HAVIA Havia sempre água fervendo na chaleira para as rodadas de chimarrão; havia sempre cafezinho quente no bule no fogão à lenha nas serras de Minas; havia o vinho carmim do acaí na tigela do Pará ao Maranhão. Galinha de cabidela pinga na roça e tererê à vontade durante as cheias dos rios. Havia macacheira cozida e polenta assada havia torresmo e pinhão. Depois da piracema havia pe ...
HAVIA Havia sempre água fervendo
na chaleira
para as rodadas de chimarrão;
havia sempre cafezinho quente
no bule
no fogão à lenha nas serras de Minas;
havia o vinho carmim do acaí
na tigela
do Pará ao Maranhão.
Galinha de cabidela
pinga na roça
e tererê à vontade
durante as cheias dos rios.
Havia macacheira cozida
e polenta assada
havia torresmo e pinhão.
Depois da piracema
havia peixe de montão:
pirarucu, pintado
com pirão.
E tinha também a mariola
nos trens da Central do Brasil
vendidas a grito e a vintém.
Roletes-de-cana, garapa
e paçoca
sem contar que o amendoim torradinho
nas matinês do cinema
-dizia-se-
era afrodisíaco.
Tinha até feijoada
e angú e arroz carreteiro
e pamonha
em folhas de milho
tacacá-no-tucupi
e mugunzá.
Hoje tem pipoca de micro-ondas
hamburguer de freezer
comida a quilo
no delivery do fast-foood
para o horror do poeta Ariano Suassuna
reclamando do coffee-break.
PARMNIDES E O SER Poema de Antonio Miranda “Penso, logo existo”. DESCARTES [1596-1650]
“Pois o mesmo é pensar e ser”. PARMÊNIDES [530-460 a.C.] Não sei em que minha identidade
me assemelha ou me diferencia...
Só percebo as semelhanças
contrapondo as diferenças...
Pouco me importa as diferenças
que me separam dos outros...
O que importa são as diferenças
ao longo da própria existência?
Semelhanças e diferenças se fundem
e me confundem... Porque sou
o que não mais sou... Mas
nunca serei o que nunca fui...
Como bem disse Parmênides:
“o nada não é”. E “não
conhecerás o não ser”
mesmo que os poetas o queiram.
Continuar sendo o que deixou de ser
pois o ser é “uno e contínuo”...
E continuaremos sendo
mesmo depois de sermos.
Na Natureza nada se extingue:
e não há princípio nem fim.
Se não viemos, tampouco
iremos a lugar algum...
Biografía:
Antonio Lisboa Carvalho de Mirandapossui graduação em Biblioteconomia - Universidad Central de Venezuela [1970], mestrado em Ciência da Informação - Loughborough University Of Technology [1975] e doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo [1987]. Atualmente é professor da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Ciência da Informação, com ênfase em Planejamento de Sistemas de Informação, atuando principalmente nos seguintes temas: comutação bibliográfica, acesso a informação, sociedade da informação, sistemas de informação e comunicação científica. Atualmente está trabalhando com projetos de alfabetização e inclusão ditital.
http://www.antoniomiranda.com.br/ antmiranda2004@yahoo.com.br