TRÊS POEMAS DO LIVRO “A TERCEIRA ROMARIA”,NARCISOJá não quero saber do amargor do vinho,sei que sou um bicho espalhafatoso.Assim vou, degrau por degrau,lavando o sal do mar de meus olhos,tirando os véus, despetalando as máscaras.Qual lâmina d’água decepará a dúvida?Qual sonho inscreverá a verdade?RURALPara Ivaldo ...
TRÊS POEMAS DO LIVRO “A TERCEIRA ROMARIA”,
NARCISO
Já não quero saber do amargor do vinho,
sei que sou um bicho espalhafatoso.
Assim vou, degrau por degrau,
lavando o sal do mar de meus olhos,
tirando os véus, despetalando as máscaras.
Qual lâmina d’água decepará a dúvida?
Qual sonho inscreverá a verdade?
RURAL
Para Ivaldo Vieira de Melo
No teu cavalo peito nu cabelo ao vento
Alceu Valença
Eu vou pra roça, ajudar o dia a amanhecer,
chamar os bezerros pelos nomes de suas mães
e ver a vacaria apojar
e sentir a chuva de leite em meus olhos.
Eu vou pra roça, lá Manoel é Mané
e a única máscara são os calos de suas mãos:
– mãos encardidas de leite.
Eu vou pra roça, começar o dia com um sorriso.
Meu cavalo e eu – Centauro do Sertão –
sairemos campo afora
apascentando a boiada, o milharal, o açude.
E os cajus haverão de destravar as fronteiras
e ouvirei o canto das patativas se estender até Assaré
e me entenderei com as beldroegas
e compreenderei a labuta das formigas.
Das quedas, trarei a lição do levantar
e seguirei pela vida ao lado de meu irmão.
Eu vou pra roça, lá o documento é a palavra.
BODAS DE SANGUE
Para Cristina Hoyos
Que beleza é essa que tanto me incomoda?
Que olhar de tâmara – sâmaras que se semeiam –
transborda dos cântaros de tua íris?
O que anunciam teus inquisidores e translúcidos olhos?
Tudo em ti é duplo, senhora do amor bruxo.
De tuas mãos multiplicam-se os gestos e as bênçãos
e com tuas mãos dizes mais que cem mil bocas juntas
e essas mesmas mãos prenunciam a beleza de tuas ancas.
Mas mais do que tudo, o que impera em ti
são esses milagres que são tuas tetas,
dois punhais que a cada instante furam minha paz
e que me ensinaram a amargar a verdadeira sede.
Ah Cristina Hoyos, deusa de Espanha,
vem bailando em nuvens e em versos de Garcia Lorca,
vem com teus punhais para a minha peixeira de 12 polegadas,
pois as nossas bodas só podem ser de sangue.
biografia:
José Inácio Vieira de Melo é alagoano, radicado na Bahia, nascido em 16 de abril de 1968. É poeta e jornalista. Publicou os livros Códigos do Silêncio [2000], Decifração de Abismos [2002] e A Terceira Romaria [2005]. Publicou também o livrete Luzeiro [2003] e organizou Concerto lírico a quinze vozes – Uma coletânea de novos poetas da Bahia [2004]. É co-editor da revista Iararana e colunista da revista Cronópios. Coordena o projeto Poesia na Boca da Noite. Participou das antologias Pórtico Antologia Poética I [2003] e Sete Cantares de Amigos [2003]. E-mail: jivm.inacio@ig.com.br