DESTERRO DA ALMAEra uma vez...Foram tantas vezesQue não consegui avaliarAs agruras por que passeiNesta horripilante passagem.Na clausura propiciadaPelo entrevero da saudade,Senti o desmantelo da alma,Aprisionada à massa disforme;Reminiscências desgostosasQue me remeteram há um tempoCoberto pela mortalha do abandono,Onde o sofrimento fazia moradia.Quantas vezes o dor enxugou o pranto,Retendo a ...
DESTERRO DA ALMA
Era uma vez...Foram tantas vezes
Que não consegui avaliar
As agruras por que passei
Nesta horripilante passagem.
Na clausura propiciada
Pelo entrevero da saudade,
Senti o desmantelo da alma,
Aprisionada à massa disforme;
Reminiscências desgostosas
Que me remeteram há um tempo
Coberto pela mortalha do abandono,
Onde o sofrimento fazia moradia.
Quantas vezes o dor enxugou o pranto,
Retendo a lagrima indecisa,
Flexionando os lábios arroxeados
Para mostrar um sorriso forçado!
Minha peregrinação em busca de paz,
Denotou incorreções desastrosas
Laureada por paliativos venosos
Que construíram minha derrocada.
Determinado a reanimar o sentimento,
Enveredei por crenças obscuras.
Incorri em infrutíferas tentativas,
Com resultado desesperante e aflitivo.
Diante das intermitências da reencarnação,
Desiludi-me com a descartável exposição.
Minha estadia imprestável e desastrosa,
Revelava um erro de concessão divina.
O mote doloso do poema da vida,
Norteou meus lentos passos,
Incorri na tumoração da aura,
Que decompôs as partículas da massa.
Agreguei as pérfidas inutilidades
Que sempre partilharam meu caos,
Cruzei as mãos, e contemplei o fim;
No leito negro, enterrei a penosa existência.
Sob a gélida lápide, fiz minha guarida.
Vez por outra, espio corações rancorosos,
Depositarem flores apáticas e desoladas.
A treva do meu viver, regurgita fragrâncias.
Sou alma errante e penalizada pelo ócio,
A pajear esta matéria em estado de putrefação.
Foi assim que encurtei a distância da vida
Para alienar-me a escuridade do limbo...!
COMO POSSO TE ESQUECER?
Hoje, reli tuas cartas amareladas.
No melancólico sótão da memória,
Algumas caixas empoeiradas
Ainda guardam muitos sonhos.
Percebi que o tempo é traiçoeiro,
Não hospeda apenas uma passagem,
Determina a existência de meu amor.
Sinto-me inanimado nesta clausura
Que me acresce de infinda saudade.
Vejo a lua esconder o brilho,
Conspirando contra meu sentimento.
Não consegui transpor a lembrança.
A cada dia sou acometido por lágrimas
Que me punem pela aquiescência
De sempre mergulhar no passado.
Não luto, a intempestividade do rompimento
Enegreceu minha atitude e suscitou a dor.
Minha incompletude fez-me refém
De um amor que há muito partiu.
Agora, embebido no fel do abandono,
No inquietante lamento da reconstrução,
Vi a letargia danosa se avantajar.
Não mais articulo, fui soterrado pelo abandono.
Abracei o vazio, flertei com a tristeza.
No adeus, teus dedos datilografaram o ar
E apagaram a luz que iluminava a felicidade.
Preciso me reciclar, voltar a viver.
Que mais preciso fazer para te esquecer?
AINDA VEJO ROSAS
Desnorteado pelas fraquezas que a vida me mostra,
Na mandinga que eu não acredito,
O cristo ressuscitado que partiu sem retornar,
Finei a adoração ao santo no comércio do altar...
Tanta hipocrisia que a tonta filosofia,
Tenta em vão explicar vertendo graduada tolice.
Sou partícula diminuta, desconectada,
Errante, sem entender o porque de tantas guerras.
O mundo tomba sonado em busca do poder.
Nada peço, tampouco desejo curvar-me ao lamaçal.
Apenas desejo ser, existir sem subtrair auras.
Um amor que partiu, outro que chegou incomodando.
Processo o instante para deparar-me com a realidade.
Abandonei crenças duvidosas calcadas na ganância,
Acreditar no abstrato é abraçar o vazio.
No imbróglio da alegria, desmereci o sorriso.
Já vi meus lábios arroxeados pela dita[dura],
Da experiência herdada pela truculência,
Pintei na tela da vida minhas feições disformes,
Pinceladas por agressões postadas na sombra do pranto.
As ingerências dos mandatários sucumbiram ideais,
Espelhos quebrados, desenhos opacos e lúgubres.
Numa estática lagrima, o solitário sorriso glacial
Que estancou o pranto na retina gelatinosa.
Sinto-me absorvido pela imposição do reacionarismo
Que aos pouco vai minando e mumificando a eloqüência.
Em dose diária, a pílula do conformismo me estatiza.
Embora pareçam cálidas e esmorecidas, ainda vejo rosas.
No inconformismo, enlacei o cálice do meu desespero.
Entornei o copo da amargura e brindei a derrota,
Onde o fel do meu dissabor gerou secreção venenosa.
Degustei a infelicidade do momento e ofereci rosas.
Vi minha alma ausentar-se em sinal de protesto.
A névoa da sofreguidão cobriu-me de tristeza.
A mortalha do abandono selou a forçosa aquiescência.
O apocalipse sorriu, o infernou aplaudiu, o céu feneceu.
Absorto, não esbocei aflição, tampouco desejei perdão.
Na vertente da sabedoria que regia todos os engodos,
O câncer da malfadada existência havia sido extirpado.
Avistei a decomposição paisagística na flor da roseira.
Em minha imputada esqualidez, ainda vejo rosas...
Que se digladiam com seus espinhos em riste.
Todas buscam o poder na mais poderosa fragrância.
Rosas tetraplégicas, viciadas, sem perfume; desbotadas!
biografia:
Poeta, escritor e compositor, Paulo Izael tem dois livros publicados: 'Desiguais e Solitários' - poesias, pela Quatryx Editora e 'Vida Amarga' - romance, pela Editora Seqüência. Compositor de mais de 150 músicas, tem parte delas gravadas por cantores e conjuntos. Além disso, tem mais de oitocentas poesias escritas.
Paulo é um amante das artes. Coleciona vários quadros, estatuetas e centenas de Cd´s. Gosta de ouvir Louis Armstrong, Ray Charles, Billie Holiday e Chico Buarque, além de enveredar por Óperas e todo o vasto repertório da Mpb e samba do Brasil. Excelente jogador de Damas e apreciador de churrasco, cerveja e vinho. Ao contrário do que canta sua poesia que sempre lembra a melancolia e a despedida cruel, tem um senso de humor apurado e sempre está de bem com a vida e pronto para dialogar.
Atualmente está com um romance pronto, de 700 páginas, e está em negociações com editoras para a publicação do mesmo. Escreve desde os nove anos e tem parte da obra publicada na usina de letras. 'Escrevo o que sinto e não vivo o que escrevo', diz Paulo Izael.
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