ENSEJO tombar a secreta bastilha destituir dinastias larvais alçar-se a um novo estado – o poético vela a trepidar sob este véu contínuo catequisar as almas vãs dos reis viver de flores invernais e espadas trazer em cada marca do aço o romper de uma trova revoada e ao fim das sazões já com mares nos ombros sair pelas manhãs... em busca do poema que me encontre. ********************** IN ...
ENSEJO
tombar a secreta bastilha destituir dinastias larvais alçar-se a um novo estado – o poético
vela a trepidar sob este véu contínuo
catequisar as almas vãs dos reis viver de flores invernais e espadas trazer em cada marca do aço o romper de uma trova revoada
e ao fim das sazões já com mares nos ombros sair pelas manhãs... em busca do poema que me encontre.
********************** INTENTO
hei de abrir um duto pra que a mente escoe meus miolos vibrem tais botões de mar
a minha idéia há de correr sobre a navalha e se calhar o Letes cobrirá minha banheira
não haverão minh’alma em Ararat mas atracada no cenho das ruas.
******************************* NO DIA EM QUE ESCREVO VERSOS
no dia em que escrevo versos as nuvens se me desprendem não chove senão do avesso
no dia em que escrevo versos levo os olhos à vista os pés em cevada imersos
no dia em que escrevo versos trago nas mãos gasta rosa na pulsação, mil invernos
é minha idéia escura que me impede a cura
no dia em que escrevo esses versos escrevo sem dar por mim dar por eles
escrevo sem desejar vê-los lidos trago na idéia sintaxe de exílios à alma, uns orvalhos inversos.
*********************** A PALAVRA
entre o livro que lavra e a mão que emana entre o olhar que espanta e o que cicia a palavra morreu – era nada lágrima desfeita em tinta tanta imagem d’ algo inominável que um nome nomeou por teimosia
********************** PASSEIO
as gentes as amo abstratas a ti anseio no rijo na forja do suicídio hepatocancerígeno às 4 na abstinência de Lírio
vagando em vício pelas inflames ruas intensas [vergonhas que o Pai tem a mão]
ouvindo famintas larvas d’ave no asfalto infindo
tendo nada além da tenra idade R$10 o Medo um último cigarro de minuto após
empesteia de si mi’as ciências o arauto da Luz
minhas idéias não me limpam o cu vazado
mas no ver-Te me curo me curo no ver-Te.
************** DESVALIDO
não sou senhor sequer do corpo que me veste. chamar de meu espírito o trigo de alheias mãos!
reclusos sestros abrigo. em maços saudade alard'o. possuo nem mesmo a ave que em meu inverno lateja.
**************** CORPOS
ante entre sobre
e assim se gasta a noite
*************** POESIA
soneto que pari parou-me só dei de si quando houve procissão de metáforas por mi'as vias fleumáticas
no mais das vezes não vale a pena dar pena ao acre ofício - artifício uterino [o feto nos sorve o cassino]
é marcha de causos lassos tocando uma - são raros os de se pôr à estante pra repousar sob Dante
se ferir-vos, seu bote, não xote relaxa que passa o Concorde.
***************************** MANHÃ
café mormaço chinelo os pensamentos de pé a língua dormente espasma
aconchegante Marlboro a remembrança vagueia sob este incenso de acaso
toalhas... 2 cerzidas à identidade da corda.
*********************** ENCONTRO
maio manhã sábado
casaco embotado pernas em dor livro ao colo embarco n'ônibus de costume sem dar vazão aos olhos a tudo atentos
sento-me ao fundo para não ser vista enfio-me em livro de Cortázar doidos bons livros os de Cortázar
súbito qual despertasse de tenebrosas profundezas ergo a cabeça cabelo aos olhos como me eriçassem os cílios sinto aranha à laringe escorpiões miolos
no banco em frente presença diminuta de menina mínima anos? 12 se muito
pequena pra idade lembro cabelos cuidadosamente desgrenhados nem mamãe disciplinava trata-se de mim
suspira diário aberto retrato de guri chove ônibus de sempre linha 81 mesmos passageiros sempre só ela enfim destoa
põe-se a rabiscar na úmida janela um coração ou o esboço dentro coloca não o nome de seu querido posto que eu não lembrasse mas sutil um “ele”
não sabia haver amor aos doze anos
******************************** TU
queria sentir tua idéia como um perfume caro ou narcótico ansiado que a minh’alma aleija
e ao chegar a tua forma deitar as palavras feito contas desfiadas sobre um chão de missa
atracar-me a teu sabor como um veleiro firme a envelhecer no porto
abraçar tua ausência feito um peregrino nos porões da Fé
********************* RELATO
eu nasci num silêncio de Ísis sem véu meu primeiro verbo fez secar o Sol
fui por noite enferma a gemer manhãs desnudo de ungüentos mil senões por ar
fui pelas galés a coser monções expurgo da Lei o pender por norte
fui por mata escusa a fremir fragatas descido dos astros por bem só meus ais
************************* RITA
ela tem cachos como escaravelhos olhos d'impérios contidos tem risos de foda com o Cão ao colo mil flores frementes
ela tem napoleões no andar a alma em ruínas acesas um maço amassado que pulsa
ela tem meu intento de instante no branco dum dia sido.
***************************** ELA
olhos de brisa ardente a mente semeia infernos na bruma da noite eterna
um corvo saracuteia por avenidas dispersas em solidão reticente
Regina - riso poente em mil abismos secretos
**************************** COMUNHÃO
resmas de trigo ao corpo ao cálix a mênstrua tinta e ao coração sedutor a violação dos altares
************************** TORAH
a Lei que me toca é livre dos livros eternos, voa das tábuas do vil SInai aos sinos que a alma entoa
desnuda a Torah das letras YHVH - metáfora da Pessoa o Orco? rima canhestra que num arfar se destoa.
************************** ARTE
quando 'm versos abissais meu todo explode - só o nada avante sinto
ó Melancolia faz da arte em mim Teu labirinto
************************** INSTANTE
e silente vago amarga mente a minha idéia? sensações...
********************* ESTÉTICA
a arte nos ferra ao perpétuo efêmero da singularidade extática. a arte barra o iminente. a arte ceifa e cose o fluxo orgânico. a arte ata carniça a fetos.
a arte paira no havido e vibra no a-ser.
mas como supô-la plena se a circunstância é senhora? que margens propor à Estética se há lastros de Si no belo mas lotes de Ti no olhar?
************************************ GALÉ
espectros tétricos lambem a gangrena dos credos: os nuncas anseiam ser.
à noite engasga um rubi que escava a entranha. a nobreza blasé se intifada.
quem guiará a galé que o pó de frufrus vis encarde à universal dignidade?
******************************* AGORA
que nos podem soprar os crânios fendidos dos antigos? proclamo o parto seco [que rasga e doira] do ilimitado Agora!
colega... teu verso lavra uns gemidos prenhes de lázaros em rima que à foz repousa a bradar 'evoé... qualquer cousa'?
por que nos urges a uma catatonia litúrgica? vê: a toga em ti causa risos.
baganas: não ambrosia! nada de améns: porfia! os ácaros não são criativos.
como explicar a caquéticos tios nos preparativos da orgia que os cortejos suplantam a ágape dos viadutos e picapes de ricos segredos neolíticos não pagam um LP dos Beatles?
****************************** JOVEM
estranha beleza a tua camelô do Oriente em Veneza que ao suor de esquinas virgens falseia odes nascentes
estranha beleza a tua traço que se impõe à borra primavera vulgar de minha voz suspensa a abstratos lírios
melancolia apátrida esta tua beleza estreita de enleio à janela – morta
halali de imundo infante ao aro de amor-perfeito sobre um semblante de mãe
*************************** LEGADO
quem me aporá rosas à cripta? se os dromedários estultos seguissem as trompas de Jericó Triunfante nas primaveras etílicas...
serenidade de torpe incensário em aquários esfacelados... quem me aporá rosas à cripta? e que naipe levará ao colo?
terá olhos de agouro ou de réu, o Relicário, às névoas virgens? e sua oferenda nefasta dará algo além de marsúpios?
necrosam-me as boas vontades, ó Golem que me aporá rosas quando os versos enrugarem num silêncio de entreposto.
quem tocará meu princípio, que quedará partido e alado nas dobras da Mão Divina quando requisitarem o sopro?
*************************** NOTURNO
não vem beijar-me a Brisa à noite em que me encerro esparso – em relva lisa ou ferros de caderno?
não vem tocar-me o Verso à noite em que me ocaso eirado – para o inverno ou soneto devasso?
não vem sentir-me a Selva à noite em que me espasmo exausto – à densa leva ou doce pleonasmo?
só a tua mão em minha face, Nara, eu sinto! a esfarelar-se.
*************************** AMANTES
suave... a noite. açoite = espera. quimera: velas. veleja, ó nave!
ponteiro - parado. o bonde - parado. a vida - parada. coração? revolto
***************************** ANSEIO
à tarde que o clamor do mar dissolve deixai-me a ansear sem o que ansear - salvo a morte.
********************************** IDENTIDADE
sou eu que escrevo o que escrevo?
e quem sou eu de escrever feito fosse?
sou eu que escrevo o que escrevo?
e quem sou eu de escrever?
sou eu que escrevo o que escrevo?
e quem sou?
**************************** CIRENEU
Quem recolha as crostas dos anos sidos quando uma alta e breve mão comprime mi'a carranca vítrea, não tenho. Amigos? Não há quem me venha adivinhar os crimes
almejados dentre a leva humana quando à putrefacta chama vem arder-me o eterno. Quem, como eu, se entregue entre coxas n'antros de moçoilas vãs, por amor sincero,
através da bruma, quando a noite cessa em xilocaína ou vias de unha às costas... Quero! Clamo! Espero um cireneu: espessa fíbula que sustenha a Alma decomposta!
********************************** OLHOS
eu que o espelho afaz estes olhos de jamais
eu que o viver atraso levo olhos de ocaso
eu que a gemer m'aturdo estes olhos d'absurdo
eu que a fazer me devo levo olhos de acervo.
******************************* BAGDÁ
esta noite pires negro sem pires
lírios bolorentos num convulso amarelo parem moscas
sobre Bagdá avoam acauãs serenas
temos olhos surdos
mas [segredo!] nosso verso pode ser vômito negro.
***************************** QUEDA
eu caí duma fenda vaginal marginália - aliteração viril mas foi rasgo andaluz que me abriu para a mística glória carnal