morena
que meu olhar
amanhecia
jogo de homem urgente
devedor da alegria
saldo de coisa que a gente
teima em dizer
da valentia
teu primado
dá-me a compreender os olhos
como instrumento
de te fazer serventia
como flecha
que destrava o arco
nas manhãs sem garantia
teu primado
está presente
em cada onda
que cometes
num desfastio freqüente
o mar
nem bem parece
os rios que não se cruzam
das mágoas todas da gente
no teu cartório de águas
nem lavras a certidão
de que te compreendem vasto
apesar de tanto não
água que nem comentas
o que de sólido urdistes
quando em meu peito dissestes
o teu jeito de triste
quase de alguidar
quase de louça
que me truncasse a razão
no vão da boca
meu corpo
não intenta
engenho maior
que me contenha
morte que me seja tanta
pequena alusão ao meu País
lavro a esperança
com a mesma magnitude
com que a chuva cria
os mares que não pude
e se não me estranho
é que me permito
ser um impatriota
com todas as nações em riste.
é muito pouco
ser brasileiro
quando se vai pela alma
o mundo inteiro.
Em torno do meu país
na favela
as balas vão
aquelas do coração
e as da guerra
na favela
chora-se em dobro
as lágrimas de pedra
e as do choro
líquidas
as últimas
são mares
em que se afoga
apenas a vida
nada mais
sólidas
as de pedra
são os gritos de quem luta
melhor dizê-las verbos
pela rua suja
na favela
o poema se escreve
com o sangue e a vontade
de quem deve
poema em dobro
retroativo
que teima em ser de pedra
apesar dos sentidos
na favela
a palavra medra
como o milho
semente que não plantada
pergunta que nem se diga
na favela
a morte habita
com intimidade
comedida
parente que nem seja íntima
da vida.
versos do sofrer
sofro de mim
quando entristeço
razão que nem seja tanta
pra que não me consinta
sofro de mim
quando me perco
dor que nem é minha
e nunca esqueço
sofro de mim
inutilmente
nessa vontade intensa
de me ter ausente.
e me guardo em mim
constantemente
quando sofro assim
tão de repente.
Do descaminho
Cachorros latem a noite
com a mesma similitude
com que a 'Soiuz' atravessa
a sua plenitude
cachorros são naves
que não quiseram o cosmos
e ancoraram tristonhos
em seus absurdos
e a Soiuz, assim perdida
nem sabe que minha paz
é sua lida.
Pequena digressão do ilimite
Só se é indivíduo
quando coletivo
pois é preciso ser dito
o homem vive sempre
embrulhado no infinito
pois é preciso ser vasto
pra se ser limitado
e é preciso ser único
pra se ser vário.
É preciso levar em conta
que a matemática de mim
não é espontânea
mas é preciso assim mesmo
ter vontade na substância.
É preciso estar perto
pra se ter distância
é preciso ser humano
pra se ter esperança.
Vagar noturno
no fundo do copo
dramas e beijos
a angústia cabe inteira
um copo de cerveja
e quem não se mede
pela tristeza que engole
inventa um riso pela boca
num teatro enorme.
cada um é cada tudo
engasgado e entrançado
nas asperezas do mundo.
o olho escapa
das bordas do copo
e palmilha risos e seios
numa distância insólita
e o corpo consome a noite
e trama a madrugada
com a aguda extensão do tédio
que se escreve na cara.
em todos o bar agita
palavras de ordem de uma alegria
que permanece inconsumível.
Poema de circunstância
no meio dos passos
de acelerados vãos
a metralhadora mede a vida
e nem se dá conta
do soldado que lhe tem à mão.
Ao redor da praça
não as prontidões
mas uma lassidão impune
que infringe raras vezes a razão
e o calor
amorna o coração
com a facilidade inequívoca
com que tange os pulmões.
Homens, sem saber que sê-los,
os transeuntes arquivam a vida
nos desvãos mais íntimos dos cabelos.
Ode ao calcanhar
hás de ter a brutalidade
e a delicadeza mais incauta
com que a vida fere, às vezes,
o peito urgente da pátria
não por seres balsa
que amolgas o desencontro
e te tens a tanto custo
na pauta dos teus passos
na escravatura do teu uso
mas antes por seres pássaro
da exatidão dos músculos
que teimam a liberdade
apesar de tanto susto.
Carta de Moscou
sonolenta era a tarde
nos seus ramos mais intrusos
e a neve urdia escândalos
traspassando de frito meu discurso
e das asas do Tupolev
franzidas em exato equilíbrio
pulsava meu coração aos gritos
na intimidade mais crua do infinito.
o hálito dos camaradas
vigia em risos tão a prumo
que suas faces boiavam
num descaramento parente do futuro.
e do longo Tupolev
de que me vi assim despido
ressoou o vagido matemático
dos sputniks que eu nunca havia tido.
Feitio
versos
os escrevo
como quem maneja a alma
na caneta
e de tudo é tanto
que não se perceba
o músculo apenas retórico
que seja.
versos
os prolato
como uma grávida sentença
de qualquer tarde
guardada a proporção
do que nunca há de.
versos
os constato
na franja da noite
em que me ardo.
Pequena concisão da vida
a vez que nascer
é quase tanto
que morrer
e desde viver
que não se finja
de prazer
o quanto morrer
da sempre luta
de nascer.
Do ofício e das horas
cabe ao poeta
engolir as madrugadas
e amanhecer o verbo
no peito das palavras
cabe ao poeta
a estranha lida
de construir andaimes
nos sonhos que exercita
cabe ao poeta
insurgir a vida
e praticar rebeliões
sob medida
cabe ao poeta
alinhavar o tempo
e caminha pela calçada
impunemente
cabe ao poeta
ser quase marinheiro
e navegar as âncoras gerais
que se cravam no seu peito
cabe ao poeta
promover os sábados
à condição de domingos
e distribuir as horas de riso
como gerente dos sentidos
cabe ao poeta
não se pentear
a não ser em espelho
que apenas comente sua face
cabe ao poeta
abster-se da morte à tarde
e nunca morrer sem verbo
que lhe resguarde
cabe ao poeta
os infartos
não os do corpo
mas os da alma
cabe ao poeta
todo discurso
que em não sendo palavra
tenha lógica mais justa
cabe ao poeta
guardar a outra face
e tanger a noite do mundo
com seu grito de liberdade.
Vaca paciência
do curral
nem se admite
que contenha apenas bois
postos em cabide
assim trançado
de pau a pique
o curral é antes vitrine
de vacum precipício
que nem se sabe de boi
e nem ao menos é legítimo.
mas na reta do olho
talvez a contingência
leve a se ver apenas bois
bocejando a inconsciência.
Versos ao sol sustenido menor
assim composto
tens na pauta
a mesma compleição
da madrugada
e te revelas
e te resvalas
como uma garça
pela alma
que nem quisesse ser pássaro
ou fala
mas que caçasse a mim
desordenado
eu transposto em som
em estranha matemática
que me pregasse na pauta
de todas as minhas mágoas.
Baía da Traição
a baía
amanha a praia
com um gesto
de navalha
cospe a areia
já prestante à luta
como se fora garça paciência
da desculpa
fingi-se mar
de vasta cabeleira
renhidos os ombros das ondas
pela tarde inteira
a baía
bebe o chão
como um bilhete compassado
de rebelião
e mansa
arranha o vão
que mais se presta a incalculável
que a qualquer fração
a baía
é quase um leão
que tecesse na juba
as tranças da solidão.
Do que transito
transeunte da vida
me desfalca
a compreensão
do que é tarde
transeunte da morte
não me vejo
como tanta inconclusão
do que é cedo
transeunte do nada
melhor me dera
ser um pouco do trânsito
da terra.
Desejo
no meio do desejo
finjo que é medo
a vontade de brincar
com meu segredo
no meio do medo
finjo que é segredo
a clara escuridão
do meu espelho
no meio do segredo
finjo que é medo
a vontade de inventar
um outro espelho
no meio do espelho
meu segredo é em vão
um desejo de ter medo
de outros eus que já nem são
e cuspo esse tempo
pelo vão dos dedos
como um retrato de mim
em que me desabito e me perco
Elegia prosaica ao caldo-de-cana com pão doce
o rio verde
é quase uma alegria
que amolga o instinto
na garganta
e como porto
tange a língua
como as mulheres tangiam
as panelas gerais
da minha infância
pão se queira pão
muito menos por ser pasto
mas por trazer à mão
o gosto transeunte
dos laicos canaviais
da sem razão
e mesmo pasto
seja condição
pra se ter o peito livre
grávido da nação
Em pássara consciência
de bólide
não se avoque
por pássaro se ter
mais a molde
enseje continência
quando infinita
e se preste mais a pulso
quando incontida
tenha no jeito
a concisão e a urgência
de um sonho gravado
no vão da paciência
do tempo
não se provoque
a ser apenas fração
que me console
que seja bólide
e que não seja
engastada na conveniência
de toda a natureza.
poema zoológico
o urso polar
é quase um grito
arquivado no vão
de todo riso
assim em nado
é pássara atitude
e traição adrede
ao que tem de paquiderme
mais que urso é uso
de retinas provisórias
que chega a cobrir a mágoa
que drapeja na memória.
Ode à renitência
por que fugir
quando ainda a hora
é pouca pra ser tarde
se ainda hoje mesmo cabe
todo centímetro do coração?
há um tempo
de rever as empreitadas
e consumir como tudo
o que é quase nada.
Indagação adverbial do mar
água em sono
quem te constrange
a não te dares rio
mesmo mangue?
rio em concordata
que compreensão terias
se te tivessem credor
de alguma alegria?
teu primado
em tudo rebenta
jeito de onda morena
que meu olhar amanhecia
jogo de homem urgente
devedor da monotonia
saldo de coisa que a gente
teima em dizer
da valentia.
teu primado
dá-me a compreender os olhos
como instrumento
de te fazer serventia
como flecha
que destrava o arco
nas manhãs sem garantia
teu primado
está presente
em cada onda
que cometes
num desfastio tão freqüente
o mar
nem bem parece
os rios que não se cruzam
das mágoas todas da gente
no te cartório de águas
nem lavras a certidão
de que te compreendem vasto
apesar de tanto não
água nem comentas
o que de sólido urdiste
quando em meu peito dissestes
tua onda
teu jeito de alguidar
as tuas louças
verbo que me trançasse a razão
no vão da boca.
mar que nem te queria
como as águas que invento
dos meus olhos, dos meus dias.
Certidão
averbo-me de livre
quando meu verso exige
verdade que nem seja tanta
como os limites que trago
na garganta
e que me quero exato
quando nem me caibo
corpo que nem cobre o tamanho
daquilo em que me acho
averbo-me de incauto
quando alcanço meu limite
roupa que nem me veste
verbo que nem me disse
e me quero destroçado
em ruas em que nem me tive
verdade que nem queira tanto
avalizar os meu limites
averbo-me de nauta
nos cosmos em que nem habito
janelas que nem se fecham
com a presença do infinito
e me tenho em medidas
que nem conheço
e me caibo em proporções
em que nem tropeço
averbo-me de livre
quando nem madrugada
é ainda a razão
por que me tive
e me compreendo a meias
rendeiro de almas
que nem gasto de repente
como um saldo que me caiba
averbo-me de triste
nas manhãs sem mim
em que a palavra arquiteta
tudo que não se apresta
a me dizer assim
averbo-me de suspeito
quando a culpa tange
a franja do medo
que me engane
averbo-me de tanto
quando ainda pude
trazer na garganta
os verbos que me ajudem.
Pequena autocrítica
minhas culpas
trago-as todas
em desculpas
quando melhor não fora tê-las
como justas
minhas culpas
levo-as todas
em desuso
quando melhor não fora vivê-las
como sustos.
Poema
poetas não serão presidentes
falta-lhes a mania
de construir presentes
poetas não serão presidentes
porque suas manhãs
são noites inconseqüentes.
Verbo e textura
palavras não são entes
palavras são, de repente,
nos barcos e portos da gente
um mar que apenas se pressente
e que nunca se teima em atravessar
palavras são fatos diferentes
resvalam na alma e, geralmente,
escorrem da garganta impunemente
como se fossem cachoeiras do presente
que o futuro teima em discordar
palavras são fardos inconseqüentes
que jazem na língua adredemente
como um destino que se consente
em quase nunca demonstrar
palavras têm da memória
a mesma compreensão
de um não ser atravessado
com jeito de ser em vão
palavras têm da vida
quando postas em cabides
a teimosia em ficar perdidas
onde nunca se admitam
palavras pesam verbos
que nem viver se consintam
coisa de ser tudo e nada
descaminhos das estradas
ondas do mar e margaridas
palavras são roçados
de um aceiro incontrolado
que se limitam com os céus
e mares desgovernados.
Pequena ode à coerência
Fica o dito como dito
mas que dize-lo tanto
seja preciso
não apenas na balsa das palavras
mas no dorso objetivo do ofício.
Fica o dito como dito
mas que faze-lo tanto
seja infinito
enquanto perdure uma roseira amarga
pendurada no vão do nosso grito.
odes psicológicas
I
o desejo
instaura
artifícios
pela alma
flui,
e, farpa,
rasgadamente
sobressalta
material
nem se consente
andaime do pensar
impunemente
o desejo
exara
certidões do tempo
e da carne
intui
adredemente
aquilo que nem se tem
e cala
o desejo
me repõe em atas
que nem escrevo
nas palavras
urde
uma vontade
com a mesma compleição
da liberdade
trai um gesto
que nem se cabe
na finitude das mãos
porque há de
II
do desejo
tem-se a impressão
que arde
do desejo
tem-se a ilusão
de um alarde
do desejo
tenho a compreensão
de que sou sempre tarde
III
desejo
quando singro a razão
do que não digo
desejo
quando pareço
ser um tanto eu
do meu avesso
desejo, enfim
quando desejo
ser diverso
nas curvas
em que transcendo.
Versos do sofrer
a dor
urge que a tenha sempre à mão
quando em vontade
se arquitete a desnecessidade
da razão
e sofro de mim
quando entristeço
coisa que não seja tal
e que nem seja tanto
quanto pareça
e consumo a mágoa
como tentativa
de me dizer não eu
desconstruindo a vida
sofro
com a compleição e o jeito
de restar de mim
aquilo que não devo
e no que não devo
há sempre o medo
de não me sobrar no sonho
que consumo
e em que não creio
sofro
como a circunstância
que sofre de mim
a perseverança
e no que não creio
já me permito
ter da razão
algum indício triste
À tarde
À tarde
corro o risco
de viver tão cedo
e deixo a vida
desamanhecer os meus segredos
À noite
ainda é cedo
pra inventar as manhãs
de todos os meus medos.
De Olinda em carnaval de tudo
Até parece que o frevo
Inventando a emoção
Escreve assim
Pelas pernas
Um infinito no chão
E assim descendo a Ribeira
Ladeiras no coração
Olinda toda me chama
Em cada ângulo de casa
Em cada palma de mão
As pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelião
Dos sons que o ouvido engole
Com a exata compreensão
De que Olinda não é cidade
É apenas uma saudade
Misturada com a razão
As gentes pulam seus jeitos
Com a mesma sofreguidão
Com que o
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