INSOLAÇÃOFervia o horizonte da estrada.Meio-dia – o sol a pino!As curvas embaçadas...Um toco: um fantasma.Uma vaca: um monstro.A vaca comia capim secoE empoeiradoDa beirada da estrada;E babava barro!Do lado de lá da cerca,[onde havia um rio]Há, agora, outra estrada,De chão,Todo rachadinho!Acolchoado...Onde, outrora, um porco,Buscava um restinho de barroPara se enlamear.Às margens rastejav ...
INSOLAÇÃO
Fervia o horizonte da estrada.
Meio-dia – o sol a pino!
As curvas embaçadas...
Um toco: um fantasma.
Uma vaca: um monstro.
A vaca comia capim seco
E empoeirado
Da beirada da estrada;
E babava barro!
Do lado de lá da cerca,
[onde havia um rio]
Há, agora, outra estrada,
De chão,
Todo rachadinho!
Acolchoado...
Onde, outrora, um porco,
Buscava um restinho de barro
Para se enlamear.
Às margens rastejava
Uma jibóia...
O porco e a jibóia
Eram os únicos vivos.
Eu estava morto de sede!...
BEIJOS PASSADOS
As mulheres que me beijaram
Quando eu era criança
[e foram muitas],
Hoje são velhas
Ou já morreram!
Eu também envelheci
E, hoje, somente uma mulher
Me cheira, me ama
E adora ser inspiração
Para meus poemas!...
O QUADRO
Uma fêmea,
Com estágio de mulher,
Enfeitou minha casa.
Limpou, poliu, brilhou
E pôs uma rosa vermelha na jarra.
Depois, cobrou um remendo no vidro
Do quadro que adorna o hall de entrada.
Não é necessário...
Alguma coisa precisa haver
Para registrar a falha masculina!
Quando o Bem voltar,
O quadro vai ser outro!
ESPERA
Passo, vou, compro e volto.
Caio, me ralo, me enrolo e choro.
Sinto saudades, estremeço.
Bebo mais um gole!
Abstêmio – o sexo se atrofia...
Como sinto a falta de Maria!
Chega, chega mais perto!
Estou de peito aberto,
Ansioso na espera...
O que aconteceu ontem
Nem me lembro.
Chega janeiro
E não chega dezembro...
CENTRAL DO BRASIL
[Para Fernanda Montenegro]
Na praça da central do Brasil,
Os pombos comem, mansos e atentos,
Os mendigos rateiam migalhas,
O propagandista ecoa sua voz,
Os bancos ocupados com desocupados,
A menina vadia e espreita suas vítimas,
O trem... O trem apita e parte!
A vida “foi” bela
E a Fernanda, de mãos vazias,
Olha aos céus agradecida:
“Obrigada Senhor,
Até aqui, arredaram-me o tapete, mas venci!”
MIRAGEM
Abriu... abriu-se muito!
Era junho
E, pela abertura, mirava-se a flor,
Respirava-se o olor.
Desabrochou o néctar suave
Que, inebriando, enlouquecia.
Na cabeça, a recordação do último jogo
Frenético, exaustivo, rubro como a flor.
Desposa-se a solidão sob qualquer pretexto!...
Por entre a abertura, mirando, respirando
Solitariamente, quase esquecendo
Do jeito simples: Eu te amo... Eu te amo...
Um pequeno detalhe faz a diferença:
O sonho em miragem!...
AFORA A SAUDADE
Afora a saudade, vai tudo bem...
A alface cresce.
A abóbora se ramifica.
A couve, verdinha, se enfeita.
A mandioca faz sulcos no chão duro.
Os pardais insistem em almoçar de graça,
Mas a minha esperteza os impede de vazar as cordas
Das armadilhas e, assim, a horta produz.
Afora a saudade, vai tudo bem...
MEU EPITÁFIO
Jaz,aqui,comigo:
A infidelidade,
A inimizade,
A desonestidade,
O desamor
E a devastação da Terra.
Era meu sonho
Deixar o Mundo melhor
Para os que ficaram!...
biografia:
Antônio Fonseca tem 57 anos, casado, 3 filhos e 2 netos. É autor de: O Lar na contramão, Trilhas, Só, Poesias Contemporâneas, O Homem de Pedra [poesias]; Tonico - uma história fantástica [auto-biografia fantasiosa, romance]; Diário de Solidão [romance]. É membro imortal da ABEL [Academia Betinense de Letras], Betim Minas Gerais Brasil.
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