\'Bebendo a morte\'Ele tinha ombros largosAndar pesado, faces rachadasMãos trêmulas e pernas inchadasConduzia um cajado velho, sujoPesado e toscoPerambulava pelas ruas nuas de solE repletas de luaNas sarjetas das manhãs sujas, fedidas e friasEle despertava para se embriagar de desilusãoNos copos que a esmola lhe pagavaE era assim sua rotinaAté que um diaUm autom&o ...
\'Bebendo a morte\'
Ele tinha ombros largos
Andar pesado, faces rachadas
Mãos trêmulas e pernas inchadas
Conduzia um cajado velho, sujo
Pesado e tosco
Perambulava pelas ruas nuas de sol
E repletas de lua
Nas sarjetas das manhãs sujas, fedidas e frias
Ele despertava para se embriagar de desilusão
Nos copos que a esmola lhe pagava
E era assim sua rotina
Até que um dia
Um automóvel guiado em desespero
Por um fulano
Colega de vicio seu
Bebeu-lhe a vida
Fugiu sem pagar a conta
E nos jornais do dia seguinte
Uma foto em preto e branco
Mostrava um ser caído na sarjeta
Que bebeu a morte em tragos diários
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\'Beija-me\'
Beija-me,
O beijo sensual, lascivo,
O beijo vivo
Nos meus lábios mortos
De saudade.
Beija-me,
O beijo que me deixará cativo,
O beijo atrativo
Dos instintos tortos
De vaidade.
Beija-me,
O beijo que me encanta tanto,
O beijo acalanto,
Para por fim ao meu cansaço
Por esperar.
Beija-me,
O beijo que preciso,
O beijo paraíso,
Para que me seja um regaço
Esse teu beijar.
Beija-me,
Assim, de qualquer maneira,
E faz-se a primeira
Nos meus lábios imaturos
E cheios de desejos.
Beija-me,
Assim, como quer que queira
O que importa é que será a derradeira
Nos meus lábios inseguros
Sem teus beijos.
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\'Na parede da memória\'
Calara-se a suavidade de sua voz cansada
Quando a idade já lhe pesava tanto
E os anos, no vão do tempo que se perdiam na memória
Passaram por ela escrevendo nos dias
Uma rica e bela história
As faces ressequidas e tão açoitadas pelo chicote do tempo
As mãos vivas a todo momento
Davam sinais de inquietude
E seus passos lentos que duravam séculos
Testavam-me a paciência tão escassa
Na solidão de seus últimos anos
Vivia a ruminar palavras mudas
E vez por outra vazavam no ar sons \'criptografados\'
Ah! Como eu fazia força para entendê-la
Ao menos uma palavra
O seu olhar pacifico me acarinhava tanto
E dizia-me de um amor que ela nutria por mim.
Eu sentia esse amor como sentia o silencioso calor do sol
Das manhãs de todos os dias
Ah! Como são eternas aquelas manhãs em mim
Quando eu, envolto na minha ingenuidade infantil
Vivia a admirá-la de longe, e perguntar-me
Para onde ela tanto olhava ?
E o que ela tanto via lá ?
Hoje, na mesma varanda que ela sentava-se todas as manhãs,
Há apenas a sua cadeira velha a emoldurar a sua ausência,
E em mim uma saudade que emoldura sua presença pacifica e enigmática,
Pintada na minha memória como se fosse
Um quadro de Da Vinci.
biografia:
Brasileiro, cearense, casado, pai de dois filhos, escritor e poeta amador, com poesias publicadas em seis Antologias de Poetas Brasileiros Contemporâneos e no livro Poema Dispersos, Coleção Literatura Clandestina, todos da Câmara Brasileira de Jovens Escritores.
vfarias2005@hotmail.com