Há de haver um dia...Há tempos mandamos o céu para o infernoe descemos nele para viver!Há de haver um dia...Em que os poetas nostálgicosSejam personagens de um distante passado.Em que metáforas sobre lobos Não façam nenhum sentido!Em que o verso que escrevo hojeNão tenha motivo para ser lido.Há de haver um dia...Em que a saciedadeSeja o motivo do ronco de qualquer estômago.Em que o maio ...
Há de haver um dia...
Há tempos mandamos o céu para o inferno
e descemos nele para viver!
Há de haver um dia...
Em que os poetas nostálgicos
Sejam personagens de um distante passado.
Em que metáforas sobre lobos
Não façam nenhum sentido!
Em que o verso que escrevo hoje
Não tenha motivo para ser lido.
Há de haver um dia...
Em que a saciedade
Seja o motivo do ronco de qualquer estômago.
Em que o maior sonho ambicionado
Seja o sorriso de uma criança.
Em que os barretes não mais abriguem
A ignorância e a vaidade tão bem trajadas.
Há de haver um dia...
Em que nenhuma voz se cale de frio,
Por falta de um cobertor de retalhos.
Em que nenhuma boca seque de see,
Por falta de copo d'água.
Em que nenhum peito alimente o ódio,
Por falta de um abraço.
Há de haver um dia...
Em que os dedos que apertam gatilhos,
Apertem apenas parafusos de escolas.
Em que as mãos que assinam tratados,
Se estendam àquelas que nunca pegaram em canetas.
Em que os braços que impunham foices pro alto,
Se cansem apenas de arar a terra.
Há de haver um dia...
Em que as bandeiras se dêem conta
Que o vento que as flamula é o mesmo em qualquer lugar
Em que as covas subam e digam:
O fim é o mesmo, pra que brigar?
Em que os muros caiam e mostrem
Que as nuvens não fazem fronteiras.
Haverá uma noite...
Em que o último ouro assista;
-já sem valor algum-, a morte do último corpo.
Este, antes do derradeiro suspiro,
Na solidão das noites sem sombra,
Ao buscar o gelado abraço daquilo que tanto buscou;
Suplicará em prantos inaudíveis
Pelo calor de uma mão
Que a sua indiferença matou!
E num último lampejo de conscincia,
Ao buscar com os olhos
Um último olhar de compaixão,
Terá na pele a dor daqueles
Que tiveram como ataúde o próprio chão.
E como extrema unção
O gentil olhar dos abutres famintos.
E o ouro misturado com o pó
Não reverberará o brilho que tanto encantou!
Hermison Frazzon da Cunha
Publicado no Recanto das Letras em 29/07/2005Atravesso minha rua
Já fui ferido
E sangrei
Combalido
Quase me entreguei
Aprendi que um guerreiro
Mesmo caído
Não pode largar sua espada.
Pois com ela me ergui
Cicatrizes esqueci
E com a fronte levantada
Tive o horizonte inteiro para escolher meu caminho.
Atravesso
Minha rua.
Me despeço
De toda imperfeição
Que no mundo há!
Alguns passos e eu encontro
O mais belo dos tesouros
Que a vida guardou pra mim.
É o meu colo meu consolo...
É minha paz é o meu porto...
É o sonho dos meus sonhos...
É mais do que tudo que eu sempre quis.
Ao teu lado nada invejo!Qualquer mil, qualquer um milhão...
Não há fogo e nem frio,
Tempestades e trovões
Que me empeçam de estar contigo!
Por ti desprezo o temor:
Subo montanhas, desço vales...
Atravesso qualquer deserto, qualquer mar...
Pelo teu amor
Eu enfrento até Haddes
Para a morte não nos encontrar.
Já olhei pro mundo e perguntei:
Se vale à pena tanta dor!
E quase me afoguei
No meu próprio pranto.
Mas se as coisas não vão bem,
É verdade eu bem sei
Desejo um colo
Para quem não tem!
Que mal há querer nada querer?
Se quando atravesso minha rua
nada me falta!!
Ah!!
Se todos quisessem nada querer...
Salvo o bem querer.
Como eu bem te quero!
Hermison Frazzon da Cunha
Publicado no Recanto das Letras em 04/03/2006Açoite na alma.
Em uma alcova de pasto,
nascia um pangarezinho.
E no galope contra o arame farpado,
ele conhecia o limite de seu caminho.
Potro novo puxava o arado,
e nãocorria na cancha - reta.
O rebenque e o carrapato,
estragaram - lhe a pelagem que era bela.
Sua ferradura era o chão que pisava,
sua cocheira era o vento e o frio.
E o tapa - olho prá sempre tapava,
os campos floridos que não mais viu.
A carroça cheia do melhor feno,
era para o quarto de milha.
E o pangaré a puxava sofrendo,
arqueando os quartos ladeira acima.
O relho já não machucava a carne,
pois a pele só tapava o osso.
A bela crina do cavalo árabe,
era a ilusão que queria em seu pescoço.
Mascando o freio preso a um obelisco,
certa vez viu um potrinho nascer.
Tomara que seja xucro e arisco,
para nenhuma cerca o prender.
Pobre matungo que trabalhava em qualquer hora,
cada relincho seu era um lamurio.
No lombo tomava laço, relho, espora...
E seguia troteando sem orgulho.
O cansaço dominava - lhe o corpo,
orelhas murchas, semblante entristecido.
Há tempos já estava morto,
mas apenas ontem havia morrido!
Ermison Frazzon da Cunha
Publicado no Recanto das Letras em 24/06/2005biografia: Graduando em Filosofia na Unisinos em São Leopoldo - RS Brasil, Hermison escreve seus versos de cunho polítco-existencial-realista-romântico.
Ele acredita que a liberdade está na tinta de sua caneta!!!
Sua obra pode ser lida no site:
http://www.recantodasletras.com.br/autores/manohfc13@hotmail.com