SONETO DA PREMONIÇÃO A ciência de saber que a vida seguenão diminui a dor de te perder.Foste tu que bateste à minha porta,abri-a, par a par, e sem temer.Entraste deslumbrado, eu, generosa -vivera mais que tu, sempre a me ter,doesse a corda louca e uivasse a rosa,eu me esmerava em ser como mais ser. Sei que um dia essa febre vai passar,e vou lavar meu corpo com cui ...
SONETO DA PREMONIÇÃO
A ciência de saber que a vida segue
não diminui a dor de te perder.
Foste tu que bateste à minha porta,
abri-a, par a par, e sem temer.
Entraste deslumbrado, eu, generosa -
vivera mais que tu, sempre a me ter,
doesse a corda louca e uivasse a rosa,
eu me esmerava em ser como mais ser.
Sei que um dia essa febre vai passar,
e vou lavar meu corpo com cuidado,
apagando o roteiro do desejo.
Espera, e agora escuta: há um alarme no ar.
Em nossa porta, foi estilhaçado
o cadeado azul de nosso beijo.
O NOVO TORSO DE APOLO
Eu só vi tua cabeça e a percebi inteira.
Quando as pupilas amadureciam, eu vi
teu torso a brilhar mais do que uma tocha acesa,
na qual o teu olhar, de si mesmo saído
detém-se e reverbera. Ou então não poderia
teu mamilo cegar-me, e nem a doce curva
dos rins teria mãos de abrir o meu sorriso
até este teu centro, donde o sexo uiva.
Diversa vejo a carne densa e inaugurada
sob a curva de seda - nos ombros, a imagem.
Meu ser não fremiria, na pele selvagem,
e nem te deixarias além de suas raias
qual astro que se mira - nele não há quina
que não me toque, lenta, e diga: dá-me a vida.
AURORA
O anzol de tempo
me encontra silenciosa,
e as noites de luar ocidental
penetram dias de oriente.
Viajo para o Norte,
e salta o coração
nos pontos cardeais
e nos desvios de rota —
tão colaterais neste deserto,
perdição, se dormes,
potro de fogo e vento
na concha em que nasci,
o espelho sagital com
seus torsos.
Te contorces
quando te toca a brisa de abril
nos trópicos
onde pernoita o pensamento.
Traça-se um trajeto para
o passo caapora
e felizmente assim
[ando para trás
e por dentro de uma vastidão azul
entre a porta e a morte súbita].
Houve dias de tormenta em cabos nãos
a serem dobrados em pura calmaria.
O promontório púrpura
se inunda de ungueado som,
corvos crocitando
em céu de nuvens densas.
Sigo assim, eu em verme,
eu, peixe de Deus
em lesma expatriado —
purgado pelo sal,
espécie em redenção
de um viver tardio.
Aurora boreal
de um durar ausente
a emanar doces cintilas —
enquanto cai a sombra
do avantesma austral
arrastando este dia
para a limpidez da hora.
Biografía:
Nasceu em Salvador e passou sua infância em Vitória da Conquista. Iniciou-se muito cedo em poesia. Publicou, pela primeira vez, em periódicos de Salvador, aos dezesseis anos. Em 1969, seu primeiro livro de poesia, Chão Circular [1970], que tem prefácio de Adonias Filho, obteve o “Prêmio Arthur de Salles”, do Governo do Estado da Bahia. Vários livros publicados nos gêneros poesia, conto e ensaios. Sua obra, inclusive peças teatrais e traduções, tem recebido acolhida calorosa da crítica do País e do exterior e alguns prêmios. O livro mais recentemente publicado, poesia, é o Delírio do Ver [Rio e Salvador: Editora Imago, 2002]. Extensa participação em antologias e periódicos locais, nacionais e internacionais com poesia, conto, e crítica de literatura. Doutora em Literatura Comparada [Universidade da Califórnia, Berkeley]. Professora da Universidade Federal da Bahia, ora aposentada. Consultora free-lance para Pós-Graduação. No momento, continua com trabalhos de consultoria e coordena, desde o ano passado, uma oficina permanente de criação literária. Grande parte de sua obra é inédita.
paranhos_44@hotmail.com