MEU QUADROSe eu pudesse segurar o tempo,certamente o prenderia num quadro com moldurae o dependuraria na sala de jantar.E todos os dias, durante todas as refeições,eu olharia para o quadrorevivendo os acontecimentos,dando até um jeitinho naqueles ingratosque me deixaram triste, com cara de dor,se eu pudesse segurar o tempo.Poderia também acrescentar mais coresnos momentos de sonhos concretos,d ...
MEU QUADRO
Se eu pudesse segurar o tempo,
certamente o prenderia num quadro com moldura
e o dependuraria na sala de jantar.
E todos os dias, durante todas as refeições,
eu olharia para o quadro
revivendo os acontecimentos,
dando até um jeitinho naqueles ingratos
que me deixaram triste, com cara de dor,
se eu pudesse segurar o tempo.
Poderia também acrescentar mais cores
nos momentos de sonhos concretos,
dando mais vida ao primeiro amor
mais solidariedade ao amigo do peito,
se eu pudesse segurar o tempo.
Faria que meu espaço cotidiano
tivesse no centro uma árvore ainda maior
bem florida e bem amada
cúmplice das minhas alegrias, dos meus medos
e dos desencontros e dos desalentos,
se eu pudesse segurar o tempo.
Minhas fantasias esvaem-se sombrias
porque o tempo não me espera
porque eu sempre tenho pressa
porque eu não sei como segurar o tempo.
Mas uma coisa bem aqui dentro
parece que me acalma e me consola
mostrando-me que o quadro da parede
com moldura bonita para segurar o tempo
eu posso vê-lo sempre, sempre
porque a imagem dele ficou impressa
de tanto eu ter querido segurar o tempo.
JABUTICABAS
Parecia com um outra qualquer,
mas aquelas florezinhas, quantas!
E todos os dias
a menina pequena que eu era
ia conferir com espanto
a árvore frondosa
que gostava de água límpida
que pingava gota a gota.
De repente, bolinhas verdes
da noite pro dia surgiram grudadas
e eu fiquei parada, estática
tentando entender o inexplicável.
Surpreendi-me, porém,
quando naquela manhã
o verde ficou negro
reluzentemente negro
magicamente negro.
Havia ali centenas de espelhos
revelando meu doce espanto,
porque aprendi sem querer
que o brilho era doce,
sumarento.
Só bem mais tarde soube que há brilhos e brilhos
e que, infelizmente,
nem todo brilho sedutor
é doce
porque nem sempre
é cultivado gota a gota.
FAMÍLIA
Não cabe apenas no porta-retrato da sala.
A família é uma verdade
doce-amarga
na rotina sem gosto de domingo:
discussões inevitáveis -
explosão
confissões aos sussurros -
emoção
corações petrificados -
solidão.
É verdade tão sublime,
que afasta rumores estranhos
e adota linguagem cifrada
e funde laços rebeldes
e perpetua sagrados vestígios.
É o estar-junto querendo ser livre
é o estar-só sentindo saudade.
É o quadro mais belo da alma
onde é difícil penetrar
pois a foto tende a ficar lá
até sempre
impregnada
amarela
fotogênica
família.
biografia:
Maria Teresa Hellmeister Fornaciari, paulistana, nascida em 15 de abril de 1954, cursou Letras e tornou-se Mestre em Língua Portuguesa pela Pontifícia Universidade de São Paulo. Sempre colheu os detalhes supérfluos do que a seduzia, com os quais formou idéias e construiu poemas, procurando chegar ao fundo das coisas. Acreditou que a distração lhe mostrava a verdade e, com sua atenção desatenta, anotou o que via, devolvendo, depois, sua visão enternecida por meio do texto, na folha em branco. Atualmente, como professora de Literatura, procura perscrutar os segredos da palavra escrita, para que cada vez mais pessoas possam sentir-se privilegiadas com a vivência dessa arte mágica imensurável.
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