CÁLCULO DAS PERDASDescartei Seu ombro lindoQue agora Procuro em dobro.Calculei Achar liberdadeQue veio Com peso e malogro.Desconsiderei Suas mãos amigasQue agora Procuro aos pares.Desprezei Seu perfume puroQue deixei Derivar pelos ares.Restou o remorso Em curva ascendenteQue sobe o quadrante Tendendo ao infinito.Em fotografias Esquadrinho em detalhesOs graus perfeitos Do seu rosto bo ...
CÁLCULO DAS PERDAS
Descartei Seu ombro lindo Que agora Procuro em dobro.
Calculei Achar liberdade Que veio Com peso e malogro.
Desconsiderei Suas mãos amigas Que agora Procuro aos pares.
Desprezei Seu perfume puro Que deixei Derivar pelos ares.
Restou o remorso Em curva ascendente Que sobe o quadrante Tendendo ao infinito.
Em fotografias Esquadrinho em detalhes Os graus perfeitos Do seu rosto bonito.
Se voltássemos Ao ponto zero Que marcamos Na engenharia.
Minimizaríamos, Eu espero, Estes efeitos Da minha agonia.
Sua presença perfeita Eliminaria a saudade Ou, em hipótese aceita, Reduziria à de.
GENERAIS CEGOS
O General de Ferro está cego. Balança numa cadeira e conta histórias. Seus coturnos não mais lhe cabem nos pés. Descalço, repousa frágil e olha as escórias. Como se enxergasse.
O general que ordenava pede socorro. Bebe como um louco e exibe seu sabre. Recita suas batalhas, estrelas, amantes. Mais uma garrafa de rum ele abre. Tolas conquistas.
Ao seu lado, de pé, um soldado a deriva. Inimigo nos campos, um algoz sem divisas. Empunhando altivo um fuzil enferrujado Para o peito do velho aponta vidrado.
Ri como um louco o velho marechal. Parece gostar do Juízo Final. Enverga-se e ri em delírio profano. Suas narinas sentiram a ferrugem do cano.
A patente pueril do jovem Pracinha Não reduz a questão e o ódio que tinha. Com dois tiros no peito se apaga o brasão. A vingança consumida redunda em vão.
Em suspiros ainda a fazer continência Saúda o fim. E conhece a razão.
POMBOS
Da minha janela vejo pombos matinais. Tão próximos que sinto seus olhares rotos. Procuram formigas, farelos e milho. São seres feios, sombrios e gordos.
O ruflar das asas produz som grave e tétrico. Decolam e pousam em desajeito assimétrico. Sou torturado por gemidos, arrulhos e vozes: Coral regido por piolhos e zoonoses.
Nas bandeiras os vejo em paz e alento. Mas aqui só vejo peitos largos. Peito robusto de pombo é alvo suculento. Projéteis de fogo são bons para esses ratos.
O que o destino reserva a um pombo gordo? Que tipo de fim lhe seria mais nobre? Morrer engasgado com milhos no papo? Ou com uma bala no peito que partiu da minha Flober?
Seu radar com defeito os conduz ao meu Norte. Seus tripés enrugados minam minha sorte. Dar-lhes-ei chumbo hoje depois do desjejum. Projéteis de fogo acharão um a um.
São sete os granívoros, mas parecem milhões. Minha bandeira de guerra atraiu pombos lambões. E dirigem a mim seus múltiplos olhares frios. Vieram atrás dos meus conflitos e meu milho.
Sinto-me senhor do destino de pombos. Com milho ou chumbo, tudo leva ao fim. Serei assassino de pombos na aurora. E à tarde suas almas virão rir de mim.
Ao fazer pontaria, também apago o outro olho E me sinto pior que um pombo matreiro. Também sou parasita, me assemelho a um piolho. Os pombos ex-hóspedes agora são hospedeiros.
A matança de pombos ficará para amanhã Ou talvez se eternize a simbiose de olhares. Permito que sigam sua sina a esmo. E sinto que eles me permitem o mesmo.