SEGREDOA vida é apenas segredo.Não há muito que saber.Ninguém precisa sabero que contém teu segredo.É só um dizer de menos,um nada mostrar de teu,pois no que mostras de teujá o mostras pálido e menos.[É só um não revelardo enigma que jaz no fundo,e nunca atingir o fundono esforço de revelar.]A vida é coisa e segredopara o teu pouco saber:ser o bastante saberque há vida, coisa e segr ...
SEGREDOA vida é apenas segredo.
Não há muito que saber.
Ninguém precisa saber
o que contém teu segredo.
É só um dizer de menos,
um nada mostrar de teu,
pois no que mostras de teu
já o mostras pálido e menos.
[É só um não revelar
do enigma que jaz no fundo,
e nunca atingir o fundo
no esforço de revelar.]
A vida é coisa e segredo
para o teu pouco saber:
ser o bastante saber
que há vida, coisa e segredo.
SONETO DE UM DIA QUALQUERVagabundo de sol e de sentido,
de não ser necessário mais buscar,
porque qualquer caminho há de levar
ao que tenho tramado e pretendido
[sem uma comoção, sem um gemido,
na perfeição exata deste estar
à deriva no que não chega a mar,
no que não leva ao porto prometido] -
basta-me ser inverno, e haver a chuva
a bater no telhado, e o dia escuro,
de um ócio que me quadra como luva:
e este não progredir para um final,
que é todo o meu domínio e o meu fanal,
todo o espanto que espero do futuro.
PENSO, POUCO EXISTOTrinta e dois anos
a procurar um coelho
num labirinto de ventos.
Não, não sejamos rudes.
Admitamos que algumas sombras
se formaram e que
de inverno a inverno,
de dissipação em dissipação,
uma certa flor foi colhida -
embora efêmera e cinzenta.
Pensemos que um certo cansaço
nos dá a consciência de que chegamos
a este ponto, seja qual for.
Sem pensarmos no que poderia
ter sido possível [asas de vidro
numa tempestade], pensemos
que isso foi possível -
e o cansaço se acumulou.
Afinal, chegar a um ponto
[por menos consistente] é chegar a um ponto,
e não ter trazido o mapa
é ainda assim ter chegado,
estar aqui, depois da estrada.
Admitamos que, trabalhando
com uma hipótese improvável,
realizamos uma hipótese: esta,
seja ela qual for.
Trinta e dois anos - o suficiente
para alguma coisa, por menos clara,
para a consciência de alguma coisa, como,
por exemplo, murmurar: Edificou um
castelo na perplexidade.
biografia: Natural de Barroso, estado de Minas Gerais [Brasil], Renato Suttana é graduado em Letras pela Universidade Federal de São João del-Rei, mestre em Letras pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP], de Assis-SP. Trabalhou como professor de ensino fundamental e médio em escolas da rede pública mineira, tendo sido professor da Escola Preparatória de Cadetes do Ar, em Barbacena-MG. Atualmente, leciona literatura brasileira e teoria literária no curso de Letras da Universidade Estadual do Centro-Oeste [UNICENTRO], em Guarapuava-PR. É autor dos ensaios Uma poética do deslimite: o poema como imagem na obra de Manoel de Barros [dissertação de mestrado, inédita em livro] e João Cabral de Melo Neto: o poeta e a voz da modernidade [2005]. Publicou os livros de poesias Visita do fantasma na noite [2002], Bichos [2005] e Lâmina [e outros poemas] [2006].
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