POESIA PRA QUE TE QUEROA Janice JapiassuPara eles a poesiaé uma donzelaque não pisa no chãoe passeia de armaduranuma bolha de nuvem.A poesianão tem leito nos peitosnem cheiro no sexoe não constituinova versãoda Virgem Santíssimaque pariu sem pecadomas sujou-se com o partoe as radicalizações de mãe eleita. [*]A poesia é um ...
POESIA PRA QUE TE QUERO
A Janice Japiassu
Para eles a poesia é uma donzela que não pisa no chão e passeia de armadura numa bolha de nuvem.
A poesia não tem leito nos peitos nem cheiro no sexo e não constitui nova versão da Virgem Santíssima que pariu sem pecado mas sujou-se com o parto e as radicalizações de mãe eleita. [*]
A poesia é uma irmã biônica do Filho sem espinhos nem cruz sem suor nem sangue sem pão nem peixe sem festa e vinho sem óleos nem carinhos de Madaleno.
A poesia mora num bunker aromatizado com spray composto de peças e paisagens em realidade virtual.
A poesiafoi vacinada contra e não se agenda para tesões tensões contradições confrontos e conflitos.
A poesia faz companhia limitada a ela própria e seus eleitos comunicando-se à distância em circuito fechado.
A poesia se inscreve por controle remoto e sensibilidade remotíssima.
A poesia é a dissecada coisa em si e para si com antena para nós programada em pára-raios
[*] \'Ele realiza proezas com seu braço: dispersa os soberbos de coração, derruba do trono os poderosos; eleva os humildes; aos famintos enche de bens; e despede os ricos de mãos vazias\' [O cântico de Maria - Lucas, 26-38]
MACROLOVE
Não quero ser para você apenas arquivo sem nome subdiretório beckup ou resto na lixeira.
Nem pretendo só inserir o meu disquete no seu drivin.
Desejo ser janela ajuda documento mestre atalho ícone principal entre os seus programas favoritos.
Espero que você me salve noseu disco rígido me feche sempre com cuidado me proteja com anti-vírus e nos garanta com upgrades.
Quero que você me deixe entrar nos seus arquivos visualizar as suas impressões me recortar me colar me editar e me configurar na sua tela inteira.
Mantenha sempre aberta a sua caixa de entrada que eu saberei clicar com jeito o seu mouse e penetrar nos seus periféricos ajustando a minha barra de ferramentas aos contornos da sua área de trabalho.
Por fim o apelo passional de quem deseja com você total integração em rede: DELEITE-ME OU DELETE-ME!
BANDEIRAS
A Lorena Araújo
As nossas bandeiras devem estar sempre içadas inteiras e limpas.
Bandeiras sujas e rasgadas somente pela força dos ares do suor ou do sangue das campanhas.
É preciso proteger nossas bandeiras contra os ratos e o mofo das gavetas.
As nossas bandeiras br>não são para ficar o ano todo guardadas expostas apenas em dias de festa.
Elas devem tremular sempre no alto dos mastros e nas nossas andanças de todo dia.
Assim passando de mão a mão de geração a geração as nossas bandeiras irão ficando gastas.
E de tempos em tempos nós as substituiremos por outras iguais de panos novos.
E elas se olharão como fazem os avós e os netos.
E ficaremos todos satisfeitos vendo as nossas bandeiras renovadas desfraldadas inteiras e limpas.
biografia:
Marcelo Mário de Melo é jornalista, nasceu em Caruaru em 1944 e veio para o Recife em 1953, com nove anos de idade. Escreve poemas, histórias infantis, mini-contos e textos de humor.
Considera-se um poeta mateialírico e entende que as palavras não devem ser transformadas numa nova modalidade de culto.Vê a poesia como uma espiral-arcoíris de portas abertas e andantes, envolvendo os mergulhos introspectivos, os conflitos sociais e as viagens cósmicas.
Tem três referências fundamentais na vida: a esperança crítica - nem otimismo nem pessimismo: o real tal qual viceja ou apodrece; a megalomania moderada - grandes projetos com um redutor; o narcisismo com espelho retrovisor - para que todos possam ver a própria cauda.
Politicamente, identifica-se como plebeu, republicano, democrata, cidadão de esquerda e socialista, procurando seguir o lema: sempre à esquerda, não ultrapasse pela direita. Integrou-se ao PCB aos 17 anos de idade, foi fundador do PCBR em 1968, atuou na clandestinidade e foi preso político em Pernambuco de março de 1971 a abril de 1979. Filiou-se ao PT em 1980. Defende uma militância com poesia prazer amizade e humor e uma esquerda com raízes, caules, folhas, flores e frutos. Sendo plebeu e republicano, define-se como materialista e ateu por uma razão essencialmente política: os seguidores do Altíssimo querem implantar na terra o Reino de Deus e não lhe é aceitável essa forma de governo.
Publicou Os Quatro Pés da Mesa Posta [poesia] o Manifesto Masculinista [humor] e Entre Teias e Tocais, perfil parlamentar de David Capistrano, ex-deputado por Pernambuco e desaparecido político brasileiro; o Manifesto da Esquerda Vicejante Mais textos e Poemas.
Atualmente é assessor de comunicação social da Fundação Joaquim Nabuco e do Diretório Municipal do PT Recife.